"A minha gestão é um bocado a teoria do caos"

Chegou à uma hora em ponto ao Gambrinus, o restaurante que escolheu.

Traz na cabeça - despenteada, sempre - o Estoril & Lisbon Film Festival (de 7 a 16 de novembro), o filme que Zulawsky começa a rodar em Sintra no dia 10, um outro de Carlos Saboga que está na fase final, dois em montagem (um filmado em França, outro em Angola), a apresentação de Casanova Variations em Paris no dia 19. Tem 64 anos e em 2014 já participou em 15 provas equestres internacionais. No fim do almoço, responderá encantado à chamada de um dos filhos, que com ele colabora: Juan Paulo diz-lhe que Julian Assange quer participar em direto no Simpósio do festival, e que quer que haja perguntas e respostas. Fica de lado a proposta inicial de pai e filho se deslocarem para entrevistá-lo, como aconteceu com Noam Chomsky.

O Gambrinus é emblemático para Paulo Branco, que conta que era dos poucos sítios, quando andava na universidade, onde se podia "estar quatro ou cinco horas bebendo só uma cerveja, falar à vontade, porque nunca pensariam que fosse frequentado por quem tinha uma mentalidade um bocadinho diferente". E também porque é dos poucos restaurantes tranquilos para conversar, sem música. Vinha cá com o Fernando Lopes? "Está ali sempre o seu lugar e quando fico ao balcão sento-me ao lado."

Já vamos falar sobre o Lisbon & Estoril Film Festival (de aqui em diante o festival), mas agora Paulo Branco pede um gaspacho - porque não há vichyssoise - e ovos mexidos com tomate. Não se arrisca a comer peixe porque tem consumido em tais quantidades que a filha o alertou para o excesso de mercúrio. A alimentação é cuidada porque o hipismo não permite aumentos de peso.

O filme que Andrzej Zulawski começa a rodar em Sintra a 10 de novembro é uma aposta pessoal de Branco, que comprou os direitos de adaptação do romance Cosmos do também polaco Gombrowicz e o propôs ao realizador.

Os dois filmes em montagem em Paris são a adaptação do romance de culto do anos 50 Astragale, da mítica Albertine Sarrazin, realizado por Brigitte Sy, e a adaptação do conto An Outpost of Progress de Joseph Conrad, por Hugo Vieira da Silva, rodado na selva angolana do Soio. No meio disto há o festival, que todos os anos Paulo Branco diz que é o último e já vai no oitavo ano. Tudo é feito com equipas reduzidas - a permanente que se desdobra pelos vários projetos, voluntários e um orçamento "ridículo".

Fala dos filmes como se contasse aventuras, porque é ainda um jogador como nos tempos da juventude em Paris, mas garante que agora é disciplinado no caos em que vive. "Um dia estou em Nova Iorque, outro dia numa terra francesa a promover um filme, depois a correr em Freixo de Espada à Cinta." Por exemplo, uma das vezes em que foi à rodagem de Cosmopolis, de Cronenberg, convidou os atores Juliette Binoche e Robert Pattinson para jantar. Quando ela lhe telefonou a agradecer, dois dias depois, deixou-a perplexa: "Isto está muito difícil aqui, 40 graus, estou a correr numa prova em Idanha-a-Nova." Onde?

É uma escolha de vida, diz ele, já a beber o café. É para poder aguentar a pressão das empresas - uma produtora em Portugal, outra em França que faz também distribuição - que se dedica tanto ao desporto, ou melhor, ao hipismo. Uma das 15 provas que fez este ano foi de 160 quilómetros e foi ele o vencedor, o cavaleiro mais velho de todas as disciplinas equestres. "Depois disso já fiz uma prova de 120 quilómetros, entre a entrevista ao Chomsky e a apresentação do filme Casanova Variations em San Sebastián". E também faz caminhadas, de telemóveis (um português, outro francês) sempre ligados. "Muitas vezes vou para o aeroporto a pé, desde o escritório em Alfama, e em Paris ando sempre a pé."

