A feira de Marcelo. "Já viste, Matilde? Ninguém tem um Presidente assim"

A Festa do Livro em Belém inaugurou ontem nos jardins do palácio. Uma ideia do Presidente que ali leva 33 editoras

"Querem ver que o Presidente lhe vai pagar o livro?" A avó de Hugo Miguel via, por entre jornalistas, câmaras, público, e a comitiva presidencial, Marcelo Rebelo de Sousa a falar com o seu neto. Mostrava-lhe Saga, livro de Sophia de Mello Breyner que o faria tirar uma nota de vinte euros do bolso para oferecer o livro à criança. A editora acabaria por fazê-lo, naquela banca em que estavam. Contudo, se se quiser um retrato do primeiro dia da Festa do Livro em Belém - uma ideia do Presidente da República que desde ontem, e até domingo, abre as portas dos jardins do palácio com entrada livre -, este seria um candidato.

Foi um verdadeiro cortejo que ontem acompanhou Marcelo Rebelo de Sousa na sua visita pelos expositores das 33 editoras presentes na feira, organizada em parceria com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL). Outro retrato possível para o dia da inauguração da festa seria o chefe de Estado a tirar uma selfie - entre muitas - e a piscar o olho, sob o olhar de todos. Ao lado, Zita Seabra, figura da política como do mundo editorial, através da Alêtheia, que dirige.

Mas Zita Seabra estava longe de ser o único rosto da recente história da política presente, na tarde de ontem. Além de Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, ou Luís Castro Mendes, o ministro da Cultura, pela feira circulavam também figuras como Garcia Pereira, ex-secretário-geral do PCPT/MRPP, Francisco Louçã, atual conselheiro de Estado, ou a eurodeputada - derrotada na corrida que levou Marcelo a Belém - Marisa Matias.

"Já viste, Matilde? Ninguém tem um Presidente assim", dizia um homem, levando uma criança pela mão. Presidente esse que, na sessão de abertura, contou como a Festa do Livro, dedicada a autores lusófonos, nasceu de "um sonho" seu. "Já tinha havido música, exposições, e ópera [nos jardins]. Penso que nunca tinha havido cinema, e livros também não. E cada qual puxa a brasa à sua sardinha", gracejou, como faria depois, referindo que António Costa, que não pode estar presente, acreditara desde o início na feira. "O primeiro-ministro é sempre otimista."

Por cinema, Marcelo referia-se ao filme póstumo de Manoel de Oliveira, Visita ou Memórias e Confissões, que será exibido amanhã e no domingo. Este é um dos pontos da programação paralela, concebida por Pedro Mexia, consultor do Presidente para assuntos culturais. Outro é o concerto da fadista Cristina Branco nesta noite, ou as mesas-redondas que farão escutar Eduardo Lourenço (no domingo) ou José Tolentino Mendonça (esta tarde, com Frederico Lourenço).

Elisabete e Ana passeavam pelas várias editoras, já de sacos na mão. A primeira comprara um livro de Aquilino Ribeiro, a segunda de João de Melo, ambas fazendo jus ao enorme destaque dado aos autores lusófonas na feira. Em muitas editoras, não se encontra mesmo um livro cujo original não fosse escrito em português. "Viemos por tudo. pelos jardins, pelos livros", dizem, afirmando que a iniciativa é conforme à imagem que têm deste Presidente. O mesmo afirma António, que levou os três filhos, mesmo desconhecendo a vasta programação de atividades para a infância, que foi "mesmo pela feira", embora aproveitasse também para ver, pela primeira vez, os jardins de Belém.

"É o estilo dele: abrir de par em par as coisas, mantendo a dignidade institucional e a do espaço", afirma António Filipe Pimentel, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga e convidado do Presidente para a inauguração. Acerca da iniciativa comenta: Acho excelente, não preciso de ser eu a dizê-lo. Olhe as pessoas todas à volta das bancas dos livros..." Quando nos cruzamos com António Filipe, deputado comunista, este ainda passeava "como público" e não perdera "a esperança de comprar alguma coisa."

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