"A Vida é Bela": uma fábula de amor e sobrevivência

A obra que consagrou o ator e realizador Roberto Benigni a nível internacional passa amanhã no Cinema São Jorge, em Lisboa.

"Buongiorno Principessa!" Raras vezes uma expressão tirada de um filme italiano ficou tão conhecida nos quatro cantos do mundo. E se pronunciada de braços abertos por uma criança, a saltar de um armário com a carga de alegria que se vê no filho de Guido e Dora... é de derreter completamente. O filme a que roubámos a memória desta cena, todos sabem, chama-se A Vida é Bela (1997), e colocou o ator, realizador e argumentista Roberto Benigni debaixo dos holofotes internacionais. Amanhã, no âmbito do programa Amarcord, a Festa do Cinema Italiano propõe um regresso a esta obra que é considerada um marco histórico no reconhecimento mundial da cinematografia italiana.

As atenções despertadas para A Vida é Bela não se terão justificado apenas pelos vários prémios que conquistou na Europa e, sobretudo, em Hollywood, mas também, e noutro sentido, pelo debate que reacendeu (depois de A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, em 1993) sobre as possibilidades e limites da representação do Holocausto. A principal razão de alguma polémica era justamente aquilo que caracteriza o trabalho do autor em causa: a comédia. Ora, o Holocausto não poderia ser olhado com ligeireza. E a isso Benigni reagiu sem amargura, como se lê na resposta que deu numa entrevista ao The Guardian, em 1999: "Nós precisamos, enquanto palhaços, de ser maltratados. Isso mantém-nos vivos, reais. Só um génio como Fellini o sabia. Ele considerava os palhaços como benfeitores, santos, como o expoente da tragédia."

Uma história de amor

Esta mesma personalidade que relativizou as más críticas é a personalidade de Guido, o protagonista de A Vida é Bela, interpretado por Benigni, que entra pelo filme com um entusiasmo contagiante. Sabemos que nem tudo serão rosas, porque a frase do início serve de advertência - "Esta é uma história simples, mas não daquelas fáceis de contar. Como numa fábula, há tristeza, há deslumbramento e felicidade." -, mas custa-nos a acreditar, tamanha é a luminosidade da primeira metade de A Vida é Bela, em traços de burlesco mudo.

Está-se no ano de 1938, em Itália, e Guido, vindo da província para uma pequena cidade da Toscana, com o intuito de montar uma livraria, vê o seu desejo vedado pela burocracia fascista. A solução que tem é então trabalhar como empregado de mesa num hotel, onde se cruza diariamente com uma professora que lhe vem tomar de assalto o coração... É ela a "principessa!", Dora (Nicoletta Braschi, a própria mulher de Benigni), que no dia do seu casamento com um fascista, pede a Guido para a raptar. Afinal, é a ele que tem amor, e é desse amor que nasce Joshua, o menino por quem o pai é capaz de sustentar a maior das ilusões, para o proteger dos horrores do Holocausto.

Ao surgirem os tempos da Guerra, sendo Guido judeu, a partida para um campo de concentração torna-se inevitável, e o seu único objetivo é não permitir que o filho perca a inocência perante o evidente cenário - é preciso mascarar a realidade diante dos seus olhos. Esta segunda parte do filme assinala assim a verdadeira demonstração de amor, que já não tem como base o romance mas a tragédia. Benigni é aqui o palhaço da tragédia, como afirmou. E sublinhou também, na altura, que este "não é um filme cómico sobre um campo de concentração, é um cómico a fazer um filme num campo de concentração". Aliás, a condição, em si, de um comediante num campo daqueles é um paradoxo, e Benigni realça-o ao homenagear Charlie Chaplin, com um número reconhecível de O Grande Ditador (1940).

