Celebrar o "toque" cinematográfico de Ernst Lubitsch, um alemão em Hollywood

O realizador foi um dos grandes mestres clássicos de Hollywood. A sua obra americana tem retrospetiva na Cinemateca, ao longo de março e abril.

Quando evocamos os autores clássicos de Hollywood que nasceram na Alemanha, quase sempre ficamos por aqueles que criaram universos de intenso dramatismo, como é o caso de Fritz Lang. Enfim, convenhamos que Lang é um dos maiores cineastas de toda a história do cinema... Em todo o caso, importa contrariar essa tendência "séria" e voltar a valorizar o génio de Ernst Lubitsch, mestre absoluto das nuances da comédia. É isso mesmo que podemos fazer através do ciclo "Lubitsch americano" que a Cinemateca apresenta ao longo de dois meses (filmes sonoros em março, produções mudas em abril).

Aliás, as próprias coordenadas do género cómico não bastam para caracterizar a pluralidade criativa de Lubitsch. Desde logo porque o primeiro e essencial capítulo da sua formação foi como ator, na companhia de Max Reinhardt - como a sua obra amplamente demonstra, ele possuía um feeling especial para as nuances da representação, sabendo reconhecer e exponenciar as singularidades dos seus atores e atrizes.

Nascido em Berlim, a 29 de janeiro de 1892, acabaria por se impor no cinema como realizador, nomeadamente através de alguns títulos em que dirigiu a lendária Pola Negri, como Carmen (1918) ou Madame DuBarry (1919).

Filmes como estes, a par do épico A Mulher do Faraó (1922), com Emil Jannings, deram-lhe uma imagem de marca de competência técnica e versatilidade narrativa, de tal modo que, quando se estreou nos EUA, dirigindo Mary Pickford em Rosita, Cantora das Ruas (1923), era apelidado de "Griffith europeu" (na altura, D.W. Griffith já tinha dirigido as superproduções O Nascimento de Uma Nação e Intolerância, respetivamente em 1915 e 1916).

Parada de Amor (1929), recriando a ligeireza das comédias românticas e alguns filmes-opereta europeus, terá sido o momento da consagração plena. Centrado no par Jeanette MacDonald/Maurice Chevalier (que Lubitsch viria a dirigir diversas vezes, incluindo no célebre A Viúva Alegre, 1934), valeu-lhe a primeira de três nomeações para o Óscar de melhor realização que nunca ganhou - veio a receber um prémio honorário da Academia de Hollywood, em março de 1947, apenas poucos meses antes do seu falecimento, a 30 de novembro.

Ao longo da sua carreira, mesmo tendo passado por vários dos maiores estúdios de Hollywood (Warner, Paramount, Fox), foi desenvolvendo uma obra tão pessoal quanto coerente que, a certa altura, lhe valeu o reconhecimento de um "toque" muito especial: "The Lubitsch touch."

Os filmes "pré-Código"

As obras-primas do "Lubitsch touch" encontram-se, sobretudo, no período da Paramount, sendo forçoso destacar: One Hour with You/Uma Hora Contigo (1932), de novo com MacDonald/Chevalier; Trouble in Paradise/Ladrão de Alcova (1932), com Miriam Hopkins e Herbert Marshall, e Design for Living/Uma Mulher para Dois (1933), com Gary Cooper, Miriam Hopkins e Fredrich March. São filmes do chamado período "pré-Código" (antes de os estúdios de Hollywood terem estabelecido um sistema de regras condicionando as representações dos laços amorosos e, em particular, as sugestões de caráter sexual), brincando com requintada elegância com todas as ambivalências morais. Observe-se o inusitado título português Uma Mulher para Dois, na verdade identificando "apenas" um trio de personagens apostado em construir uma comunidade platónica.

Lubitsch conseguia, afinal, partir de situações dramáticas e cómicas mais ou menos convencionais para, metodicamente, as decompor através de uma imprevisibilidade muitas vezes apoiada em calculadas "omissões" narrativas (as suas célebres elipses). Se o cinema existe como instrumento para dar a ver as relações humanas, ele sabia expor os elementos das respetivas contradições através de uma elaborada arte de ocultação e sugestão.

É isso mesmo que encontramos nos seus dois prodigiosos "filmes políticos": Ninotchka (1939), centrado nas aventuras de uma espia russa em Paris, e Ser ou não Ser (1942), desmontando de forma sarcástica a arrogância nazi. O primeiro serviu para relançar a carreira de Greta Garbo, mesmo se, insolitamente, com o seu filme seguinte, A Mulher de Duas Caras (1942), ela pôs fim a essa carreira. Contrariando a imagem séria e austera de Garbo - o filme foi mesmo promovido com a frase "Garbo ri" -, Lubitsch dirige-a num jogo de verdades e aparências capaz de desmanchar as hipocrisias políticas, em última instância celebrando a irracionalidade do impulso amoroso.

Billy Wilder, outro mestre germânico de Hollywood (nascido na Áustria), colaborou no argumento de Ninotchka. Reza a lenda que, na porta do seu gabinete de trabalho, tinha inscrita uma pergunta inspiradora: "Como é que Lubitsch faria isto?" No funeral do seu mestre, Wilder desabafou com tristeza: "Não há mais Lubitsch." William Wyler, também de origem germânica (viria a dirigir Ben-Hur, em 1959), completou com amargura: "Pior do que isso: não há mais filmes de Lubitsch."

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