O feio segundo Umberto Eco

Publicado a
Atualizado a

Ensaio funde, nos seus 15 capítulos, referências eruditas e pop

Na sequência do best-seller internacional História da Beleza, de Umberto Eco, publicado em mais de 30 línguas, acaba de chegar às livrarias História do Feio, numa edição da Difel (colecção Álbuns Ilustrados).

Escritor, semiólogo, Umberto Eco faz uma peregrinação em 15 capítulos pelo universo do feio no seu estilo inconfundível, de forma tão empírica quanto teórica.

A obra, do autor de O Nome da Rosa, inspira-se numa veia iconográfica vastíssima. Ao longo do livro, encontramos o feio na natureza, o feio aliado ao espiritual, exploram-se conceitos como desarmonia e assimetria, desfiguração e debilidade, pinta-se a vileza ou banalidade, o grosseiro ou o grotesco, o horrendo ou o repulsivo. A narrativa de Umberto Eco é uma espécie de cartografia de emoções que alinha excertos picarescos de Rabelais (a invenção dos "limpa-cus" no tomo I de Gargântua e Pantagruel, 1532), o Manifesto Surrealista, de André Breton (1924), e a descrição de um inimigo de James Bond a ser devorado por tubarões no filme Vive e Deixa Morrer (1954).

O escritor funde, no mesmo texto, referências eruditas e pop, bem como contextos históricos diversos numa obra que reúne dezenas de imagens de várias épocas, tendo em conta que nem sempre beleza é o contrário de fealdade.

Já História da Beleza não era nem uma história de arte nem um estudo de estética, valendo-se de ambos para delinear a ideia de beleza da Antiguidade aos nossos dias.

Em 17 capítulos, o autor de O Pêndulo de Foucault reflectia sobre as diversas transformações dos conceitos de beleza ao longo dos tempos num estilo não demasiadamente hermético, elaborando uma síntese multifacetada que incluía não só as artes plásticas, o design, a música, a literatura, a dança, entre outras manifestações artísticas.

Mas o que cativa o leitor é a erudição de Eco, qualidade do seu estilo sem que o autor se torne, em nenhum momento, pedante. Antes de chegar ao século XX, o ensaísta viaja pela Grécia e por Roma antigas, pela Idade Média, pelo Renascimento ou pela estética vitoriana do século XIX.

Revisitados são textos de Platão a Eric Hobsbawm, passando por Dante, Kant, Hegel e Kafka. Muitos destes escritos são reproduzidos ao lado de belas imagens.- A.M.G.

Diário de Notícias
www.dn.pt