José Rodrigues dos Santos dá início ao seu último romance com a seguinte expressão: "O velho de olhar glacial." A partir daí coloca a personagem, um velho agente da CIA, a penetrar em terreno proibido das instalações científicas do CERN em Genebra, onde se realizam as experiências para provar a teoria do Bosão de Higgs. Nas vinte e quatro páginas seguintes das seis centenas que perfazem este thriller espalha todos os truques deste género literário: um cadáver; manobras de agentes norte-americanos em território português; uma charada policial; um manuscrito medieval, e um pânico terrível nas instalações onde se busca a prova da existência da Partícula de Deus. Como não fosse suficiente, mata a mãe do protagonista e fá-la regressar do além, ainda com ânimo para comer uma feijoada e atirar uma pedra a um agente da CIA enquanto o chama de "ordinário". .Essa é a receita do autor português que numa dúzia de anos passa do obscuro objeto de ficção intitulado A Ilha das Trevas para A Chave de Salomão e deixa no seu rasto uma venda de livros de quase dois milhões de exemplares vendidos - exatamente um milhão e 928 mil - só em Portugal; cerca de meio milhão em língua francesa e vários milhares nas outras traduções, designadamente na Holanda, Suíça, Itália e Espanha..Se a contabilidade for feita mais a Leste, somam-se vários primeiros lugares nas tabelas da Hungria e da Bulgária. Só o continente americano é que ainda não se rendeu ao autor português, como explica: "Nos Estados Unidos é difícil penetrar se o escritor não for anglófono e no Brasil a minha editora, a Record, cometeu o erro de não fazer a adaptação para o português deles." .Quanto a Portugal, o mais recente livro de José Rodrigues dos Santos foi lançado há dez dias com a maior tiragem da rentrée literária: 70 mil exemplares. O lançamento feito há uma semana em Lisboa teve início às 17.00 e terminou depois da meia-noite, após autografar setecentos exemplares de A Chave de Salomão. O que o confirma como o autor que mais vende em Portugal e que com mais rapidez escala a tabela de vendas de uma semana para a outra, mantendo-se nos primeiros lugares até ao princípio do ano que vem, época em que volta a haver novidades para o destronar. E mesmo que a "crise afete todos", como diz Rodrigues dos Santos, A Chave de Salomão já chegou aos primeiros lugares em poucos dias..Quanto à receção por parte da crítica nacional, a resposta é bem diferente da que é dada pelos leitores: "Se comparar o número de críticas publicadas em França sobre os três livros que lá foram traduzidos com as que saíram em Portugal nota-se bem a diferença." A explicação é, acrescenta: "A nossa crítica não percebe que não estou interessado em fazer exercícios de linguagem ou escrever o que eles querem ler, nem compreendem que têm de analisar os meus livros pelo estilo onde se inserem em vez do que vão à procura." Em tom de desafio, justifica a pouca receção da crítica nacional assim: "Tudo o que sai do quadrado que leem, escapa-se-lhes!" .O certo é que é o autor que mais vende em Portugal desde há alguns anos e não reclama perante o número de pessoas que seduziu: "O que interessa são os leitores, que compram o livro e partilham com a família e amigos cada exemplar. Tenho a certeza que tenho ainda mais leitores do que vendas.".Também não se vai fazer aqui a crítica literária porque A Chave de Salomão é o produto típico de José Rodrigues dos Santos, conforme se pode confirmar na entrevista que se segue, e não foge ao esquema de capítulos breves e muita ação e lições científicas bem caldeadas. Uma novidade é a introdução de uma personagem feminina portuguesa com mais papel, mantendo-se a intriga bem apoiada em informação científica. A outra novidade deve-se ao tratamento da questão da vida depois da morte, que tenta também fazer passar do esotérico para a fundamentação da ciência. . Avisa no início que a informação científica e técnica incluída no romance "é genuína e que as suas teorias e hipóteses são sustentadas por cientistas". Temia ter ido longe de mais na intriga? .De modo algum. Isto é uma forma de informar os leitores de que a informação científica que consta no livro é genuína e que as hipóteses exploradas pelo romance são sustentadas por físicos. Ou seja, só a intriga é ficcional. A informação científica é genuína. Saber isso faz, para o leitor, toda a diferença.. Como é seu hábito a pesquisa para servir de cenário ao livro é intensa. Isso nunca o desvia do verdadeiro sentido da história que quer contar? .A história que eu quis contar foi a história de se perceber o que nos acontece quando morremos. Ou melhor, o que a ciência descobriu sobre o assunto. Nesse sentido, a parte científica não se desvia da história. Pelo contrário, está ao serviço da história. Tal como a história, de resto, está ao serviço da parte científica do romance. .Tem vindo a manter-se no género thriller. É o que mais seduz os seus leitores?.O género thriller de mistério real é apenas um dos géneros que exploro na minha escrita. Escrevo também romances históricos, como se pode constatar pela leitura de A Ilha das Trevas, A Filha do Capitão, A Vida Num Sopro e O Anjo Branco, e biografias romanceadas, como é o caso de O Homem de Constantinopla e Um Milionário em Lisboa. Portanto, acho que se pode dizer que não sou um autor de um único género.. Desta vez inclui "ignorantes" na ciência como personagens principais (Maria Flor, p. 364). Por ser mais credível ou acha que os mistérios da ciência devem ser preocupação de todos? .Pelas duas coisas. A ciência está na vanguarda de uma mão-cheia de descobertas de profundo alcance filosófico, mas os cientistas, talvez por não terem preparação filosófica e também por não serem talhados