A coleção Cachola quer paridade. Ana Cristina lidera a mudança

O acervo reunido desde o início dos anos 90 por António Cachola pode ser visto publicamente no Museu de Arte Contemporânea de Elvas há dez anos. A data celebra-se com nova exposição, a partir de hoje, e uma comissão de obras a 10 artistas portugueses, com a filha do colecionador à frente

Ana Cristina Cachola ainda não tinha dez anos quando o pai, António, começou a colecionar obras de arte contemporânea de artistas portugueses. Na última década, coincidindo com a instalação deste acervo no municipal de Elvas, ela, já curadora de profissão (entre outras coisas que hão de aparecer na conversa), aproximou-se ao ponto de hoje estar envolvida nas comissões a uma dezena de artistas com menos de 35 anos que vão passar a estar representados no MACE - Museu de Arte Contemporânea de Elvas. Ao mesmo tempo, trouxe para a coleção a necessidade de a tornar mais paritária.

Na coleção que criou o administrador da Delta António Cachola, a partir dos anos 90, os homens estão em franca maioria, 70/30 são as contas. "O meu pai não tinha essa consciência", explica Ana Cristina, que tem abordado esta questão no seu trabalho e é membro de um coletivo curatorial Pipi Colonial. No momento em que as comissões a novos artistas portugueses foi pensada, a paridade foi posta em cima da mesa. "Eu, a Filipa Oliveira e o João Laia estamos muito alinhados neste sentido, de reconhecer que há uma muito maior visibilidade no mercado e no sistema da arte para os homens", explica. "Comprometemo-nos a que a short list fosse paritária", continua. E, na seleção final, "há sete mulheres, uma dupla e dois homens": Ana Santos, Andreia Santana, Claire Santa Coloma, Joana Escoval, Diana Policarpo, Rita Ferreira, Mariana Silva, Luís Lázaro de Matos, Pedro Marques e a dupla Mariana Caló e Francisco Queimadela. É também este o sentido da aquisição de trabalhos de Catarina Dias e Salomé Lamas durante a última Arco Lisboa, onde, mais uma vez, a colecionista se cruzou com a profissional. Organizou uma série de conferências.

A filha do colecionador, 34 anos, conta a aproximação à coleção, a partir da galeria 3+1, em Lisboa, onde comissaria uma exposição de António Neves Nobre e Rita Ferreira. "A primeira razão é biográfica, de que nunca tentarei fazer rasura, é muito importante para a formação pessoal e profissional, esta relação com a arte contemporânea", diz, para princípio de conversa. "Sem nunca ter dito que queria trabalhar nesta área, sempre gostei, sou filha única, sempre acompanhei os meus pais em viagens em que a arte contemporânea fazia sempre parte do percurso, sendo mais acessória ou propositada, para ver exposições, e no acompanhamento muito próximo dos artistas que fazem parte da coleção, que é o modus operandi do meu pai", situa, no início de uma conversa, interrompida a meio pela chegada de Igor Jesus, com quem está a trabalhar noutro projeto curatorial, na Quinta do Quetzal, na Vidigueira, e Rita Ferreira, uma das artistas convidadas para integrar a Coleção António Cachola (CAC). "Visitar os ateliês, ir às galerias de uma maneira muito próxima, combinar com os artistas nas galerias, muito cedo comecei a ler as folhas de sala e, portanto, começou por aqui", conta, sobre os primeiros contactos com este acervo e a arte contemporânea.

Mas, no seu caminho, a arte contemporânea não foi uma evidência. Licenciada em Ciências da Comunicação, começa por ser jornalista. Passou pela revista Visão e pelo jornal espanhol Oi. Um mestrado na Universidade Católica, em 2007/2008, para estudar gestão cultural, aplicada ao teatro, aproxima-a da arte contemporânea.

"Todos os trabalhos que tive de fazer para o mestrado eram sobre arte contemporânea". Sorri, e continua: "Todo o conhecimento passivo que tinha auxiliava-me muito a estabelecer uma aplicação teórica dos objetos de arte contemporânea e da maneira como produziam conhecimento que era importante nesta área. Ao terceiro trabalho percebi o que estava a acontecer e não resisti. Não podemos deixar que a teimosia se transforme em burrice". Depois do mestrado veio o doutoramento, as aulas e a investigação na universidade, a curadoria e a produção de textos para catálogos. Em 2015 fez a primeira colaboração oficial com o MACE. Foi a curadora da exposição de João Louro.

"Para o meu pai foi uma coisa natural, ele estava mais ou menos à espera que acontecesse", diz Ana Cristina. Mas a coleção não é um trabalho. "É uma prática e para ser feito com responsabilidade é uma prática trabalhosa".

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