João A. «J.J.» Aguiar Jr. morreu na torre sul no dia 11 de Setembro de 2001, com 30 anos. A família soube pelos colegas de trabalho que J.J. passou os seus últimos minutos de vida, depois de o primeiro avião ter batido na torre norte, incitando os outros a sair do escritório e verificando amigos em vários andares. Era característico dele nem sequer pensar em abandonar o barco antes de o último ser salvo (Nota: J.J. e algumas das suas características serviram de base à personagem de Mark, no livro A Manhã do Mundo, embora tudo o resto seja ficcionado). Depois foi apanhado pelo segundo avião, o que bateu na sua torre, a sul, porque estava, nessa altura, precisamente no local do embate..Ele era natural de Monmouth County, New Jersey. Nascido em Red Bank, andou na escola de Santa Cruz, Little Silver, e ainda na Escola de St. Julian, em Carcavelos, Portugal, e Rumson-Fair Haven High. Frequentou a Adelphi University de Nova Iorque nos dois primeiros anos de faculdade, tendo sido transferido para a George Washington University em Washington DC, onde se graduou com um BBA em Finanças..Foi contratado desde 1999 pela Keefe, Bruyette and Woods, uma empresa de gestão de activos, onde liderou o departamento de trading. Anteriormente, trabalhara no Banco Fuji, Ltd., em Nova Iorque e no Iyo Bank, Ltd., também em Nova Iorque..Era um ávido jogador de ténis, e gostava de vários desportos aquáticos, bem como de passeios a cavalo..Deixou pais, João e Diane Aguiar, de Sintra, Portugal; duas irmãs, Monique Aguiar de Chico, Califórnia, e Taciana Aguiar e Sebastian Brunemeier, sobrinho, em São Francisco, além de restante família. Namorava com Lisa Faust Singer, com quem planeava passar a vida..Taciana e Sebastian Aguiar são mãe e filho e vivem na Califórnia, onde ela trabalha como professora e escritora, e ele frequenta a Universidade de Los Angeles, estudando Biologia Humana e Ciência Política. Na manhã do dia 9.11.2001 estavam perto de São Francisco, era de manhã e preparavam-se para ir respectivamente para o trabalho e para a escola. Um primo de Taciana ligou-lhe para dizer que um grande avião tinha acabado de se despenhar contra o World Trade Center. Assistiram depois à cobertura televisiva da catástrofe, sabendo que o irmão/tio J.J. Aguiar estava no prédio, e sabendo também que era muito difícil que sobrevivesse. Taciana teve a sensação imediata de que ele já tinha desaparecido..Pedro Guilherme-Moreira, advogado há cerca de 15 anos, escreve desde muito novo, e publicou agora o seu primeiro livro, a relatar o 11 de Setembro do ponto de vistas de alguns dos que saltaram, ficcionando as suas vidas e contando as suas mortes. Todo o livro é uma longa reflexão sobre a natureza humana..1. HERÓIS.«Aos heróis, que a fala de visão de outros confundiu.» (dedicatória do livro A Manhã do Mundo).Pedro Guilherme-Moreira:.Tive uma conversa inicial com o João Aguiar, pai do J.J., falecido na Torre Sul, quando me preparava para o lançamento do livro da Aida Gomes, Os Pretos de Pousaflores, nas Correntes d"Escritas 2011, na Póvoa de Varzim. Já não fui a lançamento nenhum. Ficámos ambos a travar conhecimento de uma forma muito intensa, ao telemóvel, durante mais de uma hora. Fiquei com a noção clara de que nem sempre temos o direito de perguntar o que quer que seja sobre uma dor tamanha. Mesmo que o façamos para entender a nossa - porque, verdadeiramente, foi toda a civilização ocidental que sofreu, e cada pessoa que cresceu nela. Esta é a particularidade do livro: a forma como todos nós nos sentimos violentados. O que mais me marcou nessa conversa, e que mencionei numa breve entrevista à Antena 1, foi a forma como o João recusava o heroísmo daquelas pessoas, em particular do próprio filho. Eu tenho a perspectiva de que o mero facto de terem sido protagonistas de um momento terrível da história faz delas heróis, porque ascendem à eternidade como símbolos, principalmente porque poucos se acobardaram naquele momento. Aliás, todo o livro segue a ideia de que a nossa natureza é capaz do pior e do melhor, nas mesmas circunstâncias. Sei que a Taciana concorda comigo sobre o heroísmo, e gostava que ela me contasse o que se sabe do herói J.J. nesse dia..Taciana, 46 anos:.