Acusações de abuso sexual levam três membros da Academia Real Sueca a bater com a porta

Três membros da Academia Sueca anunciaram que vão deixar de participar no comité que seleciona o Prémio Nobel da Literatura em protesto com a forma como estão a ser resolvidas as alegações de má conduta sexual de um dos membros.

Membros da Academia Real Sueca e autores, Peter Englund, Klas Ostergren e Kjell Espmark anunciaram na sexta-feira, em separado, que deram por terminada a sua participação na escolha do vencedor do mais importante prémio mundial de literatura.

A Academia Sueca tem guardado silêncio nos últimos meses em torno das acusações de abuso sexual e tráfico de influências contra Jean-Claude Arnault. mas na quinta-feira, uma reunião de membros da academia, em Estocolmo, espoletou a crise. À mesa debatiam-se as conclusões do inquérito elaborado por um gabinete de advogados com o objetivo de compreender as suas ligações com os membros da academia.

Arnault é casado com a escritora e membro da Academia Katarina Frostenson, e descrito pelo jornal francês Le Monde como uma "personalidade cultural de primeiro plano na Suécia".

Segundo o Le Monde, 16 dos 18 participantes (dois deles deixaram de participar por razões que nada têm de ver com as acusações de abuso sexual ou tráfico de influências) desta reunião falharam o objetivo de elaborar um comunicado de imprensa conjunto. Um dos membros, Anders Olsson confirmou à imprensa que existiu uma votação e que a maioria se opôs à expulsão da poeta Katarina Frostenson.

Na sexta-feira, três membros da Academia anunciaram, por separado, a decisão de não continuar:

- Klas Ostergren, 63 anos, eleito membro da Academia em 2014 justificou a saída com os "problemas sérios" que enfrenta a instituição. Acrescentou, em comunicado, considerar que se estavam a privilegiar considerações obscuras em vez de seguir o regulamento o que constitui uma "traição" da visão do fundador e do rei Carlos Gustavo da Suécia, o maior protetor dos Prémios Nobel.

- Kjell Espmark, 88 anos, e com assento na Academia Real desde 1981, acusou os colegas de porem a amizade à frente da "integridade".

- Na mesma linha surgiram as críticas de Peter Englund, num texto escrito no seu blogue. "Decisões em que não acredito e que não posso defender foram tomdas, decidi portanto não mais participar no trabalho da Academia Sueca".

Uma quarta pessoa, Sara Stridsberg ameaça bater com a porta, noticia o New York Times.

Se esta saída se concretizar o júri do prémio Nobel da Literatura, atribuído anualmente pela Academia Real Sueca, deixa de contar com o quórum mínimo de 12 pessoas necessário para votar a entrada de novos membros. Os 18 lugares da academia são vitalícios e só podem voltar a ser ocupados após a morte daquele que ocupa o cargo. O presidente do Comité do Nobel, Per Wastberg veio, entretanto, acalmar os ânimos. "Temos quórum quando oito membros estão presentes".

A situação tem passado tudo menos despercebida na Suécia, e agora para lá das suas fronteiras. "A Torre de Babel caiu", escreveu Asa Linderborg, que edita as páginas de cultura do tabloide sueco Aftonbladet. "A instituição está em ruína", afirmou o editor do Dagens Nyheter.

Foi este jornal que publicou em novembro de 2017 as acusações de assédio sexual das 14 mulheres. Quatro delas davam a cara, acusando uma figura proeminente da cultura sueca. Rapidamente se descobriu tratar-se de Jean-Claude Arnault, 71 anos, diretor artístico do Forum, um lugar onde acontecem eventos culturais na capital sueca.

Os acontecimentos tiveram lugar entre 1996 e 2017, entre a Suécia e Paris, onde a academia sueca tem um apartamento. As agressões eram acompanhadas de ameaças como "Com essa atitude, vou garantir que não dures muito neste ramo" ou "Sabes com quem sou casado?", diz o Le Monde.

Jean-Claude Arnault é também acusado de tráfico de influências. Gabava-se de ser o 19.º membro da academia e de ter tido influência na escola de J.M. G. Le Clézio na atribuição do prémio em 2008.

Foram estas suspeitas que levaram a secretária permanente da Academia Real da Suécia, Sara Danius, a abrir um inquérito um dezembro, procurando averiguar as relações dos vários membros com Jean-Claude Arnault.

A responsável disse hoje que embora a Academia Real Sueca não possa ser responsabilizada pelos abusos de que alegadamente terão sido vítimas as mulheres que acusam Arnault, vários membros acreditam que o nome da Academia foi usado para facilitar os abusos. "É nossa responsabilidade reagir contra isso", disse ao Svenska Dagbladet, citada pelo New York Times.

O relátorio com as conclusões deste inquérito deverá ser tornado público na próxima sexta-feira, dia 13.

O advogado de Arnault rejeita as acusações.

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