Somos nós que temos de nos adaptar a uma casa ou é a casa que se adapta a nós?A casa é que se adapta a nós. Mais: quando passamos por uma fase em que não estamos em sintonia com a energia do universo e vamos para uma casa ou para um local de trabalho que não tenha um bom feng shui, vamos sofrer muito mais. O feng shui é, sobretudo, uma ferramenta para harmonizar os ambientes e nos proteger das más energias que alguns espaços possam ter. .Deve ser impossível fazer uma entrevista sobre feng shui evitando essa palavra que gera logo anticorpos em muitas pessoas: as «energias».Para mim, é claro que existem correntes de energia no universo. Mas podemos usar um sinónimo de energia no mundo da decoração, que é «ambiente». Passar a dizer «o ambiente está agradável, o ambiente não está agradável»… Quando eu digo «entrei nesta sala e tinha um bom ambiente», o que é que estou a dizer, no fundo? Que tinha uma boa energia. Aquilo de que estamos a falar aqui é de um campus de energia associada à matéria que nos influencia. A física quântica já explica isso..Vamos então assumir «as energias». De que maneira estão implicadas no feng shui?O feng shui é um instrumento que nos ajuda a atingir equilíbrio e bem-estar, ultrapassando as contrariedades e dificuldades. Não nos vai tornar ricos, não nos vai fazer ter coisas materiais que antes não tínhamos… É algo que nos pode trazer maior qualidade de vida e também proteger dos avanços da tecnologia. Usamos demasiados computadores, microondas, tecidos sintéticos… O feng shui diminui o impacte dessas influências nos lugares que habitamos. Eu comecei a estudar estas questões porque, ao princípio, organizava espaços de escritórios onde as pessoas passavam oito ou dez horas por dia. Senti necessidade de saber mais para perceber como é que aquele espaço podia ser mais benéfico para as pessoas. .A arquitectura também estuda isso…Claro, e o feng shui reúne o contributo de várias disciplinas – a arquitectura, as engenharias, a botânica, a psicologia… –, tendo a virtude de conseguir apresentar um sistema integrado de conhecimentos. E há outra coisa importante: por um lado, há várias escolas de feng shui; por outro, cada consultor fará uma análise diferente, consoante a sua formação de base. .Qual é a sua abordagem?Eu faço feng shui pela área da arquitectura e da decoração de interiores, é a minha ferramenta de trabalho. Outro colega poderá propor um tipo de intervenção completamente diferente. .Como é que usa, na prática, essa ferramenta de trabalho?No feng shui utilizamos os mesmos princípios que a medicina chinesa, a filosofia e a astrologia orientais. Basicamente, pressupomos a existência de correntes de energia no universo e a existência de cinco energias, associadas a cinco elementos: água, madeira (árvore), terra (solo), fogo e metal. Estas energias trabalham num ciclo de apoio ou de controlo; ou seja, alimentam-se umas às outras ou então são destrutivas e manipulam-se mutuamente. Portanto, o segredo do feng shui é relativamente simples: significa termos esse ciclo de apoio em harmonia connosco, no espaço onde vivemos. Consoante a zona da casa e a orientação que esta tem, eu posso criar um ambiente mais harmonioso. Posso usar elementos decorativos – cores, materiais e formas – que vão estar em harmonia com a energia daquela casa. .Mas numa casa podem viver pessoas muito diferentes. O tipo de espaço de que um adolescente gosta não é igual ao que a mãe gosta. Não deve ser muito fácil agradar a todos.Exactamente, e essa parte não é fácil. No quarto das crianças, eu preocupo-me com o que elas gostam, aquele é o mundo deles… Quando estamos a falar de um casal, o tipo de energia pode ser favorável para um e desfavorável para outro. Tento analisar e perceber em que ciclo de vida estão as pessoas. O que desempata é o que não está assim tão bem. A nossa condição física e anímica também é potencializada pela energia que temos em casa. Se alguém está sob influências menos favoráveis – se está doente, desempregado ou fragilizado de alguma forma – eu privilegio esse elemento da família. Depois, são pequenos acertos que as próprias pessoas conseguem fazer sozinhas. .Outra questão: como conciliar o nosso gosto contemporâneo com o feng shui? Porque nem toda a gente quer esses elementos tradicionais como as bolas de vidro, os espelhos, as plantas… Já para não falar de espadas e de fontes de água a jorrar dentro de casa.