É verdade, o J.J. actuou como um herói. Num curto lapso de tempo, intuiu que todos estavam em grande perigo, e pediu aos colegas de trabalho para saírem do escritório. Sem essa atitude clarividente do J.J., podiam todos ter morrido com ele. Assim, tiveram tempo para deixar o edifício e o J.J. morreu enquanto esperava o elevador seguinte. No fim de contas, o J.J. foi menos herói e mais mártir por razões que devo resignar-me a dizer que nunca pude conhecer plenamente. Ele foi apenas uma vítima apanhada no fogo cruzado internacional, na batalha do controlo do petróleo e da energia num cenário mundial, da qual só podemos especular quais os verdadeiros players. Desta forma, todos nós somos vítimas. E alguns de nós perceberam que essa violação do 11 de Setembro é apenas o exemplo mais óbvio e público de que os nossos direitos humanos continuam a ser pisados, e temo que seja só o início..Sebastian, 19 anos:.Sim, definitivamente. Pessoalmente, o J.J. desafiou instruções para ficar calmamente no escritório, e em vez disso foi responsável por salvar as vidas dos seus colegas. Politicamente, acho que o meu tio era tão herói como os vietnamitas, iraquianos, afegãos, palestinianos, tibetanos, americanos nativos, e todos aqueles que ao longo da história foram mortos por motivos políticos..2. NOVA IORQUE.«(...) Esta é a cidade sagrada de Nova Iorque. Sagrada pela vida dos que nela habitam e dos que nela passam. Sagrada por todos os credos e convicções.(...)» (p. 13).Pedro Guilherme-Moreira:.Nova Iorque é hoje, para mim, uma espécie de mítico jardim suspenso da Babilónia. Tem essa parte de símbolo irreal. Ao escrever esta frase, quis deixar claro que houve um equívoco na tese dos terroristas. Eles não atacaram nenhum berço da civilização ocidental, mas um berço global. Não era a globalização que estava em causa, porque essa também lhes interessa a eles. Era um símbolo ocidental: será Nova Iorque apenas um símbolo ocidental, ou também é um cidade encantada para a cultura não ocidental?.Taciana:.Sim, Nova Iorque representa, na verdade, o auge do que a civilização ocidental pode produzir: comércio, arquitetura, cultura (assim como Londres, Paris, Bruxelas, Genebra). Mas estes lugares têm também uma identidade mais sinistra: são os assentos do poder do mundo, o «ventre da besta», e, como o motor de um automóvel, que impulsiona tudo o resto, também esta é a parte mais suja. Para mim, Nova Iorque é hoje a materialização da frase bíblica «o amor ao dinheiro (e ao poder e ao prestígio e ao status) é a raiz de todo mal». O meu irmão foi morto porque passou a sentar-se todos os dias por oito horas a baralhar dinheiro na intersecção das linhas que urdem esta grelha de poder..Sebastian:.Nova Iorque é o epicentro das finanças globais e o World Trade Center (à letra, «centro de negócios do mundo») foi destruído. Quem fez dos edifícios alvo, juntamente com o Pentágono, queria atacar o coração do império americano. O World Trade Center representava a arrogância do sector financeiro dos EUA, que viria a desabar sete anos mais tarde. Que o 11 de Setembro foi um inside job é dolorosamente óbvio. Saddam Hussein não tinha qualquer ligação com o que aconteceu, os sequestradores eram sauditas e, se ele tinha ou não «armas de destruição em massa», era irrelevante. Saddam Hussein estava a começar a aceitar euros como pagamento pelo petróleo, pouco antes de os EUA invadirem o Iraque, e tornara-se uma ameaça real nesse sentido. No entanto, o facto de os EUA invadirem «preventivamente» outro país estabeleceu um péssimo precedente. Mais recentemente, Muammar al-Kadahfi começou a abordar a questão da negociação do petróleo em moeda diferente dos «petrodólares» americanos: o «Dinar Gold». Qualquer um que queira compreender a verdade sobre o 11 de Setembro deve ver os documentários Loose Change e Zeitgeist, por exemplo, na internet..3. JUMPERS.