É claro que ao telefone podem estar as pessoas mais extraordinárias, mas Paulo diz que não é isso que o move. Ele é, realmente, uma figura literária: Salman Rushdie conta como se deram mal, no livro Joseph Anton. "Nem queria acreditar quando li", diz com uma gargalhada. "E ele não conta tudo, porque passámos duas horas, face a face, sozinhos num quarto de hotel e eu disse-lhe que ele tinha feito de um livro genial um guião académico." O filme seria realizado por Raul Ruiz, a partir do romance O Chão Que Ela Pisa, mas não chegou a ser feito por problemas do Canal +. "O pior era que ele queria impor-me como atriz a namorada dele da altura e eu recusei porque tinha a Selma Hayek, no auge da carreira."

A leitura é outro dos pesos da balança que o equilibram, e explica que se obriga a arranjar sempre tempos de pausa. E é isso que justifica o festival, onde cinema, literatura e debate de ideias se cruzam.

"O festival não é só para mostrar os filmes mas sobretudo para trazer personalidades do mundo artístico e cultural para uma reflexão numa altura em que o mundo cada vez reflete menos. Nestes debates, nós próprios aprendemos, são uma mais-valia de conhecimento. Para mim, é um desafio pessoal porque tenho de fazer um esforço para conhecer melhor a obra deles antes de estarem cá, para não fazer figura de urso."

Porque é que os convidados vêm ao festival se não lhes paga cachet? "Não sei, tive sorte nos primeiros, depois vão passando palavra e agora há uma aceitação imediata quando são convidados. Gostam de cá estar também porque é uma região extraordinária que tem Cascais, Estoril, Lisboa, Sintra e são bem recebidos. Mas muitos vêm para encontrar outros que sabem que estão cá. Um dos grande encontros foi entre o Don DeLillo e o Coetzee, que há anos queriam conhecer-se e vieram graças à "mediação" do Paul Auster. Este ano, vem um dos grandes escritores mundiais, o Peter Handke. Estes encontros transformaram este festival numa coisa especial e única, de que eu tento ser o motor mas ao mesmo tempo um dos usufruidores."

Noam Chomsky não virá a Portugal, mas com as entrevistas que Paulo e Juan Paulo lhe fizeram em Boston foi montado um documento "fantástico" que será exibido. Julian Assange estaria presente de maneira idêntica se não preferisse participar em direto no simpósio sobre vigilância.

"Queremos estar atentos ao que se passa na sociedade, e sobretudo ao que muda nas estruturas. O escândalo de todos estarmos a ser controlados, da vigilância dos grandes grupos económicos uns sobre os outros, ultrapassando todas as regras básicas de relacionamento, mas também a indiferença da sociedade que já não se escandaliza. As pessoas já não distinguem o público e o privado. Vamos mostrar uma série de filmes em que esta evolução é anunciada: a ficção anuncia a realidade."

Como consegue gerir o dinheiro? "Ainda estou a descobrir como. É um bocado a teoria do caos, com atividades diferentes e em dois países. Os anos loucos, megalómanos, estão para trás, as consequências foram complicadas - ainda são, em termos pessoais. Neste momento há um lado artesanal na gestão. O risco continua mas é um risco medido."

E como vive sabendo que deve dinheiro às pessoas? "Muitas vezes as receitas não chegam na altura em que pensamos, e felizmente isso está controlado agora. Mas estou cá, nunca virei a cara, e sempre estarei, mesmo nas situações mais difíceis."

E foi então que falou com Juan Paulo, em francês, e soube da decisão que Assange tinha tomado na Embaixada do Equador, em Londres. Depois levantou-se, dirigiu-se ao balcão e ficou sentado a conversar com um amigo. Mas não no lugar de Fernando Lopes.

Restaurante Gambrinus

- Couvert

- 1 gaspacho

- 1 melão com presunto pata negra

- 1 robalo à marinheira

- 1 Água das Pedras

- 1 Água do Luso

- 2 cafés expressos

Total: 94 euros

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