É preciso ver que o feng shui é um sistema inventado na China há seis mil anos, com uma série de conceitos que nós temos de saber transpor e adaptar para a nossa realidade, usando os elementos decorativos de que já falei: cores, formas e materiais. Eu não utilizo os elementos simbólicos orientais… No caso da fonte, considero que já se enquadra dentro do nosso padrão ocidental..Não conheço ninguém que tenha uma fonte a jorrar dentro de casa.Mas conhece muita gente que tem aquários, o que já é socialmente aceite. E resolve o problema, porque fonte e aquário têm o mesmo tipo de energia..A maior parte de nós vive em apartamentos, com gente por cima, gente por baixo, gente ao lado… Idealmente, todos deveríamos viver numa casa com jardim. Idealmente. E já agora, com água a correr por perto, de preferência a este ou a sudeste. .A pergunta é: como podemos trazer o feng shui para uma vida tendencialmente urbana?É muito fácil. Dentro da nossa casa há uma regra fundamental – e deveríamos ter começado por aí. Sem organização e limpeza não há feng shui! Já conheci pessoas que têm a vida feita num caos, olha-se para a casa delas e percebe-se que está tudo desarrumado ou sujo… Depois vamos ao sector dois, do sudoeste, que rege a harmonia familiar, e vemos que têm coisas atafulhadas, empilhadas, caixotes em que nunca mexem….OK, mas há pessoas que dizem imediatamente: «Ah, mas eu entendo-me no meio da minha desorganização». Que lhes responde?Então, mas se se está a queixar é porque a sua vida não está boa. Quer mudar, certo? O feng shui ajuda-nos nos nossos processos de mudança interiores, que são sempre muito complicados. Também criamos bloqueios a nós próprios. Dizemos que não vamos mexer ali naqueles caixotes, mas no fundo não queremos é mexer em certos aspectos da nossa vida. .A verdade é que nós tendemos para a acumulação de coisas… também porque há agora demasiadas coisas que se dispõem a ser acumuladas.Mas nós dantes víamos as nossas mães e as nossas avós a arejarem os armários na Primavera. O que é que elas estavam a fazer? Estavam a tirar energia estagnada. Depois voltavam a arrumar tudo. Não vamos primeiro à questão de deitar fora. Vamos tirar, limpar, reorganizar e voltar a pôr. Só isso já ajuda a mudar a energia. .E as plantas, são essenciais? Há quem não tenha paciência para tratar de plantas…Não são essenciais, mas ajudam imenso. Se escolhermos plantas purificadoras do ar, plantas de um determinado grupo – há estudos feitos pela NASA –, isso melhora imediatamente o ambiente. Por exemplo, uma pessoa que durma mal, porque o quarto onde está tem uma energia muito rápida, se lá estiver uma planta da borracha ajuda a estabilizar essa energia. .E para quem tem gatos? Gatos com plantas não ligam…Pois, não se pode ter tudo. Mas os gatos são animais que já absorvem a energia estagnada e não deixam que esta incomode as pessoas. Aliás, eles procuram esses sítios. Já o cão funciona ao contrário, o próprio movimento dele obriga a que a energia da casa e das pessoas se mova. Os animais domésticos, com algumas ressalvas, são elementos de protecção natural. O aquário também pode funcionar como um elemento purificador das energias..O feng shui pode aplicar-se a qualquer espaço, desde casas a escritórios, passando por igrejas ou discotecas? Pode. Centros comerciais, por exemplo. Eu já apliquei em casas, em muitos escritórios, em farmácias, em clínicas… e até numa discoteca no Norte..Que tipo de feng shui se aplica a uma discoteca?Feng shui para os negócios, sobretudo. Quando comecei a análise, a primeira coisa que perguntei, foi: «O que aconteceu para terem que fechar?» Então descobri que naquele espaço havia uma falha na energia sudoeste, que, no caso do feng shui para os negócios, rege a relação com os clientes. .Uma falha em que sentido?No sentido da configuração de uma parede. Vejamos: numa planta de arquitectura como esta [abre um ficheiro no computador portátil], eu não tenho um rectângulo cem por cento definido. O que significa que nesta zona aqui a tracejado há uma falha, uma ausência, que impede a forma de um rectângulo completo. Nesta