A Guerra Civil Espanhola reescrita por Javier Cercas

Esquecer a visão abrangente da Guerra Civil espanhola e partir de um único facto para a contar por inteiro foi a aposta do autor espanhol em 2001.

O livro tem um título que nos remete para a Batalha de Salamina, o grande conflito que opôs duas grandes frotas da antiguidade, a persa e a grega, chefiadas por Xerxes e Temístocles. Ganhou o nome de Salamina por ter acontecido nesse estreito, no dia 29 de setembro de 480 a.C., ou seja, 2479 anos antes de Javier Cercas ter publicado o seu primeiro grande sucesso literário: Soldados de Salamina.

A narrativa de Cercas não pretende recontar a célebre batalha, antes a utiliza como metáfora para uma outra grande batalha, a mais importante e trágica de Espanha, a Guerra Civil que começa em 1936 e até hoje deixou marcas em todos os espanhóis. Tanto assim que ao ser publicado um em cada quarenta habitantes daquele país comprou um exemplar.

O registo em que faz o livro - romance? - já se lhe tornou habitual, como se podia ler no seu último trabalho, O Impostor, em que relatava a vida falsa de um espanhol que se fez passar durante décadas por vítima dos campos de concentração, entre outros dramas da história, completando a narrativa com entrevistas, reportagens e alguma ficção. Fórmula muito conseguida já em Soldados de Salamina, no qual o próprio autor aparece como protagonista, entre outras figuras reais. É o caso do escritor chileno Roberto Bolaño que tem lugar principal no capítulo final deste volume e acaba por ser quem desembrulha os equívocos construídos ao longo das páginas anteriores.

Numa reviravolta temática, Javier Cercas não está muito preocupado em equilibrar os dois lados do conflito, porque a história que quer contar não precisa disso, nem sequer como foi exatamente a Guerra Civil espanhola. Não é que ignore os Republicanos para dar voz aos nacionalistas e a Franco, e vice-versa, o que deseja é retratar o "inventor" do partido Falange Espanhola, dando assim um olhar próprio do conflito.

Tudo começa quando encontra em 1994 o filho de Rafael Sánchez Mazas, numas conferências na Universidade de Gerona. Por acaso, Cercas tinha escrito alguns artigos para um jornal regional em que referia a relação entre pai e filho. No fim das sessões, o escritor e o filho reuniram-se num bar da localidade e este conta-lhe com todos os pormenores o que será o grande tema de Soldados de Salamina, o fuzilamento falhado de Sánchez Mazas mesmo no fim da guerra. Bastante interessado na história do falangista, Cercas não irá escrever logo o livro. Ainda investigará para escrever um artigo para o jornal El País e, de conversa em conversa, falará com várias testemunhas do fuzilamento e do antes e depois, pois havia mais um sobrevivente. Principalmente, existia um facto que mais o impressionava, o de um miliciano que empunhara antes a arma ter evitado a morte de Sánchez Mazas ao descobri-lo nas imediações e não o referir. Cercas descreve assim: "O miliciano ficou a olhar para ele alguns segundos e depois, sem deixar de o olhar, gritou: "Por aqui não há ninguém!", deu meia-volta e foi-se embora."

É este o grande momento que o leva a escrever Soldados de Salamina e, fruto do sucesso, a deixar de se sentir "frustrado" com as tentativas para ser escritor. Pouco depois, escreve Anatomia de Um Instante, um dos melhores retratos da tentativa de golpe de Estado em Espanha em 1981, onde também opta pelo registo que conjuga ensaio e história, narrado como se fosse um romance.

Há muito esgotado em Portugal, regressa agora na ressuscitada Coleção Miniatura da Livros do Brasil e a um preço muito bom.


Soldados de Salamina

Javier Cercas

Ed. Livros do Brasil

216 páginas

PVP: 8,80 euros

Sai dia 19

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