Academia das Ciências assinala 50 anos de "Praça da Canção"

"Praça da Canção", de Manuel Alegre, foi editado em 1965. Apesar de proibido pela polícia, o livro começou a circular clandestinamente

A edição comemorativa dos 50 anos do livro "Praça de Canção", de Manuel Alegre, é hoje assinalada na Academia das Ciências de Lisboa, numa sessão que conta com a presença do autor.

O presidente da Academia, Artur Anselmo, participa na sessão, marcada para as 16:00, e que conta com a participação do presidente da Associação Portuguesa de Escritores, José Manuel Mendes.

A obra "Praça da Canção", de Manuel Alegre, foi publicada no início de 1965 e, em janeiro do ano passado, foi reeditada pelas Publicações D. Quixote com um prefácio de José Carlos Vasconcelos, no qual sublinha que esta obra, "dentro de uma linha que remonta aos cancioneiros (...), há muito ultrapassou fronteiras para assumir uma dimensão simbólica ou mesmo mítica".

Quando foi publicada, recorda o jornalista e escritor, apresentava "um incisivo retrato de uma 'pátria parada/ à beira de um rio triste', foi uma bandeira desfraldada e um rastilho de resistência e luta contra a ditadura".

José Carlos Vasconcelos enfatiza que é difícil, a quem não viveu o tempo anterior a Abril de 1974, "ter uma ideia ou imagem cabal do que nele representavam certos factos e acontecimentos hoje banais, o que representava, e representou, o enorme impacto, a diversos níveis, do aparecimento de 'Praça da Canção'".

Apesar de proibido e confiscado pela Polícia, o livro "começou a circular clandestinamente, copiografado, datilografado, [e] passado à mão".

O jornalista, diretor do Jornal de Letras, Artes & Ideias, recorda que não havia sessão cultural, encontro ou debate, "em que os poemas de Manuel Alegre não fossem cantados ou ditos".

Para Vasconcelos, "Praça da Canção" é "um dos livros de poesia mais lidos, mais difundidos e mais marcantes no seu tempo, da poesia portuguesa de sempre".

Vasconcelos salienta o facto de o compositor Alain Oulman ter musicado, logo após a publicação do livro, o poema "Trova do amor lusíada", que "a grande Amália Rodrigues" cantou e que "só por si dá ideia do que a poesia do autor de 'Praça da Canção' significou, e significa", e cita, entre "os que mais e melhor a musicaram", o compositor e cantor Adriano Correia de Oliveira e José Niza.

Numa entrevista à Lusa, em 2013, Manuel Alegre afirmou que "a poesia só por si não faz a revolução, mas não há mudança sem uma poética da mudança" e salientou a importância da poesia na luta contra o regime anterior a Abril de 1974.

O poeta é um dos mais cantados. Entre os nomes que gravaram letras suas, destacam-se Amália Rodrigues, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Carlos do Carmo, Luís Cília, Janita Salomé e João Braga.

Natural de Águeda, onde nasceu em maio de 1936, Manuel Alegre, foi deputado à Assembleia da República e candidato, por duas vezes, à Presidência da República.

Estudou Direito na Universidade de Coimbra, tendo-se envolvido nas lutas académicas contra a ditadura. Cumpriu o serviço militar em Angola, onde foi preso pela polícia política do regime da ditadura (PIDE), por se revoltar contra a guerra colonial.

Ao título "Praça da Canção", editado em 1965, sucedeu-se "O Canto e as Armas" (1967) e "Um barco para Ítaca" (1971).

Manuel Alegre conta atualmente com mais de 31 títulos, o mais recente foi publicado em maio do ano passado, "Bairro ocidental", no qual o poeta afirma "que é necessária e urgente a nossa libertação".

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