O que está a escrever agora?Estou a escrever uma longa metragem sobre as novelas policiais de Fernando Pessoa. Espero que o filme vá a concurso. A obra policial de Pessoa é absolutamente fascinante. É interessantíssima a maneira como ele pensa. A personagem é o detective Quaresma, na linha dos grandes detectives raciocinadores. Portanto, é um homem a quem vêm contar os factos dos vários crimes, dos desaparecimentos e ele, apenas especulando e raciocinando, consegue chegar à solução. É uma personagem muito interessante e inovadora na literatura policial porque é mais do que um Sherlock Holmes. É, ao mesmo tempo, uma personagem tipicamente portuguesa. É xadrezista. É um homem do pensamento e uma personagem extremamente pedagógica porque apela à reflexão, ao pensamento, à lógica e não àquilo que nós hoje temos como dominante: o milagre, a indústria do irracional..Não é a sua primeira longa-metragem.Não. Já escrevi outras duas longas-metragens. Uma delas baseada numa história minha. Está escrito, faltam quarenta mil euros para acabar o filme. É uma co-produção que custou milhões e está parada porque não há dinheiro para o laboratório. .Quem é o realizador?João Nuno Pinto. É a sua primeira longa-metragem. É um homem da publicidade com talento, é determinadíssimo, muito inteligente e trabalhador. Sacrificou não só a sua fortuna pessoal como muito tempo e trabalho neste filme. Penso que seria escandaloso não acabar o filme. Fiz depois uma adaptação da novela O Barão, de Branquinho da Fonseca, e esse filme está a ser rodado pelo Edgar Pêra..E a longa-metragem sobre a obra policial de Fernando Pessoa ...A produção, em princípio, vai ser da Arts Film, se alguma vez se fizer. Por enquanto só ganhei o apoio à escrita e estou a escrevê-lo agora..A iniciativa foi da Luísa?A iniciativa foi do produtor Alexandre Oliveira. Foi ele que viu o potencial das histórias policiais de Fernando Pessoa. Eu escrevi um episódio-piloto para uma série de televisão. Enviou-se o episódio-piloto para a RTP. Não houve qualquer resposta, nem sequer se conseguiu marcar uma reunião. Portanto, achei que teria de tentar por outro lado e resolvi escrever a longa-metragem. .Há cerca de uma década que não editava um livro com um enredo do género do seu novo romance Ilusão (ou o Que Quiserem). Porquê tanto tempo?Quando acabei de escrever Educação para a Tristeza, que saiu em 1998, achei que não ia ter paciência, nem coragem, para escrever outro romance. Demoro tempo, faço muita investigação e é normalmente um processo longo..Porque faz toda essa investigação?Porque gosto. Normalmente acontece. Não sei porquê. Acontece que estou a escrever sem precisar de grande pesquisa e depois há um momento em que vou estudar os socialistas utópicos e a revolução de 1948, em França, por exemplo. Em Os Olhos Verdes [1994] há um filósofo chamado Berkeley [George Berkeley, filósofo irlandês dos séculos XVII e XVIII] que me interessou justamente naquele contexto do romance e da problemática que estava a tratar. São coisas que acontecem..No seu novo romance também acontece ...Há Eurípedes e Shakespeare..Sobretudo Shakespeare. Gosta da obra do dramaturgo inglês? Porquê escrever «apoiada» na obra dele?As regras da ficção são as regras da imaginação. A explicação óbvia é que Shakespeare é um grande dramaturgo, um mestre do fingimento e da literatura dramática. É a minha referência fundamental no teatro. Naturalmente, acabo por deslizar para Shakespeare..Este livro é todo composto por diálogos.Todo o livro é diálogos. No fundo, um dos princípios que quis seguir foi que ele fosse lido como uma peça de teatro. .Uma escrita para ser dita, mais oral...Oral, coloquial, às vezes parece coloquial e não é. E outras vezes não parece e é, mas, de qualquer maneira, o diálogo é uma forma presente neste romance. .Nos outros romances não usou diálogos.Não. Acho que o romance clássico dá ao diálogo um papel bastante limitado, sobretudo no romance novecentista, em que o narrador é omnisciente. É um narrador que conhece o íntimo de todas as personagens e faz comentários sobre elas. Escrever bastante diálogo foi uma forma de iludir essa estratégia muito clássica e fundadora do romance, que é o narrador ser omnisciente. Este narrador, que é contado na primeira pessoa, é tudo menos omnisciente. É completamente infiável, não sabe nada. Tem opiniões muito limitadas e subjectivas sobre a realidade. E tratar essa subjectividade interessava-me muito. Neste livro o narrador é o actor, uma das personagens principais..As duas personagens principais deste livro têm actividades semelhantes às da Luísa. Ele é actor de teatro e ela professora...Sim, mas não iria muito para biografias porque acho que são limitativas. O facto de eu ser professora e de escrever teatro são apenas algumas das circunstâncias, mas não fazem o romance, não o determinam..A história do livro...