A história vista e revista por Spielberg

Mesmo em filmes mais espetaculares, o cineasta nunca deixou de se interessar pelas memórias históricas. Percurso fascinante, recheado de proezas e contrastes

Quando vemos agora o novo filme de Steven Spielberg, A Ponte dos Espiões, não podemos deixar de sublinhar que os temas históricos têm um papel central na sua dinâmica criativa. Desta vez, Spielberg aborda a conjuntura da Guerra Fria, evocando, aliás, a saga de uma personagem verídica, o advogado James B. Donovan (Tom Hanks), envolvido numa troca de prisioneiros entre EUA e URSS - eis o trailer do novo filme.

Curiosamente, de uma maneira ou de outra, os filmes de Spielberg mais directamente marcados por temas históricos remetem-nos quase sempre para memórias do século XX na Europa. Fundamental é, nesse aspeto, A Lista de Schindler (1993), uma abordagem do Holocausto centrada na figura lendária de Oskar Schindler (1908-1974), industrial alemão que salvou muitos judeus da morte nos campos de concentração construídos pelos nazis. O filme arrebatou sete Oscars da Academia de Hollywood, incluindo os de melhor filme e melhor realizador; Spielberg recebeu o seu Oscar pessoal das mãos de Clint Eastwood - eis o seu discurso de agradecimento.

Na verdade, pode dizer-se que os temas históricos não são um exclusivo dos filmes "sérios" de Spielberg. Aliás, não faz sentido opor de forma maniqueísta tais filmes aos que envolvem componentes mais obviamente espetaculares. Em boa verdade, o que o interessa são personagens enredadas em desafios, concretos ou simbólicos, que colocam em causa os seus próprios limites humanos. Mesmo alguns dos seus títulos mais "ligeiros" convocam referências de natureza histórica. Indiana Jones, por exemplo, em Os Salteadores da Arca Perdida (1981), tem diversos confrontos com os representantes da máquina de guerra nazi - exemplo eloquente é esta célebre cena de perseguição.

Para além do emblemático A Lista de Schindler, os cenários da Segunda Guerra Mundial aparecem em alguns dos momentos mais complexos e fascinantes da filmografia de Spielberg. Há mesmo um filme, Império do Sol (1987), em que um dos seus temas mais queridos - as vivências da infância - se cruza com as componentes do clássico filme de guerra. Vale a pena recordar a cena em que Christian Bale, dezoito anos antes de vestir o fato do "Homem-Morcego" (Batman - O Início, 2005), se deslumbrava com as proezas do avião B-51, "o Cadillac dos céus"!

O trabalho de Spielberg que mais se aproxima das componentes tradicionais do "filme-de-guerra" é, obviamente, O Resgate do Soldado Ryan (1998). A acção da patrulha comandada pelo capitão John H. Miller (Tom Hanks), procurando o soldado James Frances Ryan (Matt Damon), que deve ser resgatado na sequência da morte em combate dos seus irmãos, envolve um complexo trabalho de "reconstituição" do desembarque dos Aliados nas praias da Normandia. A abertura do filme (segundo Oscar de realização para Spielberg) constitui, por certo, uma das mais espantosas proezas logísticas e narrativas da obra do cineasta - eis um extrato bem elucidativo das suas qualidades de encenação.

Mais recentemente, Spielberg abordou outros contextos bem diferentes, mas igualmente marcados por essa sensação vital de que há momentos em que as transformações coletivas passam pela ação de personagens invulgares. Em Cavalo de Guerra (2011), as memórias da Primeira Guerra Mundial surgiam, por assim dizer, filtradas pela saga de um jovem apostado em recuperar o seu cavalo - era assim o trailer do filme.

Em Lincoln (2012), tratava-se de evocar o multifacetado contexto social, militar e político em que o 16º Presidente dos EUA, Abraham Lincoln (1809-1865), conseguia que fosse aprovada a legislação que poria fim à escravatura. O filme valeu a Daniel Day-Lewis o seu terceiro Oscar de melhor ator (é, até agora, o único intérprete masculino a conseguir tal proeza) - a estatueta dourada foi-lhe entregue por Meryl Streep.

Enfim, pode bem dizer-se que a região "histórica" do cinema de Steven Spielberg continua a conter um grande filme esquecido, desses que foram "vitimados" pela sua fraca performance comercial. Chama-se 1941 - Ano Louco em Hollywood (1979) e, em tom de delirante comédia burlesca, conta o pânico dos cidadãos da Califórnia, apostados em defender-se de uma "iminente" invasão japonesa na sequência do ataque a Pearl Harbor (7 Dezembro 1941). Colocando em cena as estratégias, e também as histerias, de uma visão meramente militar dos sentimentos patrióticos, o filme possui um fabuloso elenco que integra nomes como John Belushi, Dan Aykroyd, Christopher Lee, Robert Stack e Lorraine Gary - eis a "apresentação" da personagem do indomável capitão "Wild" Bill Kelso, interpretado pelo inesquecível John Belushi, falecido aos 33 anos de idade, pouco mais de dois anos passados sobre a estreia de 1941.

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