«(...) Chego a sorrir de pena, por inadequado que pareça, quando vejo a fúria mediática legendar a nossa atitude. Nós, os únicos entre os condenados que tivemos domínio sobre a forma e o momento da morte. Precisamente aquilo que pediam aos judeus há mais de sessenta anos: resistam, vão ao encontro de uma bala, não deixem que brinquem com a vossa dignidade, que abalem a vossa integridade. (...)» (p. 15).Pedro Guilherme-Moreira:.Este é o «verso» da primeira questão. A questão específica dos jumpers e da forma como os cristãos tiveram dificuldade em abordar a questão do suicídio. Aliás, escrevi o livro por causa desta questão: eu chamo-lhe coragem, capacidade de decisão. Mas gostava de vos ouvir, principalmente sobre a forma como a imprensa deixou cair estas histórias, deixou de as contar, há até quem pense que se autocensurou, a partir do terceiro ou quarto dia. As histórias desapareceram dos jornais para voltar apenas alguns anos mais tarde, à medida que os amigos iam recordando os que morreram..Taciana: .Bem, a América não é um lugar onde a verdade seja dita às pessoas. Eu não estava ciente de que as histórias (ou o número) daqueles que saltaram tivessem sido censurados. Os europeus têm mais informações sobre o que se passa nos EUA do que os próprios americanos. É claro que vi o noticiário, nesses dias a seguir ao 11 de Setembro, em estado de choque, e tenho apenas uma imagem vaga dos jumpers, que vi na televisão ou numa fotografia dos jornais... penso que duas amigas a darem as mãos enquanto saltavam. (Nota: no livro A Manhã do Mundo são Alice e Angela, p. 101.) Imaginei que eram colegas de trabalho de um dos escritórios dos pisos superiores, da Cantor Fitzgerald, talvez, onde normalmente reuniam para discutir números e lucros, e agora se uniam para sempre na tomada de decisão última das suas vidas: escapar, terminá-las agora, saltar... Eu teria feito o mesmo: não tenho qualquer ridícula aversão católica ao suicídio, e acho que o Dr. Kevorkian foi um verdadeiro herói. Tomar o próprio destino nas mãos é uma das mais solenes de todas as escolhas vitais que podemos fazer. Todos nós nos devemos preparar para tomar este tipo de decisão algum dia. .Sebastian: .Estou surpreendido que os media tenham censurado os jumpers, porque o que geralmente tentam fazer é usar qualquer evento terrível para obter a máxima atenção. Julgo que o governo dos EUA teria preferido a divulgação dos saltos, como tudo o que se lhes seguiu, para que a reacção retaliatória nacionalista pudesse ser proporcional ao choque e ao pavor do evento. .Não entendo a razão pela qual os cristãos têm dificuldade em aceitar o direito de acabar com a própria vida. O suicídio é a desconsideração dos entes queridos deixados para trás, mas se não temos o direito de terminar a nossa própria vida, seremos realmente donos de nós próprios? Especialmente no caso de uma situação de crise em que se tem o direito de preferir uma morte rápida, saltando, a ser queimado vivo. Foi uma decisão racional..4. CONTANDO A HISTÓRIA.«(...) Só um louco, pois, poderia pensar que agredir uma cidade e pô-la em estado de sítio, como fizeram a Nova Iorque - e fazê-lo no tempo em que as imagens inundam o mundo em segundos, incutindo em cada indivíduo um sentido de pertença que acaba por mobilizar as massas em prol de um estranho conceito de bem colectivo -, podia resultar a seu favor. Estas são as lembranças dos que nunca esqueceram e dos que nunca serão esquecidos, e que por isso não permitem uma cura e uma paz plena. Ao não as permitirem, deixam uma inquietude, a inquietude onde reside a nossa singular humanidade. A história de cada um dos cerca de três mil mortos é a história de todos. Contar é vencer, calar é perder. Perder-nos. (...)» (p. 187/188).Pedro Guilherme-Moreira:.Aqui continuamos a discussão da questão anterior, mas avançamos mais um pouco. Aqui falamos mesmo da globalização: faz sentido que ainda se pense que matar inocentes - os terroristas, aliás, mataram os seus próprios, a que, neste caso, chamam mártires, estivessem nas torres ou fossem piratas do ar -, incutindo a mensagem do medo e do poder indómito, faz vingar a mensagem dos perpetradores? Não terão tido os líderes do acto terrorista consciência de que atentar contra toda uma civilização só lhes granjeia apoio de franjas? Ou defendermos que são mesmo loucos, megalómanos, e que não pretendem coligir crentes e apoiantes? Por outro lado, a segunda questão abordada nesta frase: por maior que seja a dor, a tal inquietude que faz a nossa singular humanidade, tem sentido contar, falar, aprofundar a história de cada um dos três mil mortos, ou é melhor calar? É verdade o que se diz, que os americanos ainda não estão prontos a entrar dentro das torres, e que só começarão a surgir obras que contem a história dos mortos dos vinte anos para a frente? Será sintomático que tenha sido um europeu, latino, a contar esta história num romance pela primeira vez? O dominante pudor protestante ainda o não permite?.Taciana:.Não, nunca é «melhor