A nostalgia do Brasil de ontem com o Brasil de hoje

O novo filme de Kleber Mendonça Filho, "Aquarius", é uma das sensações do festival. A crítica internacional aclama-o.

Em Aquarius, Kleber Mendonça Filho contrapõe as memória de um tempo onde as pessoas viviam em comunidade e ouviam com esperança os Queen ou Maria Bethânia com o mal-estar deste Brasil de hoje corrupto e dominado pelos "donos disto tudo".

O ex-crítico assina um dos grandes filmes da seleção oficial, um passo em frente em relação ao anterior, O Som ao Redor ("apenas" um dos maiores filmes brasileiros dos últimos anos). Uma história centrada numa sexagenária viúva, uma ex-jornalista aposentada, a Dona Clara (Sónia Braga), vítima de uma chantagem terrível com os proprietários do seu edifício na marginal do Recife. Clara quer continuar a viver lá, os proprietários querem obrigá-la a sair da casa onde foi feliz e criou três filhos. A partir daí torna-se acossada. Mendonça Filho filma precisamente uma mulher em luta contra a opressão de um sistema opressivo. Mas ela resiste, respira, vive. Faz amor, educa o neto e volta a resistir, mesmo quando é ameaçada.

Aquarius não seria a mesma coisa sem uma Sónia Braga verdadeiramente em estado de graça. Há ali naquele olhar, naquela sensualidade algo muito raro em cinema. Pelos corredores do festival já se fala que é neste momento a grande favorita ao prémio de interpretação. De facto, o seu naturalismo impõe um humanismo que se constrói com pequenos nadas, mesmo quando a sua personagem solta toda a sua raiva.

Cinema de resistência, Aquarius é um conto sobre a dignidade e as "más pessoas". Um filme movido pelo som do vinil e onde cada plano tem uma intenção de cinema, uma pulsão interior que penetra. Como quem não quer a coisa, faz também atalhos pelo lado do sonho. O resultado perturba e deixa-nos em sentido. Nem que seja quando Clara, sempre vertical, sonha com a nostalgia de uma vida em cheio ao som de Pai e Mãe, o clássico de 1975 de Gilberto Gil. Arrepia tanto...

Na terça-feira, em pleno Palais, na red carpet, toda a equipa protestou com cartazes contra o "golpe de Estado" no Brasil. Um protesto que continua a correr mundo. Perfeito para um filme com récitas de contrapoder e de música... Para Portugal consta que já existem algumas ofertas para compra do filme. Muito dificilmente sairá de Cannes de mãos a abanar no palmarés...

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