casa que lhe estou a mostrar, significa a falta de uma energia associada ao homem. São as chamadas «casas da viúva», que normalmente pertencem a pessoas solteiras ou que vivem sozinhas. Isto quer dizer que vamos precisar sempre de compensar aqui com um bom feng shui. Se fosse um espaço de trabalho, esta configuração também não seria boa. Nunca aconselharia os meus clientes a alugá-lo ou a comprá-lo, porque iriam ter dificuldades nos negócios. .Voltando à discoteca. Como é que corrigiu essa falha? No sector ao lado dessa falha colocámos energia de sol (solo), ou seja, elementos horizontais, cores dentro do castanho, do amarelo, do bege… Também aplicámos um papel de parede com xadrez… .Sem querer entrar em pormenores, a discoteca melhorou nos negócios?Melhorou. .Disse que o feng shui pode ser aplicado a qualquer espaço, mas dá-me a sensação de que nas casas particulares é mais difícil. Há muitos mais elementos a considerar. Não, é ao contrário. É mais fácil mexer em pequenos elementos de uma casa, embora seja verdade que dificilmente conseguimos mexer em tudo ao mesmo tempo. Aliás, não devemos. Devemos ir por partes: qual é a área da nossa vida que queremos alterar primeiro? O que é que não estamos a conseguir? Em que campo andamos desmotivados? Em que é que nos falta paixão? Se falta paixão, preciso de ir a sul. Para concretizar, vou mexer na área da casa que está a oeste. Então, sugiro que dê uma volta à parte da casa que está nesse sector. Isso já vai mexer com a energia. Aconselho sempre a que não se altere tudo ao mesmo tempo, porque podemos provocar um estado ainda mais caótico. Sugiro também que se apontem as alterações que se vão fazendo, porque se alguma coisa não correr bem, já sabemos como voltar atrás..Quando entra num espaço, o que identifica imediatamente como mau feng shui?Nas minhas aulas, faço um exercício com os alunos que consiste em levá-los, de olhos vendados, a vários sítios: debaixo de vigas, nos cantos, frente às janelas… A energia do espaço comunica connosco, mas andamos a um ritmo tal que nem a ouvimos. A minha primeira preocupação, quando entro num espaço, é disponibilizar-me para que este me diga qualquer coisa. Só depois começo a estruturar o projecto de decoração. Primeiro, tenho de perceber como é que as pessoas põem as coisas, como põem os livros, os objectos, como se organizam… Tenho colegas que chegam ao cúmulo de abrir o frigorífico para ver como está arrumado! .Isso é mesmo necessário?Na minha abordagem, não é. A forma da casa, a configuração da planta é talvez o elemento mais importante. A casa de banho e a cozinha são as partes que valorizo mais para iniciar o estudo: a primeira representa o elemento água e a segunda os elementos água e fogo. Para mim, são os dois elementos que podem fazer mais «estragos» e com os quais tenho muito cuidado. Inundações e roturas na canalização – até mesmo só uma torneira a pingar –, isso nunca é bom. Está ligado a questões do passado e a perdas financeiras. Ou melhor, poderá estar, porque isto não é uma verdade absoluta, na nossa vida não acontece de tudo! Depois, vejo qual é a energia que está no sector nordeste e que parte da casa se encontra ali. Essa é uma energia muito rápida, muito activa, é a energia da automotivação, do nosso sentido de direcção; mas também pode ser muito brusca e precipitar as mudanças. Independentemente de saber quem é a pessoa que vive naquela casa, já sei que devo protegê-la dessas instabilidades inerentes ao sector do Nordeste. .Mas há casas onde, por muitas voltas que a gente dê na decoração, nunca se sente bem. Não há?Pode acontecer, sim. Tem que ver com a sua configuração em termos cósmicos. Se a casa não é de agora, se já é antiga, isso quer dizer que tem vindo a receber energias ao longo das eras. E se a casa estiver sob a influência de uma era não benéfica, de facto, podemos mudar muito a decoração e tentar minimizar os danos, mas nunca vamos conseguir chegar a uma situação ideal. Uma grande preocupação que tenho com os meus clientes, quando vão comprar ou alugar uma casa ou um escritório, é saber porque é que as pessoas que estão lá querem sair..Ah, mas isso é que é difícil saber!