É a história de um actor que tem um grupo amador de teatro já com umas décadas de existência. O grupo não consegue chegar a um consenso sobre a peça que querem fazer e no fundo é a história deste actor que anda perdido na realidade. É uma realidade virtual, que lhe escapa. É uma figura de anti-herói. Busca, embora não deliberadamente, uma experiência verdadeira..Ela é professora. São marido e mulher.Eles são casados e vivem juntos há 12 anos. Estão a tentar sobreviver à relação, que está deprimida. Ela acaba por ter um search pedagógico, que a leva a sair de casa e ser mais professora, estar mais próxima dos alunos. É um livro sobre a mentira e sobre a falsificação da realidade. Toda a gente mente. Toda a gente está sempre a dizer coisas numa linguagem mágica em que se julga que por se dizer as coisas elas ficam resolvidas. Há de facto todo um investimento na linguagem como sistema mágico de transformação da realidade. É isso que satirizo no romance e que, profundamente, me diverte. .No título do livro Ilusão (ou Que Quiserem) também tem referências a Shakespeare.Sim, há uma comédia de Shakespeare chamada What You Will. Não sei se o livro entra na categoria de comédia, espero que sim e que as pessoas se divirtam a lê-lo, mas há na comédia uma dimensão comunicacional importante. É essa dimensão de empatia e de procura da identificação que tem que ver com o fazer um bocado a vontade ao outro. É difícil fazer comédia hostilizando o leitor ou o espectador. A comédia vive da ilusão da identidade, da ilusão da comunicação. O que é fundamental, hoje em dia, é essa fantasia, esse fantasma do público. Nós fazemos tudo para o público. O público é o fantasma residente da indústria..Como assim?Infelizmente, agora há essa noção de que há públicos e que esses públicos é que são a razão de ser do teatro. Penso que não é verdade. O teatro é texto. .Não é ao gosto do público ...O gosto do público é eminentemente educável. Não existe como um dado da natureza. É educável. As pessoas podem ter alguma sensibilidade estética. Essa sensibilidade estética é educada. Senão estávamos ainda a fazer pinturas rupestres nas cavernas..Levou três anos a escrever este romance. Teve que ver com a investigação que gosta de fazer quando escreve um livro?Não. Teve que ver com o facto de ter sido um romance muito difícil de escrever.Porquê?Não sei. Porque foi difícil, demorou tempo..Pelo enredo em si...?Sim, a história não aparecia. Tudo isso foi complicado..A Luísa é professora, escreve teatro, crónicas...Já não escrevo crónicas, mas se quiserem posso escrever [risos]. Se forem bem pagas, faço, sim senhor. Fiz crónicas durante bastantes anos para O Independente, Pública, etc., mas fui despedida de todo o lado. E, curiosamente, eu aceitei..A docência é uma actividade que exerce em oficinas de escrita, nos ensinos básico e secundário, a percorrer o país.Sim, através de um projecto que se chama Artes na Escola, que existe na DGIDC, Direcção-Geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular, e com este programa faço, por todo o país, oficinas de escrita e de leitura..Foi uma opção sua?Não. É o meu trabalho. Sou professora efectiva do ensino secundário e troco o serviço lectivo por este trabalho. O projecto existe desde 1995 ou 1996. Muitos escritores estiveram neste projecto, que é muito mal conhecido: Lídia Jorge, Maria Velho da Costa, João de Melo, Gastão Cruz, etc. Era uma forma de os professores/escritores rentabilizaram a sua costela literária a andar pela escolas a fazer conferências, oficinas de escrita, ou mesmo usando o pretexto da sua obra para falar de literatura. Entrei neste projecto no ano 2000, entretanto as pessoas já saíram todas. O projecto tem estado a ser mudado..O que mais a fascina neste projecto? O contacto com os alunos?Sim, acho-lhes imensa graça, principalmente os do ensino básico. Os mais pequenos têm muito mais imaginação e curiosidade intelectual. E isso é uma coisa que me dá prazer..