ficar calado». Precisamos de expressar a nossa raiva. Talvez nos EUA ainda estejamos um pouco dormentes (eu sei que estive por um longo período de tempo) e talvez seja menos por causa do «dominante pudor protestante» e mais por causa da tal censura. Eu realmente acho muito estranho que não tenham aparecido mais histórias independentes, filmes, livros, sobre o 11 de Setembro. E estou tão embebida no que se passou que não posso objectivamente dizer se as coisas foram mais ocultadas do que o normal. Foi uma enorme ocorrência que afectou o mundo inteiro. Portanto, sim, é legítimo pensar que a opinião pública olhasse para os factos de outra forma, que tivesse mais curiosidade, que houvesse mais dissensão entre pontos de vista. Certamente mais do que o que tivemos até agora sobre um evento desta dimensão..Para mim, é impossível ver a experiência do 11 de Setembro apenas como uma tragédia nacional ou global. Eu experimentei-a tanto no meu microcosmo como a um nível macrocósmico. Era surreal: ver os eventos como se um olho estivesse a olhar através de um microscópio e o outro por um binóculo no dia em que um irmão morreu: uma coisa tão pessoal e o mundo inteiro sabia e falava sobre isso. Foi demasiado público. Uma sensação muito estranha..Sebastian:.Pessoas fracas vivem num estado de negação constante. É um mecanismo de sobrevivência reservado para aqueles que estão na extremidade inferior da escala emocional. Eles não gostam de saber a verdade completa, se é inconveniente, porque não corresponde à sua visão de mundo ou porque fere os seus sentimentos. É reconfortante aceitar a mentira mediática popular de que existem bons e maus, e que nós, os EUA, somos os bons. Enquanto o estilo de vida do consumidor continuar confortável, a maioria dos cidadãos vai ser complacente e não questionará em profundidade o estado de coisas. Há muitos documentários independentes e livros escritos que mostram como a história oficial do 11 de Setembro se desvia das provas. Basta olhar..5. A PERDA.«(...) Darius e Teresa ficarão acordados como se temessem a noite. Sabem que pela manhã tudo vai doer e que para o aguentar é preciso descansar antes que a cabeça revisite o passado e se encha de imagens e nunca mais se esvazie. Nos corações já sentem buracos e talvez os psicólogos e psiquiatras que o governo lhes vai disponibilizar os ajudem a fazer isso: a encher os buracos dos corações com o que sobrar do pensamento. » (p. 175).«Quis contar a Mamma da dor dormente. Tanta dormência na primeira semana, Mamma. Não sentiu? Da ida à mercearia com sentimento de culpa, como se fosse desrespeito comprar géneros para comer, em vez de sofrer, apenas sofrer. (...) - Com o tempo, seguimos em frente - disse Darius. - Também me sinto bem aqui. Sinto-me, aliás, mais do que americano. Sinto-me parte de algo maior. Talvez um grão do lado certo do mundo. (...)» (p. 192).Pedro Guilherme-Moreira:.Esta parte é muito dura para familiares de um herói malogrado como o J.J. A dormência de um mundo que, de repente, fica irreal. E a questão dos memoriais, do enfrentar dos factos, se ajuda ou se é melhor esquecer totalmente, de se faz algum sentido apelar para esse sentimento de que se faz parte de algo maior. Aqui, sei que será muito complicado para todos abordar a questão concreta do J.J., uma vez mais. Talvez a Taciana nos possa contar brevemente a história da dor da família de há dez anos a esta parte. E, sobre a parte inicial, sobre a possibilidade de encher os buracos do coração com o que sobra do pensamento - sentiram necessidade de ajuda profissional ou optaram por encarar a dor sozinhos - ou em família?.Taciana:.A morte de meu irmão teve um efeito negativo sobre a relação dos que ficaram. Nunca fomos uma família forte. Quando já existem fracturas e uma pressão desta índole é adicionada, é normal haver uma cisão. O J.J. era o favorito dos meus pais: o único filho homem, o caçula, o mais bem sucedido materialmente. Depois do choque e do pesar, os restantes quatro membros da família, pai, mãe e duas irmãs, dividiram-se entre si para curar as feridas separadamente. Por outro lado, aproximei-me dos seus amigos, tanto em Portugal como nos EUA. A parte mais triste é que o sobrinho do J.J., o meu filho Sebastian, agora com 19 anos, e o filho da minha irmã, que tem 7, e que apresentam muitos dos traços de J.J., vão crescer sem conhecer o seu tio. A perda da influência de um irmão nas gerações seguintes é a maior perda de todas..Sebastian:.Eu tinha 9 anos quando o meu tio J.J. morreu. Foi a minha primeira experiência de perda de um membro da família, por isso fiquei triste, mas fiquei muito mais afectado pelo abalo emocional da minha mãe, tia, avós. Apesar de ter sido terrível, experimentar o 11 de Setembro nessa idade começou a politizar-me, abrindo-me os olhos para a forma como o mundo realmente funciona, e, ao longo do tempo, essa consciência tem-me revelado com clareza para onde vai o mundo se não mudar de rumo..6. OBAMA, A ESPERANÇA E O MUNDO PÓS-11 DE SETEMBRO.