17 séculos depois, o teatro clássico volta a estas ruínas

"A Paz", de Aristófanes, estreia hoje no Museu de Lisboa - Teatro Romano, onde até ao século IVd.C. 4 mil pessoas se juntavam.

A Europa está hoje em paz. Mas pelas suas portas têm entrado muitas pessoas vindas de países que, como a Síria, não estão. Silvina Pereira leva A Paz, peça de Aristófanes, à cena a partir de hoje. Lá, nas ruínas do Museu de Lisboa - Teatro Romano, diz que aquele é "um texto muito atual, que diz muito aos tempos que correm. O grande tema é a paz, a sua manutenção, contra os lobbies de guerra. Fala das sombras que nos percorrem, hoje em dia. Relembrarmos todos a importância da paz. Porque com a guerra vem a fome, a miséria, a morte. Os povos querem a paz."

Desde o século IV d.C. que o teatro clássico não vinha aqui, onde cerca de quatro mil pessoas assistiam a representações naquele teatro da Olisipo. Lisboa agora, com as dezenas de turistas que, dois a dois, sozinhos, ou em grupo, fazem um vai e vem quase permanente nas escadas da rua da Saudade, que têm vista para o Teatro Romano. E vão parando para assistir. Porque estamos em 2016, já passa das nove horas da noite, e há atores que, por entre ruínas, vociferam o nome de um deus grego como Hermes.

Foi ele o único que ficou no Olimpo quando Trigeu, um lavrador, subiu lá acima montado num escaravelho - se fossemos contemporâneos de Aristófanes não tardaríamos a percebê-lo como uma farpa lançada a Eurípides, em cujas tragédias as personagens montavam animais alados. Trigeu queria saber por que acontecia aos gregos aquela guerra que tudo trucidava. É com o deus Hermes que, depois de vermos a Guerra personificada numa mulher iracunda, sabemos que a Paz foi feita prisioneira no fundo de uma caverna.

A peça de Aristófanes estreou em 421 a.C., nas Dionísias Urbanas, a Grécia atravessava a guerra do Peloponeso. O teatro, hoje Museu de Lisboa - Teatro Romano, na rua de São Mamede, perto da Sé, foi construído no século I d.C., e abandonado três séculos depois. Ficaria soterrado até 1798, quando as suas ruínas foram descobertas. Ali decorreram várias campanhas arqueológicas durante o século XX. No ano passado, voltou a abrir as suas portas, que até 17 de julho recebem o Teatro Maizum, numa encenação de Silvina Pereira, atriz e investigadora no Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Lisboa.

Nesta peça, explica a encenadora, fala-se da paz, mas também dos "demagogos que levam os povos para a guerra e os fazem sofrer". E se as palavras de Aristófanes são como "páginas da História, que têm 2500 anos e que nos são hoje distantes, o tema não é", lança. Todavia, estamos em 2016. "Há todo um contexto cultural e histórico que nos escapa. A certa altura, ouve-se uma piada a Mégara. Mas o leitor hoje sabe que era a cidade dos alhos e que besuntou a deusa e que correu com ela? Não sabe. Sabe que os megarenses reivindicam ser os inventores da comédia? O espectador da altura sabia isso. São como as nossas piadas dos políticos."

Silvina Pereira olha em volta. Agora cabem 80 pessoas, antes juntavam-se quatro mil para ver peças gregas e romanas. "O teatro grego era feito em falésias. Está a ver aquilo ali? Era só o primeiro andar. Nós estamos aqui ao contrário daquilo que era o espetáculo, os espectadores estavam onde agora estão os atores. Isto eram três andares, até lá cima."

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