É quase o que falava há pouco, educar o gosto.Exactamente. Educar a sensibilidade e o gosto..Antes de estar nesse projecto, leccionava onde?Estive muitos anos sem dar aulas. Comecei na Amadora. Estive em Almada, em Queluz..Toda a polémica que envolve os professores consome-a?Não sei os pormenores. Não me atinge..Nasceu em Lisboa, por cá ficou, mas esteve em África.Nasci em Lisboa. Aos 9 anos fui para Angola, os meus pais e os meus irmãos estavam na guerra. .Esteve lá quanto tempo?Um ano, fiz lá a quarta classe..E ficou «agarrada» a África?Não. Detesto África, mas foi uma experiência forte que não se esquece. Depois vim para um colégio interno, onde estive até aos 15 anos. .Porque é que decidiu ser professora?Ser professora é uma coisa que não se decide. Aconteceu. O meu objectivo era ser investigadora em filosofia e tirei o curso na área. Não havia sequer carreira de investigadora em filosofia, era uma coisa que não se fazia na altura. Portanto, era evidente que aos 20 anos estava a dar aulas, na Amadora, a alunos pouco mais novos do que eu. Hoje em dia já se consegue ter uma carreira de investigador, mas em 1975, quando comecei, não havia outra hipótese de emprego na área da filosofia senão a actividade lectiva..Os anos foram passando e acabou por não entrar na investigação.Fiz dez anos de ensino secundário e depois estive cerca de dez anos sem dar aulas, e voltei justamente neste projecto Artes na Escola..Qual é maior riqueza em dar aulas?É o contacto com os alunos. Os miúdos são normalmente interessantes. Para mim, as crianças são pessoas interessantes..Porque ainda estão, digamos, «em bruto»?Não sei porquê. Por exemplo, são muito mais interessantes do que os adolescentes. As crianças ainda não estão massificadas, ainda não têm a imaginação formatada. Para mim é muito deprimente ouvir contar a mesma historia uma vez e outra e outra. Os adolescentes não só não têm imaginação como não sabem o que é ter imaginação. Não há sequer o sentimento de uma falta. O que é importante é o formato. É ser igual a toda a gente, é pertencer a um grupo, a um clã. E as crianças ainda têm criatividade..É fácil combater com estórias literárias as novas tecnologias e o facto de as crianças verem mais televisão e mais cedo?Sim, é. Não é nada difícil pôr uma criança a ler ou a discutir o livro de uma maneira interessante e original. Há, sobretudo, entusiasmo nas crianças. É o que me dá alegria de viver. A curiosidade e aquela efervescência.....Os portugueses são muitas vezes acusados de falta de hábitos de leitura. Como é que olha para isso?É um problema complexo. Nós passámos do analfabetismo para uma fase de iliteracia. Tínhamos uma população completamente analfabeta, ninguém lia. Lembro-me de que em 1975 a média de leituras era de um livro por pessoa, por ano, e isso acho que mudou. As pessoas lêem muito mais, mas maus livros, que não interessa ler. Isto é politicamente incorrecto dizer. Tenho tido muitas discussões com professores e responsáveis que consideram que o que é importante é ler o que quer que seja. Na minha opinião, isso é uma perversão da leitura porque, provavelmente, as pessoas pensam que estão a ler e não estão. Estão a ver televisão. Quando uma pessoa está a ler O Código Da Vinci, está de facto a ver televisão. A leitura implica alguma actividade, algum esforço. Isto é muito impopular dizer, mas é a minha opinião. Penso que o leitor faz-se primeiro com alguma indiscriminação. Quando era miúda também lia tudo o que me passava à frente e depois fui percebendo o que é que era bom. Agora, e isto é provavelmente uma grande arrogância, sou completamente incapaz de ler um livro mau..O que é um livro bom para si?Almas Mortas [1842], de [Nikolai] Gogol; A Cidade e as Serras [1901], de Eça de Queirós, por exemplo. É tão simples perceber o que é um livro bom. É um livro extremamente bem escrito, importante, influente, que fez uma época, marcou pessoas de uma forma esteticamente fecunda. Não é um livro que é feito industrialmente, segundo um formato, igual aos outros todos..Só para vender?Penso que a questão do vender... já a polémica do [José] Saramago achei-a extraordinária. O homem não pode abrir a boca, cai-lhe tudo em cima. Mas a questão das vendas não é relevante para um escritor. As pessoas têm de meter isso na cabeça. Não é relevante. Quando