Às vezes não é. Com um bocadinho de conversa….Há um certo tipo de casa que não sei se é muito português, mas vê-se bastante em apartamentos da década de 1930 ou 1940. É aquele modelo que tem um corredor estreito com muitas portas que dão para os quartos. Confesso que me arrepiam. Lembram aquela cena do Shining, do Stanley Kubrick, quando o miúdo vai a correr de triciclo no corredor do hotel assombrado….O feng shui explica isso muito bem. Imaginando uma casa, partimos do princípio de que temos um círculo onde as energias circulam à volta do centro, que é regido pelo Sol. Quando temos um corredor muito comprido e estreito, o que acontece? Aquela energia que precisamos de ter no centro, para fazer a ponte e a comunicação entre a casa e as pessoas, essa energia é altamente desestabilizada pela nossa passagem constante pelo corredor. Provavelmente, será uma casa desagregadora do núcleo familiar. Como se pode corrigir isso? Pode pôr-se espelhos e plantas, ou um quadro com um vidro, um mobile, um tapete no chão dentro da cor vermelha, para que a energia não corra tão rápida. Não vai resolver o problema, mas minimiza-o. Mas atenção, isso de que está a falar pode afectá-la a si e não a outra pessoa. Uma casa que para si é «má», para mim poderá ser «boa»..Outro trauma que muita gente tem é com a vizinhança. Esse é um elemento do feng shui muito difícil de controlar, não é?Sim, é relativamente difícil. Temos sempre que analisar a casa e a sua envolvência – ou seja, o bloco onde está – e perceber se potencialmente poderemos ter problemas futuros. Seguramente, se olharmos para a planta podemos encontrar qualquer elemento significativo. A casa que nós escolhemos diz tudo de nós. Quando analisamos a casa e a pessoa conseguimos perceber porque é que ela terá ido para ali, se gosta da casa ou se não gosta, se é uma pessoa muito virada para o trabalho ou para a família… enfim, muita coisa..Consegue criar a decoração perfeita para a casa perfeita, com base no feng shui?Isso é o que toda a gente pergunta, mas não, não é possível. Se eu tiver uma casa pequena, com uma cozinha e uma casa de banho, uma sala e dois quartos, consigo aproximar-me de um modelo ideal. Por exemplo, tenho um cliente com uma casa em Lisboa em que eu entro por uma porta a sul, o que é fantástico, porque é uma porta de festa, de boa vida, sempre muito activa. Depois tenho uma cozinha a sudeste, que é ideal para ter a cozinha, onde se alimenta a nossa família. Depois, logo a seguir, tenho a casa de banho, que ainda está a este, o que também é uma posição favorável, já que ambas estão sob a energia da árvore. Ao fundo tenho o escritório, no sector nordeste, que também é bom. Depois, o senhor dorme a noroeste, que é a energia do homem da casa, do homem da família – também é bom para ele. Por fim, temos a sala na energia entre oeste e sudoeste, indicada para o romance, o lazer e a harmonia familiar. E tem roupeiros a norte, que é o sítio ideal para metermos os arquivos, arrumos e tudo o mais… Essa poderei dizer que é quase a casa ideal. Mas, repito, é uma casa pequena e relativamente simples na sua configuração..Para concluir, qual é o seu objectivo neste interesse pelo feng shui?É vir a compreender quão importante é a decoração de interiores e como podemos pô-la a favor da vida das pessoas. Cada vez mais, a nossa casa é a nossa concha. Estou a desenvolver um estudo, que está ainda muito incipiente, ligado à psicologia ambiental e à sociologia. Acho que é fundamental fazer esse link e acredito que por aí terei as respostas..BIAlexandra Morgado faz parte de uma equipa pluridisciplinar vocacionada para a integração do feng shui em espaços de trabalho, negócios e habitação (www.fengshuiintegrado.com). Após várias formações nas áreas de arquitectura, artes e decoração, licenciou-se em Design de Interiores pela Escola Superior de Artes Decorativas da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, em Lisboa, onde lecciona actualmente cursos breves de Feng Shui Integrado na Decoração de Interiores (o próximo decorre em Outubro). Em 2008, foi para Singapura e iniciou os estudos com o mestre Raymond Lo, especialista em Feng Shui e os Quatro Pilares do Destino. «Aqui no Ocidente, senti que não conseguia encontrar formação que me permitisse subir mais um patamar, nem ter o choque cultural que lá encontrei», afirma.