A nova vaga de discos dos heróis da new-wave

Há 30 anos, ou por aí, garantiam momentos de glória à música pop. Por onde anda e o que quer esta gente teimosa e resistente?

Alinham-se, de forma desregrada e distinta, para combater aquela ideia de que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes - regressam, reagrupam-se, trocam os tesouros acumulados nos anos de glória por aquilo que entendem como boas novidades para mostrar. Quando os conhecemos, reinava, mais pujante ou mais descentrado, o conceito de new-wave. Algo em que, como o tempo se encarregaria de clarificar, coube de tudo em pouco, por oposição ao radicalismo punk e ao decadente rock progressivo.

Para mais e para menos, tudo se passou há 30 anos. Mas este Outono, por alinhamento cósmico ou culpa das alterações climatéricas, coleciona uma boa série de regressos de antigos notáveis. Que se sentem no direito, legítimo, de terem ainda algo a dizer, a acrescentar à matéria-prima que os notabilizou.

A ordem estabelecida é a alfabética, ainda a mais conveniente para não denunciar à partida gostos e preferências. Na circunstância, permite começar com o único exemplo desta meia dúzia que não tem origem nas Ilhas Britânicas, mas na Noruega. Os que pensaram - quando Take On Me começou a encher as pistas de dança e The Sun Always Shines On TV nos encantava com as belezas geladas e nórdicas - que o trio não resistiria mais de um par de épocas, já tinham levado para contar.

A-Ha: mais do mesmo

Com separações e hiatos pelo meio, os A-Ha fizeram jus a uma longevidade que um projeto aparentemente virado à idade teen não sugeria à partida. Agora, que voltam a reunir-se em nome do 30.º aniversário da estreia em disco - Hunting High and Low, de 1985 - os três da vida airada quebram um período de seis anos sem novidades (desde Foot On The Mountain, de 2009) com Cast In Steel. Mas jogam à defesa: os pontos fortes, desde uma intuição melódica invulgar à constância da voz de Morten, passando por arranjos que parecem roubados à década de 1980, não mudam.

Hue and Cry: homenagem a Sinatra

Sem quebras de atividade, sem separações (algo que se relaciona com o caráter familiar desta banda de dois irmãos, os escoceses Patrick e Gregory Kane), os Hue and Cry, que mantêm uma atividade constante desde 1987 (Seduced and Abandoned) mas há muito ficaram cingidos à sombra, longe dos esplendores de Labour Of Love ou I Refuse, ensaiam a reconquista da ribalta com September Songs.

Nem mais nem menos do que um álbum encostado a uma efeméride - o centenário do nascimento de Frank Sinatra - e a uma dedicatória especial - a John Kane, pai dos manos, que os guiou até à música e que, no dizer dos filhos, conseguia imitar na perfeição o "old blue eyes".

Joe Jackson: gerador de emoções

O terceiro convidado desta gala só não foi reconhecido como um génio porque a música pop se revela, muitas vezes, traiçoeira e ingrata perante a diversidade. Ainda assim importa reconhecer que, desde Look Sharp! (1979) até The Duke (2012), uma portentosa e ignorada homenagem a Duke Ellington, Joe Jackson se colocou muitas vezes nas regiões demarcadas do sublime. Em Fast Forward, com um regresso à pop multifuncional, o autor decidiu repartir o talento por quatro cidades - Nova Iorque, Amsterdão, Berlim e New Orleans -, contando com diferentes músicos de apoio em cada uma delas.

New Order: votos renovados

Se uns se reinventam, outros preferem renovar os votos de fidelidade às fórmulas resolventes que os tornaram notados. Eis o que acontece com os New Order em Music Complete, primeiro disco de originais em dez anos, o álbum que assinala a partida de Peter Hook e o regresso de Gillian Gilbert. Houve outra mudança no elenco, a chegada a tempo inteiro de Tom Chapman, elevando o grupo residente a quinteto, mas nada disso ganha tradução estética.

Squeeze: identidade sedutora

No pico das expectativas fixava-se o disco que, formalmente, daria sequência ao currículo dos Squeeze, iniciado com o álbum homónimo (1978), interrompido com Domino (1998) e preenchido com clássicos como Cool For Cats, Up The Junction, Tempted, Is That Love?, Another Nail In My Heart ou Horglass. Sabia-se apenas que serviria de parceiro sonoro a uma sitcom da BBC.

Para bem de todos, saudosos ou abertos à descoberta, From The Cradle To The Grave justifica vida própria, muito além das imagens. Funciona como se a inspiração melódica de Glenn Tilbrook e o poder de observação poética de Chris Difford saíssem do congelador e estivessem guardados para este "reencontro" que nos traz o grupo (todos os outros músicos são novos e, reconheça-se, pouco relevantes) numa forma fantástica, capaz de voltar a derramar uma identidade sedutora e eficaz um pouco por todas as canções.

Tom Robinson: guerreiro regressa

O mais velho dos aqui contemplados, Tom Robinson (65), interrompe um silêncio que também vinha do milénio passado, desde Home From Home (1999). A estreia oficial acontecera em 1978, com a fortemente politizada Tom Robinson Band e com êxitos como Glad To Be Gay ou 2-4-6-8 Motorway.

Em Only The Now, bem acompanhado por músicos como Billy Bragg, John Grant ou Martin Carthy e, mais inesperadamente, por atores como Sir Ian McKellen ou Colin Firth, o velho guerreiro reaparece disposto a não abrandar nas causas.

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