escrevo um livro, estou a escrever um livro. É uma fantasia porque não sei para quem é que estou a escrever, portanto não sei se vai vender. Dan Brown tem um formato. Faz os livros todos iguais. .Dan Brown é dos autores que independentemente do que escreva já sabe que vai vender.Mas é muito mal escrito, não é? É muito mal feito. É preferível ver o filme porque é muito mais rápido, vê-se num instante, é igualmente horroroso e escusa-se de estar a perder tempo. Ainda não está estudado, é uma coisa intuitiva e especulativa, mas parece-me que as pessoas que lêem, que são mais as mulheres, lêem como um complemento da telenovela. A leitura é um complemento da telenovela. Ou seja, enquanto não chegam a casa para ver a telenovela vão no comboio a ler mais um livro de amor de Nicholas Spark, assim do género. Pergunto muitas vezes o que é que eles lêem. As raparigas é Nicholas Spark e os rapazes é os tais Dan Brown, mas eles lêem muito menos do que elas..Vive fora de Lisboa, num sítio quase isolado. É como se sente bem, isolada?Sim, foi uma opção. Seria incapaz de viver numa cidade..Porquê? Pelo barulho?Sim, pela confusão, poluição, muita gente..Escreve em casa?Sim. .Que ambiente procura para escrever?Silêncio absoluto. .Nem ouve música enquanto escreve?Não. Barulho já eu tenho dentro da cabeça. .Sente-se bem a viver em Portugal?Muito bem. Adoro viver aqui e, sempre que vou ao estrangeiro, no regresso agradeço a Deus ter-me feito nascer aqui. É um país que tem tudo o que eu acho importante: paz, silêncio, mar, muitas praias maravilhosas, um clima extraordinário, com pessoas que não são ainda impelidas pelo trabalho, pelo ganhar dinheiro. Estamos a caminhar para lá, mas ainda não estamos completamente civilizados. .Apesar de muitas vezes os portugueses serem conotados com a tristeza, a melancolia ...Não acho, pelo contrário. Hoje em dia, não sei se é dos antidepressivos ou dos brasileiros, estamos muito mais alegres. Acho que deixou de haver uma caução social sobre a tristeza. Nós já não temos paciência para as pessoas que se queixam permanentemente, que estão muito tristes. Isso é curioso porque criou uma culpabilização em relação à tristeza. As pessoas já não conseguem estar tristes porque toda a gente está sempre com um pensamento muito positivo e isso obriga-as a ser positivas. Há uma indústria do optimismo e do pensamento positivo que é ela própria muito deprimente. .Identifica-se com a política portuguesa ou não lhe liga?Ligo muito pouco. Sou muito egoísta nesse ponto. Ligo às pessoas que estão à minha volta, ao meu bairro, se for preciso alguma coisa, podem contar comigo. Em relação às coisas gerais, sou muito egoísta. Tenho pouco tempo. Vivo muito envolvida com aquilo que estou a fazer, quer dizer, só consigo trabalhar e escrever quando estou completamente obcecada e envolvida. Não consigo estar a fazer uma manifestação e ao mesmo tempo a escrever. O meu trabalho não me isola, mas é aquilo que é importante para mim..Não costuma ver televisão?Vejo aquilo que me interessa para escrever, por exemplo longas-metragens. Vejo muito pouca televisão e cada vez menos. Vejo muito mais filmes no computador. Não tenho espaço mental para a política do dia-a-dia, o que este e aquele diz ... porque acho que, no fundo, os media vivem disso, do alimentar dos pequenos feudos. Não sei sequer os nomes das pessoas. Não consigo fixá-las. Não me interessa. Mas é claro que sei quem é o primeiro-ministro [risos]..O que a move diariamente?O entusiasmo..Pelo trabalho?Pelo trabalho, pelas pessoas, por ir ver gente, conversar, viver..BILuísa Costa Gomes nasceu em Lisboa em 1954. É licenciada em Filosofia, romancista, contista, dramaturga, guionista, cronista, tradutora e professora nos ensinos básico e secundário, no projecto Artes da Escola, da DGIDC, Direcção-Geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular. Trabalha, sobretudo, com crianças e adolescentes em oficinas de escrita e leitura. Editou o primeiro livro (contos) em 1982 e desde então publicou vinte obras, entre o romance, os contos e o teatro. Actualmente está a escrever uma longa-metragem sobre a obra policial de Fernando Pessoa. Entretanto, chegou às livrarias o seu novo romance, Ilusão (ou o Que Quiserem), pela Dom Quixote. É uma história, com referências a Shakespeare e a Eurípedes, sobre a mentira e a falsificação da realidade na vida de um casal.