20 anos depois: "Somos melhores hoje"

A festa termina na Meo Arena a 19 de dezembro. Amanhã sai uma coletânea e um livro.

Se tivesse de escolher um momento nestes 20 anos de carreira dos The Gift, o baixista John Gonçalves recuaria até ao concerto da Aula Magna, em junho de 1999. A sala estava cheia, toda a gente sabia de cor a letra de OK!, Do You Want Something Simple? e era inegável a alegria, no palco e na plateia. Quase no final do concerto, os fãs começam a subir para o palco. Primeiro um, depois outro, depois muitos. Queriam festejar. Dançar com a Sónia Tavares. Levar para casa uma das penas que ela tinha no seu cabelo. "Foi lindo", lembra a vocalista. "Foi a nossa primeira invasão de palco." Espontânea e pacífica. E foi também, diz John, o momento em que "a banda, e não só a banda, percebe que isto é a sério e que vamos ficar aqui muitos anos".

Ficaram mesmo. E aqui estão eles. A festejar os 20 anos desde que, em 1994, se começaram a juntar, depois das aulas e aos fins de semana, num sótão em Alcobaça, onde todos moravam, com vontade de fazer música. Um grupo de amigos: Nuno Gonçalves (teclas, programação e voz, além de compositor) e Miguel Ribeiro (guitarra), primeiro, a que logo se juntam John Gonçalves (irmão de Nuno, baixo e teclas) e Ricardo Braga (bombardino) e Sónia Tavares (voz e, no início, também flauta, além de escrever grande parte das letras). Um grupo que se queria pop mas sem bateria. A cantar em inglês. E a recusar-se a ser um grupo de versões para atuar em bares.

A festa de aniversário começou no ano passado mas entra agora na reta final: amanhã, chega às lojas um livro, The Gift 20, de autoria de Nuno Galopim, no qual se conta a história do grupo; um álbum duplo, intitulado 20, e que além de uma seleção de temas inclui três canções novas (o single Clássico, cujo videoclip está quase a sair, e mais duas); e ainda uma caixa para colecionadores que além destes dois produtos tem ainda quatro DVD com concertos, making of e outras surpresas (e que terá um custo de 59,99 euros). E a festa vai terminar com dois grandes concertos em dezembro: dia 12 no Multiusos de Guimarães e no dia 19 na Meo Arena, em Lisboa.

Os anos "mais duros"

Olhando hoje para trás, os músicos dos The Gift concordam que estes 20 anos "passaram muito depressa". "Quando as dizemos, as palavras "20 anos" têm um peso que não correspondem exatamente àquilo que sinto. Passaram num instante", diz Sónia.

"Custaram mais os primeiros cinco anos de 1994 a 1999, do que estes até 2015", diz, sem hesitar Nuno. "Foram anos muito duros." Claro que havia a adrenalina que há em todos os começos. "A adrenalina de sabermos se havia público para The Gift, se isto que fazíamos ia interessar a alguém, as editoras diziam que só estariam interessadas em nós se cantássemos em português." Mas, ao mesmo tempo, foi o tempo de todas as batalhas. "Houve a mágoa de termos perdido um dos elementos da banda [Braga saiu da banda para seguir a carreira de advocacia após o primeiro disco], houve a mágoa de o disco que foi lançado em 97, Digital Atmosphere, não ter funcionado e não ter chamado a atenção de nenhuma editora. Mesmo o Vinyl [de 1998] ainda tem inerente uma grande batalha, uma luta enorme para entrarmos nas rádios, para fazermos uma digressão, para levarmos para a estrada um espetáculo tão ambicioso - tínhamos 14 músicos em palco."

Lutas diárias que, aos poucos, foram tendo resultados também diários. As plateias cheias, os telefonemas dos lojistas a pedirem mais discos, a alegria imensa de ouvir as suas canções na rádio. De cada vez que ouviam o OK na rádio do carro, tinham de parar o carro e desatavam aos gritos no meio da estrada, lembram. 1999 foi o ano da invasão de palco na Aula Magna, de um concerto cancelado pela chuva junto ao Mosteiro de Alcobaça, do primeiro Coliseu. Dos carros atafulhados de violinos e violoncelos para levar uma pequena orquestra a tocar em auditórios por esse país fora. Foi o ano do tudo ou nada. E foi tudo.

