A artista ucraniana que mostra Portugal a partir de Itália

Viktoria Kravchenko perdeu-se na zona velha de Lisboa, "onde o tempo para". Visitou Portugal uma única vez e nunca mais o esqueceu

Perde-se quando lhe pedimos para descrever Lisboa. As palavras "são impotentes". Por isso, prefere pintar a cidade que "não se veste com roupas cerimoniosas", como outras europeias. Viktoria Kravchenko nasceu em Kiev, Ucrânia, há 23 anos. Mudou-se para Itália há um. É a partir de Milão que pinta a nossa capital. Em aguarelas. "Preciso, simplesmente, de partilhar as emoções da cidade através da pintura."

A primeira e única vez que visitou Portugal foi há dois anos, durante uma viagem pela Europa. Lisboa e Porto foram as duas últimas paragens. A cereja no topo do bolo, diz. "Foram as cidades mais vividas e mais memoráveis. Portugal luta para manter a sua autenticidade e genuinidade", confessa.

Lisboa. "As paredes brancas das casas, que se espremem umas contra as outras, os azulejos que as decoram e as ruas em que nos queremos perder" são os maiores atrativos da capital, opina. Também o Porto conquistou o seu coração, "especialmente a zona ribeirinha do Douro". Recorda as pontes sobre o rio e o reflexo das casas nas águas, o calor ao final da tarde, os copos de vinho que saboreou e os telhados cor de laranja. "Mais nada importava - apenas a extrema felicidade."

Kravchenko imortalizou as suas sensações em meia dúzia de aguarelas coloridas, as mais requisitadas da sua coleção. A arte, essa, herdou-a da mãe, a quem nunca foi permitido estudar. "A minha avó nunca ficou entusiasmada com a ideia e convenceu-a de que ser artista não era profissão. E depois eu nasci e ela nunca mais voltou a pegar num pincel." Coube à filha dar continuidade ao sonho da mãe. "Em criança pintava tudo, dos cadernos da escola aos diários", ri-se.

Brincar com as cores e misturar tintas só se tornou real quando descobriu que queria ser arquiteta. "O exame de admissão à faculdade era desenho a carvão", justifica. Cruzou-se no primeiro ano de curso com a aguarela, hoje a sua "inspiração" e um "trabalho que ocupa a maior parte" do seu tempo livre. Ficou "encantada com a leveza e as transparências". Pergunta-se se não deveria ocupar esses tempos a passear, ler um livro ou estudar História da Arte. "Vou pintar."

Milão, onde frequenta a universidade, foi a cidade que lhe permitiu ser quem é. "Infelizmente, na Ucrânia a aguarela não é respeitada. E eu quero sentir--me preenchida enquanto artista", diz Viktoria Kravchenko.

E Portugal? Portugal continua a ocupar um cantinho especial. As suas aguarelas com ambientes de Lisboa e do Porto "são as melhores que já fez". "Visitei outros países depois, e cada um é extraordinário à sua maneira, mas não voltei a ter a sensação que tive no vosso país." Promete voltar para "sentir" o nosso "sabor".

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