Os motivos que levaram Roberto Benigni a realizar este filme não foram políticos ou históricos, embora ele e o coargumentista, Vincenzo Cerami, tenham tomado a precaução de contratar consultores do Centro de Documentação Judaica de Milão e feito visionamentos para grupos de judeus italianos, antes do lançamento. A sua vontade de contar uma história de amor e humanidade num contexto extremo, só precisou dessa confirmação, por assim dizer, científica, para se lançar na exibição internacional. E o sucesso confirmou-se em Cannes, Varsóvia, Estados Unidos e mesmo Jerusalém, onde o filme mais tarde ganhou o prémio de "Melhor Experiência Judaica", no Festival de Jerusalém.
Derrotei Hitler

A grande inspiração humana por detrás de A Vida é Bela chama-se Rubino Romeo Salmonì (1920--2011). Foi a história deste judeu italiano apanhado pelos nazis em 1943, que chamou a atenção de Benigni, através do livro Ho sconfitto Hitler (em tradução literal, Derrotei Hitler), onde relata como sobreviveu a Auschwitz. Antes de a passar para a escrita, Rubino partilhou com crianças e adolescentes a sua experiência, mas fê-lo da forma mais otimista possível, como o livro transparece, moldando-se a um tom de certa ironia. E terá sido o espírito forte, confiante - e não esquecido do riso -, deste homem que sugeriu a possibilidade de se falar de amor na mais catastrófica das situações. Não é por acaso que o título do filme, aparentemente trivial, tem também uma origem muito contextualizada, tendo sido extraído da frase com que Leon Trotsky terminou o seu testamento, escrito no México: "A vida é bela. Que as gerações futuras a libertem de todo o mal, da opressão e da violência, e a apreciem em toda a sua glória." Pode haver maior otimismo?

De resto, a inventividade em prol do humanismo, muito mais do que o rigor histórico, foi o símbolo maior da campanha de difusão do filme pelo mundo, e sobretudo nos Estados Unidos, onde o termo "fábula italiana" circulava com a absoluta aprovação do realizador - acrescentava apenas que "era inventada a partir da verdade".

Quando chegou aos Óscares, em 1999, A Vida é Bela já era o filme estrangeiro mais rentável de sempre no mercado norte-americano: 21 milhões de dólares, ultrapassando O Carteiro de Pablo Neruda (1994), de Michael Radford.

Uma catadupa de Óscares

Roberto Benigni conquistou Holly-wood numa noite tomada de surpresas. Nem todas agradáveis, como será de mencionar o Óscar honorário entregue ao realizador Elia Kazan, que deixou transparecer algum desconforto na sala, pelo seu passado obscuro, em que denunciou colegas comunistas (ele próprio ex-membro do Partido Comunista) durante o macartismo... Foi um ano muito marcado por filmes com temáticas do período da Segunda Guerra Mundial - basta lembrar que O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg, competia na categoria de melhor filme, ao lado de A Barreira Invisível, de Malick, e mesmo com A Vida é Bela, que acumulava outra categoria principal, a de melhor filme estrangeiro. E foi aqui, precisamente pela voz de Sophia Loren, que se ouviu um fulgurante: "Roberto!" O que se seguiu é um episódio bastante conhecido, Benigni passou por cima das cadeiras e subiu o palco aos saltos, mal se equilibrando no seu inglês de trapézio. A este Óscar somou-se o de melhor ator, e nesse momento já não sobravam palavras. O terceiro prémio da Academia que consagrou A Vida é Bela foi para Nicola Piovani, melhor banda sonora original.

Desta cerimónia alucinante, e do torrencial discurso do comediante italiano, vale a pena isolar uma palavra: pobreza. Benigni agradeceu aos pais por lhe terem dado a pobreza. Acrescentamos que terá sido esse um contributo enorme para a sua criatividade, como disso é espelho o próprio filme, ou seja, alguém que inventa uma grande ilusão para salvar uma vida... Benigni era tão pobre que nem os bilhetes de cinema podia comprar, e sentava-se atrás da tela a assistir aos filmes. Quem diria que o seu destino era conhecer o outro lado.

Exclusivos