A magia de Peter Pan na exposição de Paula Rego no Colombo

21 gravuras renovam a mostra O Mundo Fantástico de Paula Rego, substituindo a série inspirada na obra literária Jane Eyre

A partir de hoje, a magia do universo de Peter Pan junta-se a O Mundo Fantástico de Paula Rego, na praça central do Colombo, renovando a exposição que desde 27 de junho ocupa o minimuseu criado pelos arquitetos Diogo Aguiar e João Jesus e que já recebeu mais de 120 mil visitas.

"Dentro do tema que escolhi para a exposição, a obra da Paula Rego é tão vasta que, tendo em conta a limitação do espaço físico onde as obras são exibidas, achámos que seria interessante mostrar outras histórias. Por outro lado, substituir as obras também pode criar uma certa dinamização da exposição", explica ao DN Catarina Alfaro, coordenadora da Casa das Histórias - Paula Rego, inaugurada em 2009, em Cascais.

Assim, a série de 26 quadros inspirados na obra literária Jane Eyre da britânica Charlotte Brontë despediu-se ontem do público e hoje é já exibido o conjunto de 21 gravuras influenciadas pela personagem criada em 1902 pelo dramaturgo e escritor escocês J.M. Barrie. "Apesar de ter lido a história na infância - foi a ama que lhe ofereceu o livro quando tinha 5 anos -, só em 1992, depois de ter visto a peça de teatro, a artista percebeu que esta era uma história que poderia ter uma abordagem visual", conta Alfaro, que, juntamente com a artista, radicada em Londres desde os anos 70, escolheu as quase seis dezenas de obras da exposição. "Entre janeiro e maio de 1992, a Paula Rego fez vários desenhos preliminares, vários estudos, e, como na altura trabalhava muito com gravura, reuniu todas num livro que tem a particularidade de ter sido publicado pela londrina Folio Society em colaboração com o Hospital for Sick Children", contextualiza.

Este conjunto de obras, pertencentes ao acervo da Casa das Histórias, conta a história do rapaz que se recusa a crescer e das três crianças da família Darling - Wendy, John e Michael - mas, como nota a comissária da exposição, "é incrível vermos todo o imaginário que a Paula constrói a partir da história original". Para evidenciar a interpretação pessoal da artista, Catarina Alfaro cita uma frase de Paula Rego: "Sabia que Peter Pan era verdadeira magia, foi essa magia que tentei captar, e ela também inclui o sofrimento das crianças." E destaca ainda a forma como Wendy é retratada: "A Paula diz que ela tem um ar maternal mas que também pode ser muito venenoso. Ou seja, a maneira como a Paula Rego desenvolve as personagens envolve uma certa subversão, tal como sempre acontece na sua obra."

Catarina Alfaro faz um balanço muito positivo desta experiência na 7.ª edição do projeto A Arte Chegou ao Colombo, que vai além das 120 mil visitas. "Tenho feito algumas visitas guiadas que nem estavam previstas. A certa altura, percebemos que ali as pessoas sentem uma grande proximidade e ficam manifestamente curiosas. Talvez pelo ambiente tão informal e inesperado, esse encontro acaba por ser mais rico. As pessoas ficam tão surpreendidas que querem saber mais", diz.

"O mito de que os museus são lugares fechados, quase tumbas das obras de arte, tem de acabar", defende. E, com a próxima exposição a inaugurar na Casa das Histórias, espera dar mais um passo nessa direção, suscitando tanta curiosidade pelos trabalhos de Paula Rego como o que tem visto no centro comercial. A mostra irá reconstituir a colaboração da artista no bailado Pra lá e pra cá, apresentado na Gulbenkian em 1998, espetáculo inspirado nas gravuras Nursery Rhymes (1991), de Paula Rego.

"A compositora inglesa Louisa Lasdun explicou-me que ver aquelas gravuras da Paula Rego, em Londres, em 1991, criou nela uma espécie de turbilhão criativo e que rapidamente compôs uma peça musical tendo pensado logo numa colaboração com a artista no sentido de ela fazer os figurinos para o espetáculo, uma poesia aural visual, como lhe chamou." Algo que viria a acontecer em 1998 quando a Gulbenkian pegou na ideia da compositora. Tendo-se cruzado com materiais da produção do bailado enquanto fazia outras pesquisa no arquivo da Gulbenkian, Catarina Alfaro viu ali uma história para contar na Casa de Cascais. E é isso que irá fazer a partir de 26 de outubro, mostrando a série Nursery Rhymes, os desenhos dos figurinos, os próprios figurinos, a filmagem do bailado, fotografias da produção e até amostras dos tecidos.

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