A batota de simular uma erudição segundo Oscar Mascarenhas

Livro de citações recolhidas pelo jornalista foi lançado hoje ao final do dia na Livraria Bulhosa, em Lisboa

"Um livro de citações aditivado" que "torna mais fácil essa batota de simular uma erudição maior". Foi assim que Ricardo Araújo Pereira resumiu o Grande Livro dos Pensamentos e das Citações, de Oscar Mascarenhas, lançado esta quarta-feira, na Livraria Bulhosa, em Lisboa. Um momento de celebração para o qual Natal, a companheira de 40 anos, convidou ainda André Macedo, diretor do DN, os amigos Pedro Castanheira e José António Santos e a filha Carolina a partilharem memórias de Oscar Mascarenhas.

Natal preferiu não falar frente aos muitos amigos e conhecidos que ao final do dia se juntaram para o lançamento do livro que Oscar deixou quase pronto quando, em maio, morreu. Poderia comover-se, disse ao DN, explicando o convite a Ricardo Araújo Pereira como a forma que encontrou de dar um toque de humor à sessão. "E quem melhor do que um humorista encartado que tem um humor que o Oscar gostaria", lança, para logo acrescentar que "cada dia com o Oscar era um dia novo, um desafio".

O humor de Ricardo Araújo Pereira durante a sessão

O humorista, que confessou ter falado uma única vez com Oscar Mascarenhas, uma escassa meia-hora, durante uma festa infantil, enumerou três razões que tornam este livro único: "As citações são maiores do que em livros do género e ainda indica em que livro foram escritas", refere em primeiro lugar para depois destacar outra mais-valia desta obra que reúne mais de 5000 pensamentos e citações de todas as áreas que o autor foi reunindo ao longo da sua vida: "trata-se de um conjunto de sublinhados de um leitor perspicaz e arguto".

E o tal toque de humor chega quando apresenta o terceiro trunfo do livro. "O facto de o Oscar Mascarenhas ter sido jornalista fazia com que fosse buscar as citações que aqui estão, não só às fontes do costume, mas também a fontes desqualificadas como são os jornais. E muito provavelmente por também haver autores que escrevem em sítios desqualificados, eu estou citado, o que não é frequente".

"Os portugueses vivem hoje num país nórdico: pagam impostos como no Norte da Europa e têm um nível de vida como no Norte de África", cita-se Ricardo Araújo Pereira, não sem juntar mais um pouco de humor. "Percebo que Oscar Mascarenhas tenha recolhido isto porque para um livro destes escolhem-se frases que não passem de moda. Mas temo que a minha frase se desatualize não porque a gente passe a pagar menos impostos do que no Norte da Europa mas porque as pessoas do norte de África vão começar a viver melhor do que nós muito em breve".

André Macedo, diretor do DN, recordo o lado profissional do jornalista

Antes da intervenção de Ricardo Araújo Pereira, André Macedo recordou o lado profissional de Oscar Mascarenhas, com o qual trabalhou nos últimos cinco anos. "O Oscar olhava para o jornal e vivia o jornal de forma muitíssimo intensa. Ao longo dos meus vinte anos de jornalismo encontrei pouquíssimas pessoas com a mesma disponibilidade para ler o jornal, procurar as coisas boas e as más, e procurar uma forma de o melhorar logo no dia seguinte", afirmou o diretor do DN. E essa atitude de Oscar Mascarenhas, "sempre a exigir o melhor para o leitor", por vezes prolongava telefonemas "desgastantes" e "tensos", revelou André Macedo.

Pedro Castannheira lembrou a paixão por uma boa discussão

O espírito combativo de Oscar Mascarenhas, que se deliciava com um esgrimir de argumentos, foi intensamente recordado por Pedro Castanheira, autoconfesso "vítima de maus tratos retóricos de Oscar". E por isso sublinhou o paradoxo de o autor, "apaixonado por uma boa discussão fazer o trabalho de casa ao adversário" com a publicação deste livro "interativo", como lhe chama o próprio autor, que fez questão de no final deixar páginas pautadas em branco "para que o leitor possa escrever as citações que recolheu".

José António Santos usou as citações do livro para sublinhar o carácter do amigo

O jornalista José António Santos, que partilhou cumplicidades com Oscar Mascarenhas durante mais de 30 anos, escolheu quase outras tantas citações do livro do amigo para sublinhar o seu caráter de agitador, empreendedor, conspirador, dono de delicadeza amável, que por vezes aborrecia os amigos, admirava-se a si próprio, a sua luta pela liberdade e pela liberdade da imprensa sem nunca esquecer os deveres deontológicos, a sua vontade de aprender.

Carolina partilhou momentos da vivência com o pai

A filha Carolina encerrou a sessão revelando vivências mais íntimas como o primeiro livro que o pai lhe leu para aprender os valores e a ética - a Bíblia, quando tinha apenas três anos - os contos dos irmãos Grimm, na versão original e bem mais sangrenta do que as versões popularizadas pela Disney, que lhe lia ao pequeno-almoço. Ou ainda o Nessum dorma, a famosa ária do último ato da ópera Turandot, que lhe cantava todas as noites. Um caminho que acabou por lhe pegar o bichinho pela leitura e pela escrita.

A última palavra, essa, é de Oscar Mascarenhas que termina o prefácio deste livro de 361 páginas editado pela Marcador, com um convite a todos os leitores: "Vamos divertir-nos com as citações".

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