Do it yourself

A partir daí, já todos sabiam com o que contavam: quer em termos musicais quer em termos de atitude. É que, tanto quanto a mistura entre programações e um lado sinfónico faz parte do ADN dos The Gift, também isto de eles quererem fazer tudo ao seu jeito e de quererem fazer chegar a sua música ao público com o mínimo de intermediários. Se não havia editora interessada, eles editavam os seus discos. Se não havia dinheiro para contratar um promotor, eles próprios apareciam nos jornais e nas rádios a entregar um disco. Aquilo que ao princípio era uma necessidade transformou- -se em mais uma luta - "vamos mostrar-lhes que conseguimos" - e acabou por se tornar um vício. Ainda hoje, gostam de controlar tudo. De estar nas reuniões. Ainda hoje podemos vê-los a carregar o cenário ou a desmontar o palco. "Todos os detalhes contam", diz Nuno, que se encontra connosco num café ao lado da Meo Arena mas confessa que está em pulgas para terminar a conversa e ir lá dentro, a ver se ainda apanha uma reunião onde se acertam pormenores para o concerto de dezembro.

E, para além do do it yourself, há outra característica que está no grupo desde o início: uma permanente insatisfação, uma vontade de ir sempre mais além, de nunca aceitar um "não" como resposta. Porque não? Essa atitude, que é ótima em termos criativos, revelou-se um desastre a nível financeiro. "Chegámos a estar paupérrimos", lembra Sónia. "O dinheiro que ganhávamos era todo gasto para fazer as digressões, pagar aos músicos, tudo. Nós ficávamos sem nada. Era tudo por amor à causa. Só a partir de 2006 é que começámos a ter uns minicachês."

O essencial não são as tatuagens

Depois de Vinyl, vieram Film (2001), AM-FM (2004), Explode (2011) e Primavera (2012), para além de um álbum ao vivo, Fácil de Entender (2006) e de os Gift terem também estado envolvidos no projeto Amália Hoje (2009). O passado já foi e está todo contado, com pormenores, no livro de Nuno Galopim. Um livro que, como diz Nuno Gonçalves, é um "manual de como criar uma banda". Passaram 20 anos, The Gift sabem que nunca mais vão vender tantos discos como as 40 mil cópias de Explode. A indústria está a mudar. Há filhos e sobrinhos, casamentos e divórcios, até quem se mudasse para o estrangeiro. Mas os Gift continuam a ser um grupo de amigos a fazer música. "Aquilo em que acredito é na banda", diz Nuno. "Num grupo de pessoas que crescem juntas. Um bom frontman ou uma boa frontwoman. Uma boa dupla que escreva canções. Mais nada. Acredito nos discos e, depois, nos espetáculos. Não é a tatuagem, não é a roupa, não são os anéis. Nada aqui é fake. É a música e, depois, conseguir comunicá-la bem às pessoas."

"Estamos muito novos e cheios de energia", acrescenta, confiante, John. "Estamos no nosso melhor momento, a fazer as grandes canções do Nuno, a Sónia a cantar melhor do que nunca, nós todos a fazer os espetáculos como queremos fazer, e digo isto sinceramente, acho que estamos preparados para mais 20 sem o mínimo problema. Não somos os Rolling Stones mas ainda temos vontade de fazer muitas coisas." Ou como diz Nuno: "É como um longo casamento, relembras os primeiros anos e é uma paixão irrepetível. Mas tem de ser bom ainda hoje, senão não vale a pena." E não tem dúvidas de que "somos melhores hoje": "No dia em que eu achar que o disco anterior era melhor do que aquele que estou a fazer agora, então, esse novo disco não sai."

O próximo disco será o melhor

A festa dos 20 anos é, afinal, como diz Miguel, "apenas mais uma etapa, uma passagem para o que vem a seguir". E o que vem a seguir, em 2016, é um disco que já está praticamente concluído e que contou com a colaboração - na produção mas também na criação das canções - de Brian Eno, o britânico que trabalhou com nomes como Tal-king Heads, U2 ou Coldplay.

"Estar dois anos e meio a gravar um disco com o Brian Eno é algo que não se pode explicar assim. Ter uma pessoa daquelas, com aquela luz, aquela vida, a produzir o nosso disco é a experiência mais transcendental que os Gift tiveram na sua vida", conta Nuno. Foi uma "experiência irrepetível" que, na verdade, até poderá repetir-se, e os músicos não escondem a felicidade que vivem neste momento.

"Acordar de manhã e saber que vais trabalhar com o Brian Eno é uma fonte de inspiração e uma motivação tremenda. E só por si isso dá vontade de fazer diferente. Este disco não será uma rutura, porque já temos uma identidade, mas vai ser diferente." Diz Nuno: "Só fazia sentido partir para este projeto de celebração dos 20 anos porque já tínhamos o próximo disco gravado, e assim estes três temas foram feitos sem qualquer pressão." É uma celebração do passado, do presente mas também do futuro, que para eles é algo bastante palpável.

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