"A concorrência é maior, mas também é mais fácil promover um produto"

Katty Xiomara, dois nomes próprios singulares e que acabaram por dar força à marca.

Uma designer de moda, como se intitula, que de início pensava seguir Design Gráfico, área que explora sempre que pode. Está mais voltada para fora do que para dentro, o que gostaria de mudar. Também gostava de ter uma loja mais abrangente, que misturasse peças de vestuário com objetos de arte.

Em que país sente que o seu trabalho tem maior feedback?

São todos diferentes. Nos EUA, há coleções que correm melhor do que outras. Em Las Vegas é onde sinto que há uma maior variedade de público, muito maior do que em Nova Iorque, mais nacionalidades do que, por exemplo em Paris, muitos chineses e árabes.

Onde vende mais?

Nos EUA. Estamos mais concentrados na exportação do que no mercado interno, o que gostaríamos de mudar. Vendemos no Japão, China, Inglaterra, Espanha, República Dominicana.

Os portugueses não têm dinheiro para as suas peças?

Não é bem isso, temos preços mais altos e outros mais acessíveis, também há promoções e saldos. O que não temos é circuito de comercialização. Noutros países da Europa, nos Estados Unidos, no Japão, existe muito o conceito de loja multimarca, em que o dono funciona como uma espécie de curador e quem vai lá é porque confia no seu gosto. Em Portugal, as pessoas habituaram-se às lojas monomarca.

Quando ouvem o nome Katty Xiomara, imaginam que é portuguesa?

Não, têm de perguntar. Perguntam sempre se a produção é feita em Portugal, e quando respondo que sim, ficam muito agradados. É uma garantia de qualidade. Ficam surpreendidos quando falamos no designer português, embora isso tenha vindo a mudar. Já não existe tanto este elemento de surpresa pela negativa, só em casos muito específicos, onde são mais fechados a nível culturais. Em geral, há uma abertura maior, não existe tanto preconceito.

É o seu nome?

Sim, Katty Xiomara dos Santos Anjos. Xiomara é nome próprio, não é apelido, o meu tio é que escolheu. As minhas irmãs têm nomes normais: Helena Paula e Sandra Beatriz.

Deu jeito para lançar a marca?

Na altura, não achava nada de extraordinário, mas as pessoas diziam que era bonito e acabei por assinar Katty Xiomara. Há quem pense que tenho origem asiática ou que escolhi o nome.

Em que é que se inspira nas suas coleções, tão diferentes entre si?

As inspirações são variadas, não só no designer como a nível dos temas. A inspiração vem de todos os lados, já foi num ilusionista, no circo. As ideias vão chegando, mas é um bocadinho intuitivo. Temos algumas coleções gráficas - com base num tangram [quebra-cabeças chinês] -, umas gestuais, outras mais rígidas. Começamos normalmente pelo padrão, mas é uma amálgama de ideias que se vão formando.

Também as cores são variadas.

Uma outra característica é ter uma paleta muito abrangente, não trabalhamos só com três ou quatro cores. A base até podem ser três ou quatro cores, mas depois há uma grande tonalidade.

Qual é a sua cor preferida?

Depende, se é para vestir, para pintar.

Para vestir.

Azul.

E para pintar?

Vermelho, laranja.

O que é que pinta?

Faço ilustrações.

O que é que dá unidade à coleção?

A nossa unidade é o facto de termos paletas abertas, os padrões, que acabam por conduzir toda a coleção, e os pormenores. As nossas formas são simples, têm uma base desportiva, com pequenos detalhes que são muito construídos. Os acabamentos, os pormenores, são muito pensados.

Apresenta a marca como dirigindo-se as mulheres elegantes, intemporais, ultrafemininas, sofisticadas, divertidas, ambiciosas, confiantes, fortes, românticas. Uma mulher pode concentrar todas estas características?

Uma mulher pode ser isso tudo e a nossa coleção, por norma, tem essa característica, que são os grandes contrastes. Pode-se ser extremamente romântica e muito forte. Muitas vezes confundimos romantismo com naïf, o romantismo não é isso, é uma grande sensibilidade. Não quer dizer que tudo esteja num só tipo de mulher, até porque não existe um público específico, as pessoas são indivíduos. Defendo que usem as peças e as individualizem. Vestir um total look Katty Xiomara não é solução, têm de ter a capacidade individual para coordenar com outras peças.

As suas clientes fazem isso?

As pessoas gostam muito de sair daqui vestidas num total look, é verdade, mas sempre lhes digo para pensarem no que têm em casa, com o que é que podem coordenar uma peça minha. É uma forma de trabalhar a criatividade e de a pessoa se refrescar, não estar sempre a coordenar da mesma forma.

Quem são essas mulheres?

São de uma faixa ampla, mas entre os 35 e 45 é o segmento mais forte.

