Sem que nada o fizesse prever, na sexta-feira passada a candidatura do PS em Águeda foi notícia nacional. Não porque houvesse muito interesse sobre o respectivo candidato, cujo nome poucos terão fixado, mas porque um jantar dessa candidatura serviu de cenário para Manuel Alegre anunciar que vai disputar as presidenciais de Janeiro. Sintomático as eleições locais, cuja campanha eleitoral começou oficialmente à meia-noite, correm o risco de ficar reduzidas a pano de fundo de outras lutas políticas..A propósito das autárquicas tem-se falado de muita coisa que tem pouco a ver com os problemas locais discute-se se o Governo, alvo de contestação social, receberá um cartão amarelo dos eleitores; debate-se o estado da justiça e as leis que permitem que autarcas suspeitos de crimes graves se recandidatem; especula-se sobre o Orçamento do Estado que José Sócrates apresentará seis dias depois das eleições. No tempo que sobra, há o folhetim presidencial. .Vá lá, também se fala de autárquicas. Mas nem os candidatos que prometem milhares de empregos, ou túneis sob o Tejo ou o Céu na Terra - o rol de promessas é um teste à credulidade aos eleitores - desviaram as atenções da grande questão da pré-campanha quem foi pior no debate, Carmona ou Carrilho? .Nem todas estas questões serão epifenómenos mediáticos. Pelo contrário. Se as presidenciais estão a atropelar as autárquicas, é porque Sócrates lançou o tema. Dois dias antes de dar a sua bênção à candidatura de Soares, o líder do PS tinha afirmado que esse não era um assunto pertinente e que o importante era concentrar-se nos verdadeiros problemas do País. Ora esses problemas - que também eram problemas do Governo - passaram para segundo plano quando o buldózer Soares foi lançado em cena... por Sócrates..Mais o líder socialista sabe que dificilmente poderá cantar vitória dia 9 (ver página ao lado), mas não sabe que influência poderá ter a contestação ao Governo na hora de votar para a câmara ou junta. À cautela, desvaloriza repete que não é a gestão do País que está em causa, aparece o mínimo que pode na campanha autárquica e foca as atenções nas eleições de Janeiro..O líder da oposição faz o inverso. Contando que tem o problema das presidenciais resolvido com Cavaco Silva - e com o sossego de não ter na sua banda rebeldes como Alegre -, Marques Mendes aposta forte nas autárquicas, eleições que dificilmente pode perder o PSD parte com 42 câmaras de vantagem sobre o PS e bem posicionado nas sondagens para segurar os dois municípios mais emblemáticos, Lisboa e Porto..Ora, com uma liderança partidária ainda verde, uma vitória eleitoral é exactamente o que Mendes precisa para consolidar a sua posição no partido. O seu intenso programa de deslocações durante esta campanha tem tanto a ver com as autárquicas como com a situação interna do líder social-democrata..Mendes e Ribeiro e Castro, o líder do CDS, são, aliás, os dois líderes que mais têm em jogo nestas eleições. Um mau resultado, se não puser em causa as respectivas lideranças, terá pelo menos o efeito de motivar os opositores..Um mal que não atormenta os outros partidos da oposição. Empenhados nas suas candidaturas presidenciais, tanto Jerónimo de Sousa como Francisco Louçã esperam potenciar uma eleição com a outra o elã presidencial ajuda-os na volta ao País por causa da disputa local, e um bom resultado autárquico (leia-se, reforço da votação de 2001) será um bom augúrio para Belém. A tranquilidade de Louçã e Jerónimo face aos outros líderes ainda é maior porque nenhum se viu confrontado com candidatos autárquicos envolvidos com a justiça. E esses são os outros grandes protagonistas desta campanha, para incómodo dos partidos de que são originários - não só dão má publicidade à casa como se preparam para vencer nos respectivos municípios..Mendes afastou das listas Valentim Loureiro (Gondomar) e Isaltino Morais (Oeiras), que concorrem contra os candidatos oficiais do PSD. Isaltino, investigado por causa de contas não declaradas na Suíça, evitou um problema a Mendes, desfiliando-se, mas no caso de Valentim, um dos principais suspeitos do "Apito Dourado", está a correr o processo de expulsão. Ribeiro e Castro, por seu lado, tem-se mantido distante de Avelino Ferreira Torres, mas este continua a ser senador do CDS e o partido não apresenta lista alternativa em Amarante. No PS, é Fátima Felgueiras quem dá dores de cabeça a Sócrates. Apesar de a autarca se ter desfiliado, os socialistas reconhecem que este é um caso que provoca danos na imagem do PS, até pelas suspeitas de que o regresso de Felgueiras a Portugal poderá ter sido concertado com dirigentes do partido..Apesar do clamor nacional que todos estes casos provocaram, são estes os candidatos que motivam as maiores mobilizações populares. Poucas vezes se viram multidões em torno de um candidato como em Felgueiras ou Amarante.