Abençoado pela liberdade de composição

Bruno Pernadas, multi-instrumentista e compositor nascido em 1982, assumiu um caminho musical de grande pluralidade em nome próprio

No primeiro disco em nome próprio, de 2014, Bruno Pernadas interpela no título, em inglês, como podemos ser alegres num mundo cheio de conhecimento. A resposta pode residir na audição de How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge?, feliz combinação de estilos musicais com que o músico e compositor lisboeta surpreendeu a crítica. Mas pode também encontrar-se em Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them ou em Worst Summer Ever (este mais jazz), as edições que se seguiram, em simultâneo, há cerca de um ano.

Bruno Pernadas já tinha gravado um disco meia dúzia de anos antes, mas não chegou a ser publicado. "Quando o ouvi, não gostei muito do resultado. Achei que as pessoas estavam muito tensas e que isso depois tinha transparecido para a música, que estavam preocupadas em não se enganar e em seguir a estrutura, os takes estavam sem personalidade, maquinais. E depois a afinação das cordas com as madeiras não estava espetacular." Não foi o único a ter essa opinião. "Um amigo comum do Bernardo Sassetti levou-lhe as maquetas e ele disse que se eu editasse o EP me iria arrepender no futuro. Compreendo a sua intuição e a conclusão." O disco foi gravado após Pernadas ter concluído a formação no Hot Clube (em simultâneo estudou análise e técnicas de composição). De seguida rumaria para a Escola Superior de Música de Lisboa, na qual se licenciou na variante jazz.

Com um colega, João Correia, criou uma banda folk-rock, os Julie & The Carjackers. Entre 2009 e 2011 lançaram um EP e um álbum. "Sempre fui fazendo músicas e às tantas já tinha muitas. Algumas usei nesse grupo, outras no meu grupo de jazz, meio descontextualizadas nos concertos. Então decidi fazer um disco para mim" - e foi assim que nasceu a surpresa de 2014. "Fi-lo sem o objetivo de fazer concertos ou de vender, eram músicas que de alguma forma eu queria materializar. E depois as pessoas adoraram o disco." Hoje, Bruno Pernadas não aumenta muito a pilha de música por gravar porque compõe com regularidade para cinema, teatro, dança e televisão. O que lhe agrada porque é obrigado a uma "ginástica de estilos".

O processo criativo de Pernadas "varia muito", embora componha mais ao piano. "O processo e o resultado varia muito consoante os instrumentos que estamos a utilizar para compor, o som que está a sair influencia muito. O piano é um instrumento completo, tem 88 teclas e aquele espectro todo. Acontece uma coisa gira quando estamos muito tempo a compor, a imaginar o som que estamos a ouvir noutros instrumentos: se estivermos muito concentrados, passadas umas horas começamos a ouvir o som dos instrumentos." Por vezes troca o piano pelo sintetizador, noutras está a tocar guitarra, surge uma ideia e grava para o iPhone. "E às vezes nem tenho instrumento, escrevo diretamente na pauta. Essa liberdade que temos é uma bênção", reconhece. "Mas também tem um lado não tão mágico que é estar com ouvidos de copista ao ouvir música, é estar a fazer uma dissecação em tempo real."

Explorar os sons como quem abre um batráquio faz parte da vida de Bruno Pernadas desde muito novo. Antes sequer de aprender a tocar guitarra, quando tinha 13 anos, já fazia música para um gravador de cassetes, fosse com uma guitarra elétrica fosse com teclados. "Sempre tive esse ímpeto pela criatividade musical", recorda.

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