A artista mandou toda a gente de férias. Esta é a sua obra de arte

A Galeria Chisenhale, em Londres, está fechada ao público até 29 de maio, por razões artísticas. A alemã Maria Eichhorn encerrou o espaço como parte do seu trabalho "5 semanas, 25 dias, 175 horas".

"Enquanto durar a exposição de Maria Eichhorn, 5 semanas, 25 dias, 175 horas, os funcionários da Galeria Chisenhale não estão a trabalhar. A galeria e o escritório estão fechados de 24 de abril a 29 de maio", lê-se numa nota afixada ao portão (fechado) do espaço de arte londrino. As grades da porta estão corridas e apenas se lê o nome do local.

O projeto de Maria Eichhorn, artista alemã começou às 18.00 de 23 de abril quando concluiu um simpósio na galeria de arte. Fecharam-se portas e janelas, afixou-se a explicação na entrada e então a obra de arte ficou exposta. Os colaboradores e o dono foram de férias, e serão pagos até ao dia 29. Não se respondem a telefonemas ou correio eletrónico. Apenas uma conta será consultada às quartas-feiras.

"Não há nada para ver mas muito para pensar", diz o crítico do jornal The Guardian. Levanta muitas questões: quem paga? O que é que esta paragem quer dizer? "Não é uma greve ou um boicote, ou um protesto de maneira óbvia", considera.

É a própria artista, nascida no sul da Alemanha e atualmente a trabalhar em Berlim, que explica que a única tarefa de quem trabalha na galeria é NÃO fazer nada. "A instituição e a exposição não estão fechadas, mas antes deslocadas para a esfera pública e sociedade".

Não se pode dizer que Eichhorn seja pioneira no gesto. Robert Barry fez algo semelhante em 1969 em Amesterdão, quando deixou uma cartaz na porta da Art + Project Gallery dizendo aos visitantes que estaria fechada enquanto durasse a exposição.

Outro artista, Michael Asher, partiu uma parede da galeria, deixando à vista os que se passa nos bastidores.

No caso deste trabalho para a Galeria Chisenhale, dar um mês de férias aos funcionários da galeria segue-se a um conjunto de conversas sobre o bom e mau dos seus trabalhos (disponíveis no site da mesma) e uma gravação durante o simpósio. Nas entrevistas com a equipa cada um explicou em detalhes quais as suas funções e o seu dia-a-dia. A maioria gosta do trabalho e identifica três obstáculos: tarefas rotineiras, redes sociais e mails fora do âmbito profissional. O elevado ritmo de produção do trabalho e as obrigações de angariação de fundos ultrapassam em tempo o que podem destinar a pensar e a fazer pesquisa artística.

5 Semanas, 25 dias, 175 horas é uma reflexão sobre "condições de trabalho" (diz o site da galeria) e o muito falado "equilíbrio entre carreira e trabalho", segundo o crítico do The Guardian Adrian Searle. O que Eichhorn dá aos trabalhadores da galeria é mais do que uma pausa, é tempo.

Embora a artista já tenha dito que os efeitos do trabalho não possam ainda ser contabilizados, um colecionador mostrou-se interessado em comprar o trabalho da alemã, outros sugerem que faça uma digressão pelo mundo.

Maria Eichhorn, 53 anos, não é novata nestas experiências. Em 2011, usou o orçamento disponível para expor no Kunsthalle de Berna, na Suíça, para completar as obras de renovação de que o edifício precisava. Participou na Bienal de Veneza em 2015 com o trabalho All of the Art's Futures.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG