Morreu Guilherme de Melo

Nascido em Moçambique, onde se estreou no jornalismo e na escrita, veio para Portugal logo após o 25 de Abril. Ingressou no DN em 1976, reformando-se em 1996. Morreu ontem, aos 82 anos.
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Quando, em 1996, o jornalista e escritor Guilherme de Melo se reformou, o então diretor do DN, Mário Bettencourt Resendes, com o acordo do Conselho de Administração da empresa, promoveu-o a redator principal. Na última crónica que assinou, a 31 de dezembro desse ano, intitulada "Tudo na vida tem um fim", Guilherme de Melo escreveu: "Confesso que o gesto me desvaneceu [...] Quando chegar a hora de apanhar o último comboio, será com esse galardão que me apresentarei do outro lado."

Ontem, Guilherme de Melo, jornalista do DN entre 1976 e 1996, apresentou-se lá do "outro lado" com esse bastão de honra. Morreu no Hospital de São José, em Lisboa, onde estava internado há três semanas, devido a um cancro. Tinha 82 anos.

Todos os que conviveram com ele não lhe esquecerão o profissionalismo exemplar, a coragem desassombrada, a imensa camaradagem, a capacidade de fazer amizades instantaneamente, a boa disposição permanente e aquele rasgado e malicioso sentido de humor que contaminava toda a gente. Durante duas décadas, a sua presença e as suas palavras enriqueceram a Redação, as páginas e os leitores do DN.

Autor de quase 20 livros de ficção e não--ficção, Guilherme de Melo dizia que a sua escrita literária tinha por escola a escrita jornalística e que era incapaz , em si, de dissociar o jornalista do escritor.

Entre as suas obras, destaca-se A Sombra dos Dias (1981), "uma autobiografia escrita na terceira pessoa", que ganhou o concurso do Círculo de Leitores para obras inéditas e na qual o autor assumia frontalmente a sua homossexualidade, ao mesmo tempo que tratava o tema de forma romanesca, facto praticamente inédito na literatura portuguesa. Refiram-se ainda Ainda Havia Sol (1984), Os Leões não Dormem Esta Noite (1989), As Vidas de Elisa Antunes (1997) ou Crónicas de Bons Costumes (2004).

Nascido em Lourenço Marques, atual Maputo, em 1931, Guilherme de Melo iniciou a sua carreira de jornalista em Moçambique, no Notícias de Lourenço Marques, aos 18 anos, de cuja secção juvenil era colaborador assíduo desde os 15. Foi o principal repórter de guerra naquele território e em 1961 publicou o primeiro livro, a antologia de contos A Estranha Aventura. Em 1964, saiu o romance de estreia, As Raízes do Ódio, logo apreendido em Moçambique mas não em Portugal.

Seis meses depois do 25 de Abril, Guilherme de Melo veio para Portugal com a família. Só voltaria a Moçambique em 1984, visita que daria origem ao livro Moçambique Dez Anos depois: Reportagem (1985). Aí, voltaria a encontrar-se com Samora Machel, então presidente daquela ex-colónia, e com o qual havia feito amizade em 1961, num hospital em que esteve internado após um grave acidente de automóvel, era aquele um anónimo ajudante de enfermeiro.

No dia um de janeiro de 1976, ingressou no DN, após ter trabalhado no gabinete de imprensa do IARN - Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais. "O Almeida Santos telefona-me e dá-me duas hipóteses de emprego: ou chefe de Redação da ANOP ou redator do Diário de Notícias. Escolhi ser redator do Diário de Notícias e ele ficou muito admirado por eu ter decidido recomeçar por baixo", recordou Guilherme de Melo numa entrevista de 1998 ao DN. Neste jornal, integrou o gabinete de editorialistas e foi grande repórter.

Desconhecem-se ainda pormenores sobre as cerimónias fúnebres.

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