Classe média/alta?

Sim. A nossa é uma produção controlada, pequena, os valores são mais altos logo à partida. Não temos um investimento tão grande em marketing como uma marca de luxo, como é óbvio, mas os preços são elevados. Um vestido pode custar entre 200 e 400 euros.

Desenha fardas para empresas, desde de fast-food a roupa desportiva. O que é que lhe agrada nestes projetos?

É um desafio diferente, porque temos limitações, o que faz que a criatividade funcione de outra forma. Conseguir fazer um design através deste caminho é um desafio maior do que ao contrário e acaba por ser sempre bom.

É natural na vida de um estilista ou é visto como uma cedência?

Não, antes pelo contrário, grandes nomes já fizeram uniformes, é uma coisa que sempre se fez.

Voltou à escola, mas como professora. O que é que lhe agrada mais?

É o feedback dos alunos, o facto de estarmos em contacto com pessoas completamente distintas, não só em termos de turmas mas também das personalidades que a constituem. Estamos a falar com gerações muito diferentes da nossa, na forma como trabalham, e há uma diferença brutal em relação à geração dos designers estabelecidos. O acesso à informação é muito mais rápido, a moda tornou-se notícia. É bom mas também pode criar vícios.

A concorrência é maior?

Sim, é maior, mas se, por um lado, a concorrência é maior, também é mais fácil promover um produto. Basta, por exemplo, ter uma conta do Instagram, conseguir que tenha visualização para vender uma marca. Antigamente isso era impossível. Acho que não dá para comparar, é simplesmente diferente.

Qual é o fator de distinção?

A moda está a passar por grandes mudanças, existem muitas dúvidas porque é tudo novo. Quantas coleções se devem fazer por ano, que conceito se deve utilizar, qual é a melhor forma de comunicar? Estamos numa fase em que as peças banais, do dia-a-dia, adquirem uma sobrevalorização por um pormenor estético. Uma das Kardashians apareceu no Instagram como uma sweat recortada e tornou-se moda. Até que ponto não é uma revolução social? Quase qualquer coisa pode ser moda. É quase a dizer que não é necessário criatividade, basta ter a forma certa de comunicar. E isto também é válido.

É complicado para um estilista.

Estamos a passar por uma fase complicada, mas o tempo o dirá. O mundo inteiro está a trabalhar para os millennials [geração Y ou da internet] e a tentar decifrar o que é que pretendem, daqui a pouco serão os homeland [geração Z].

Acontece em todas as áreas, também no jornalismo.

Sim, é geral. Todos nos questionamos sobre o que é que interessa aos millennials. Ainda é cedo para saber e é necessário saber, porque tudo é cada vez mais rápido, é um círculo vicioso. Falou-se e ainda se fala no see now, buy now, seria mudar todo o conceito.

O que é que significa?

Em setembro vamos apresentar a coleção de inverno de 2018, segundo este novo conceito deveríamos apresentar a do inverno de 2017. Ou então fazer o oposto, apresentar a coleção de 2018 e disponibilizá-la logo para venda. Os defensores desta ideia argumentam que também é uma forma de evitar a fuga de informação, o que é falso, a fuga acontece de qualquer forma; que é uma forma de saciar a curiosidade do consumidor que quer logo comprar e contrapõe-se que isso é desvalorizar o produto de luxo, porque o artigo não é desejado, quando compramos por impulso desinteressamo-nos. Enfim, muitas questões. Teríamos de mudar tudo, o próprio fabrico de matéria-prima, o mundo teria de parar.

Os criadores estão preparados?

Há quem já tentou e voltou ao conceito anterior, outros estão a fazê-lo. Embora ache interessante, questiono até que ponto é uma verdade duradoura. E precisaríamos de ter peças em stock no momento do desfile.

Continuará a apresentar as coleções com um ano de antecedência.

Estamos a fazer a coleção de verão 2018 [ri-se]. É óbvio que se a evolução nos puxar para outro lado não ficamos aqui tipo árvore. Temos de acompanhar, mas também temos de pensar, ver o que está fazer quem tem mais experiência. É um momento complicado. Nos EUA há muitas marcas a fechar, basta passar na Quinta Avenida e ver a lojas fechadas, o que nunca se viu.

O que lhe falta concretizar?

Muita coisa.

Vestuário para homem?

Seria o que falta, abordei pouca coisa da moda masculina, mas não me vejo muito direcionada para homem.

Onde gostaria de se ver daqui a 20 anos?

Gostaria de me ver num espaço mais abrangente, talvez cultural, com mais elementos à mistura, mais arte, de me alimentar de outras áreas, o que já estamos a tentar fazer com os desfiles.

No Porto?

É onde me sinto mais à vontade e a cidade está a passar por um momento fantástico, mas Lisboa também seria interessante, funcionamos bem lá.

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