A casa é sua. Entre e descubra os recantos do São Luiz

No próximo fim de semana, o teatro lisboeta abre as portas para uma série de atividades, do teatro ao cinema, passando por ateliês e conversas em torno da ideia de casa

Em palco e no subpalco, no bengaleiro, nos camarotes, junto à janela, no átrio, na varanda, num camarim, no jardim de inverno, quem sabe até na casa de banho. No próximo fim de semana, todos os espaços do Teatro São Luiz, em Lisboa, vão ser ocupados - com artistas, com convidados que não são artistas, com visitantes, com amigos. A iniciativa chama-se "Estar em casa", tem curadoria da jornalista Anabela Mota Ribeiro e do encenador André E. Teodósio e contará com espetáculos de música, dança, teatro, conversas, leituras ou cinema, de manhã até à noite, que mobilizarão cerca de 170 pessoas. E, no entanto, apesar da quantidade de atividades e de pessoas, a ideia é que nos sintamos em casa.

Consulte aqui o programa.

O objetivo é, antes de mais, fazer uma ocupação - mas com "k", uma "okupação" - de todo o teatro. "Até extravasando os limites legais", arrisca André Teodósio, "boicotando as asaes, boicotando os critérios de idade, de eficácia. O teatro é um espaço classista e exclusivista, é preciso ter dinheiro para entrar. É um espaço sectarizado, as pessoas vêm ver uma coisa só de cada vez. Nós vamos quebrar essas regras todas."

Todos podem entrar

Quebrar as regras, por um lado, "dando visibilidade a pessoas ou suportes ou maneiras de fazer que normalmente não têm espaço aqui" e deixando-os ocupar todos os espaços e todos os horários. Por outro lado, permitindo a entrada, gratuita ou a preço reduzido, dos espectadores. E dando liberdade, a uns e a outros.

Anabela Mota Ribeiro gostaria que houvesse "uma ocupação pela comunidade. As portas estão abertas e as pessoas podem entrar. E é também uma tentativa de levar o teatro à casa de cada pessoa (casa--corpo, casa-família), para que isto não seja o espaço onde vamos episodicamente ver algum espetáculo mas com o qual não temos uma especial ligação. Queremos promover este trânsito."

Como se fosse uma casa. "Na casa existem muitas pessoas, que às vezes estão à volta de uma mesa na cozinha, depois uma vai à casa de banho, outros estão na sala ou no quarto, e as pessoas circulam de um lado para o outro. A casa é um espaço aberto, onde acontecem várias coisas ao mesmo tempo", explica André. A programação extensa obrigará as pessoas a fazerem escolhas.

Quem está em casa?

A partir destes princípios, o desafio seguinte foi escolher as atividades. "Queremos interrogar o que é uma casa, os protagonistas da casa, os espaços da casa, o enredo da casa, o sentimento de estar em casa - estes são pontos de partida para muitas destas atividades", diz a jornalista.

"O espaço da casa, sendo de intimidade, é também um espaço de partilha de experiências e de afetos, os amigos são a nossa identidade - eu sou feito dessas pessoas todas que nos deram coisas", diz André Teodósio. Por isso, os convites foram, antes de mais, feitos aos amigos ou a pessoas com quem têm algum tipo de afinidade. Além disso, há outro critério assumido: alguns artistas foram deserdados pelo Ministério da Cultura, "ficaram sem casa", num sentido metafórico, e são por isso aqui acolhidos.

E, para além disto tudo, havia que cumprir o critério mais importante: apresentar projetos que tenham que ver ou façam alguma reflexão sobre a ideia de casa. É o que acontece, por exemplo, no concerto inédito de Sérgio Godinho e Filipe Raposo. "Vai ser um pequeno concerto, de 45 minutos, só com voz em piano, em que vamos tocar algumas das minhas canções que falam deste universo mais doméstico", explica o músico. Como por exemplo 2.º Andar Direito, um tema de Pano-Cru (1978), ou a canção que dá nome ao espetáculo, Pequenos Delírios Domésticos, que está no álbum Tinta Permanente (1993) e que Sérgio Godinho raramente toca ao vivo.

É também o que acontece com a "hóspede"- a brasileira Luana Carvalho, que é cantora, artista plástica, performer e que vai apresentar o seu projeto "Cais casa". É a única que vem de fora e que, porque tem de "pernoitar" no sofá da sala, vai estar por ali ao longo de todo o fim de semana e em diversos espaços.

No caso dos espetáculos de teatro e dança, a ideia de casa não aparece literalmente, mas está lá. O caixão como última morada em Terceira Idade, o espetáculo do Teatro Praga. A intimidade de um quarto escuro em Rua de Sentido Único, de Mónica Calle. A ideia do corpo como casa no solo de João Fiadeiro.

Para além das muitas aulas e conversas, onde existe uma teorização sobre tudo isto, ateliers e espetáculos para as crianças, performances de alunos de teatro e muito mais (o programa completo está no site do teatro), Anabela e André lembram que numa casa não há só pessoas, há também animais, plantas e objetos - e também disso se falará.

Bastante aguardadas são as visitas guiadas ao teatro - como é que se relacionam com aquele espaço um arquiteto, uma agente imobiliária, os artistas, a diretora do São Luiz? Como quando recebemos os amigos e vamos mostrar-lhe a nossa casa e dizemos: entrem, ponham-se à vontade.

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