para as letras, não conseguem muitas vezes escrever textos que mostrem quão apaixonastes e significativas essas descobertas são. No fundo foi isso o que fiz em A Chave de Salomão. Parti de uma premissa de base, o que acontece quando morremos?, e mostrei as descobertas científicas que nos ajudam a entender a resposta a essa pergunta fundamental. Quem não gostaria de saber o que nos acontece quando morremos? Não é preciso ser-se uma pessoa interessada em ciência para se ser uma pessoa interessada na resposta a esse mistério universal.. Não o incomoda que o CERN já tenha servido de palco a outros escritores da sua área, designadamente Dan Brown, e que este romance pareça mais do mesmo? .Acha que é? Pois a mim parece-me muito diferente. O CERN é o ponto de partida do mistério ficcional de A Chave de Salomão, não o centro da acção nem o ponto de chegada. . Esteve no CERN. Acha que a ciência justifica gastar tanto dinheiro? .Se não fosse a ciência, ainda estávamos a tentar curar o tifo ou o tétano com orações a Deus. E acharíamos que a Terra estava no centro do universo e que nas estrelas pairavam anjos. E andávamos a cavalo ou em burros.. Há uma certa continuação de A Fórmula de Deus neste livro. Deve-se ao acaso ou porque esse livro foi um grande sucesso em França e quer alimentar o interesses desses novos leitores? .É de facto uma continuação temática de A Fórmula de Deus, mas não pelas motivações apontadas. Escrevi este livro porque achei que havia coisas adicionais a dizer que não tinham sido ditas em A Fórmula de Deus. E os temas, embora correlacionados, são diferentes. Em A Fórmula de Deus a questão central era: o que descobriu a ciência sobre a existência de Deus? Em A Chave de Salomão, o tema é: o que descobriu a ciência sobre o que nos acontece quando morremos? . Ficou surpreso com o sucesso junto do público francês? .Bem... acho que os romances são atraentes para qualquer público. A Fórmula de Deus já chegou ao primeiro lugar do top em vários países e não havia razões para ser diferente em França.. No lançamento em Lisboa foi obrigado a dar 700 autógrafos. Surpreendeu-o? .Desde o lançamento de A Vida Num Sopro que centenas e centenas de pessoas acorrem todos os anos aos lançamentos do meus romances. O que aconteceu com A Chave de Salomão apenas confirmou essa tendência. Existe um número crescente de pessoas, transversais à sociedade portuguesa, que gostam de ler romances sobre temas interessantes, com uma história com elementos de amor, aventura e suspense e com uma linguagem clara e atraente. Haver em Portugal 700 pessoas que vão a um local assistir ao lançamento de um livro é algo que nos deve encher a todos de orgulho. . Publicou A Chave de Salomão primeiro em francês. Vai ser a regra editar primeiro lá fora e só depois em Portugal? .De modo nenhum. A ideia era fazer um lançamento simultâneo em Portugal e em França. Acontece que os editores franceses tiveram necessidade de publicar o livro na Primavera porque essa é a ocasião ideal no mercado francês. Já aqui é no Outono. Daí o desfasamento de datas.. Considera que conseguiu impor um protagonista português, Tomás Noronha, entre os criados por outros autores de thrillers? .Talvez. Muitas pessoas fazem-me perguntas sobre o Tomás quase como se fosse um velho conhecido. É possível que ele já tenha conquistado o seu lugar.. Pode dizer-se que o sucesso verificado com as várias traduções lhe concedeu o estatuto de autor internacional? .A partir do momento em que sou publicado em 20 línguas e em mais de 30 países, com os meus romances a chegarem aos tops de vendas em alguns deles, essa é uma realidade.. Sente o peso da inveja nos autores nacionais que no seu conjunto vendem menos exemplares do que cada romance seu? .Quer que seja sincero? Não sinto. Não quer dizer que não haja, mas não sinto. O facto, no entanto, é que sou um pouco alheio a tudo isso. A inveja é um fenómeno natural e aceito-a como fazendo parte da vida.. Quando Saramago se internaconalizou deixou de situar os seus romances em cenários nacionais. Os leitores estrangeiros não acham estranho a ação passar-se com tantas descrições portuguesas? .Sem dúvida que um leitor americano preferiria que o herói fosse americano, o francês gostaria mais que fosse francês e assim sucessivamente. Mas penso que a universalidade dos temas abordados nas aventuras do Tomás Noronha mais do que compensam esse factor. Por outro lado, se ninguém se incomoda por o Poirot ser belga, o Indiana Jones americano e o inspector Maigret francês, porque razão se haveriam de se incomodar por o Tomás Noronha ser português? Além disso, o cenário português introduz um elemento exótico, por ser raramente explorado na literatura internacional. . No balanceamento deste livro a parte de thriller é menorizada até quase ao fim do primeiro terço do livro (p. 190) com uma pose imbecil da CIA. É uma crítica ao atual comportamento ineficaz das agências norte-americanas? .Não. Todas as organizações têm pessoas mais ou menos competentes. Tanto quanto sei, a CIA é muito high-tech e sofisticada em certas coisas e surpreendentemente incompetente noutras. E, tal como noutras organizações, é constantemente dilacerada por guerras intestinas e por "quintas" dominadas por pequenos grupos. O meu romance limitou-se a explorar essas características naturais em qualquer organização.. A introdução de um tema como o do regresso à vida após a morte é uma tentativa de ganhar mais leitores ou uma questão de interesse pessoal também? .Acho que é mais uma questão de interesse universal. Quem não gostaria de saber o que acontece quando morremos?.Este tópico esotérico indicia que vai pegar em temas à Paulo Coelho?.Confesso que não sei o que são temas à Paulo Coelho.