Ainda vale a pena ler 'A história me absolverá' de Fidel?

A primeira edição portuguesa é de 1971. Sai agora a terceira.

A capa desta nova edição de A história me absolverá mostra um Fidel Castro barbudo mas jovem, sem o rosto definido como ficará posteriormente conhecido após os seus vários confrontos com a História, aquela que o não queria incluir nas páginas do grande livro que se vai escrevendo a partir de toda a vida na Terra. Poder-se-ia acrescentar "humana" a toda a vida na Terra, mas a natureza é importante neste empurrão que a História deu ao dirigente pois Cuba era propícia à plantação de cana de açúcar e a qualidade desse chão da Ilha fez com que grandes canaviais dominassem a paisagem e que os clientes norte-americanos a modelassem a seu bel-prazer, criando um modelo económico de grande exploração da mão-de-obra local que desembocaria numa revolta - conclusão a que os responsáveis dos EUA já tinham chegado devido ao conhecimento do que permitiam que se passasse sob o regime de Batista.

Castro, filho de grandes proprietários de terra com essa plantação específica, decidiu cortar as canas rente ao chão com a sua Revolução. Como não foi bem sucedido à primeira tentativa acabou na prisão, e é da preparação da sua defesa que surge este A história me absolverá. Que vai na terceira edição em Portugal, com a particularidade de a primeira ter acontecido durante o anterior regime, em 1971, a segunda após a Revolução de Abril, em 1974, e esta, por estes dias.

Falhado o golpe de 26 de julho de 1953, Fidel Castro é detido e, ao ser apresentado a tribunal, faz a defesa suportada neste texto, afinal era formado em Direito.

No julgamento, o futuro governante levado ao poder após nova tentativa para derrubar Batista, em 1959, dessa vez vencedora, será condenado a 15 anos de prisão, que começa a cumprir. É no segundo estabelecimento prisional, em Isla de Pinos, que vai escrever a sua defesa e pronunciá-la no dia 16 de outubro de 1953.

Apesar de se poder interpretar este texto de várias formas - uma análise histórica, um panfleto político bem documentado, ou um ensaio sobre a exploração económica -, Castro não o considerava um "texto de literatura revolucionária marxista" mas um "discurso em defesa da democracia, contra a injustiça social, a corrupção e violência policial que marcaram a vida de Cuba anos antes da revolução". Era esta a sua defesa.

Claro que o texto, como todas as grandes frases ditas pelo senhor, serviu de Bíblia na Ilha durante muito tempo e, ao mesmo tempo, de inspiração para a burguesia intelectual da Europa contestatária. O título A história me absolverá era um bom título e ideal para as manobras francesas do Maio de 68, entre muitas outras aplicações. Mas é, principalmente, um bom documento para se perceber o pensamento de Fidel antes de ser o Castro que ficou para a História, pois a sua defesa baseia-se na premissa de contestação à ditadura de Batista e às governações que o procederam e o direito de as condenar.

O volume foi publicado pela primeira vez de forma clandestina no ano de 1954, não mais parando de circular com sofreguidão por todo o mundo nas décadas que se seguiram até que a realidade lhe deu o estatuto que tem hoje: documento histórico.

O mais curioso é que o título é a última frase da sua defesa, quando afirma ao tribunal: "Condenai-me, pouco importa. A história me absolverá." Até se lá chegar existe uma revisão de toda a realidade social do regime, feita sem direito a consulta a fontes bibliográficas, nem mesmo as da legislação. A ler.

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