«(...) A pior de todas as comoções, a esperança, abalará o mundo em Novembro de 2008, quando Barack Obama for eleito presidente dos Estados Unidos da América. Thea estará sozinha ao entardecer no alpendre da casa que arrendou por duas semanas nos Hamptons. Pressentirá atrás de si uma outra aurora a incandescer o manto da noite, essa comoção, esse denso feixe de esperança. Um jorro de que os americanos insistirão em não se defender. À sua frente, empalidecerá a areia, escurecerá o mar e a fúria das ondas não será acalmada, tampouco será exaltado o branco que a espuma sugere. Desejar-se-á ardentemente a manhã, porque na noite de um mundo anseia-se sempre a manhã de outro. (...)» (p. 197).Pedro Guilherme-Moreira:.Escrevi em 1998 que a pior de todas as comoções é a esperança, precisamente quando Obama acabava de vencer as eleições e todos, também eu, queríamos acreditar que tínhamos ali um homem que mudaria a história para melhor. Muitas ilusões caíram desde então, e eu pergunto se Obama é o melhor que se pode ter num mundo desencantado, ou se é legítimo deixarmo-nos arrastar por essa comoção de esperança? Mais: é fundamental?.Taciana: .O que estamos a ver agora é que Obama é apenas um figurante, uma farsa. Muitos democratas que votaram nele em 2008 estão profundamente decepcionados com sua presidência. Tornou-se business as usual. Terá ele começado com a melhor das intenções pessoais? Talvez... Era a sua imagem usada pelos que tinham o poder real para aplacar e hipnotizar um público ignorante? É claro. Eu sei que neste período do mundo pós-11/09, as coisas estão a acontecer mais rapidamente: Estamos a assistir agora a uma perda de liberdades e direitos e serviços públicos em todo o mundo, um declínio no padrão de vida para a maioria das pessoas nos Estados Unidos, a deflação monetária e uma concentração de riqueza e poder nas mãos de poucos. Eu pergunto-me se estaremos diante de um colapso económico global devido ao peak oil na próxima geração (Nota: Peak oil é o momento em que a taxa máxima de extracção de petróleo mundial será atingida, e após o qual a taxa de produção entra em declínio terminal). O meu filho, que está na universidade, está a aprender por si mesmo como cultivar os próprios alimentos como forma de preparar o seu futuro, como todos deveriam. Como o nascimento de Cristo há dois mil anos, talvez o 11/09 tenha sido o ponto de viragem entre uma velha e uma nova era. .Sebastian:.Fomos informados de que Obama, o novo messias, havia descido dos céus para esbanjar connosco presentes caros chamados «esperança» e «mudança». Uma coisa a entender sobre propaganda, como George Orwell e o relações públicas e guru Edward L. Bernays descrevem, é que a verdadeira mensagem é muitas vezes o inverso do que parece ser. É o chamado doublespeak: a paz é guerra, amor é ódio, segurança interna é terrorismo, a corrupção é a virtude, o Departamento de Defesa é realmente o Departamento de Ofensa. .O sistema financeiro global vai derreter à medida que o dólar perde status de moeda de reserva mundial, seguido pelo peak oil e mais guerras até as novas fontes de energia estarem desenvolvidas. A população dos EUA vai ter de acordar para o estado de florescência fascista antes de se tornar a involuntária infantaria do Quarto Reich. O 11 de Setembro foi uma operação de «bandeira falsa», como quando Hitler queimou o Reichstag e culpou os comunistas, ou como Pearl Harbor ou o incidente do golfo de Tonkin. Estas táticas não são nada novas. A História rima..Crónica de uma conversa por ter (mas tida) com o pai, João Aguiar, 67 anos.Esta é a crónica da ausência do pai de J.J., João Aguiar, nesta conversa. E escrevo-a porque lhe quero agradecer. Ele disse-me desde o início: «Pedro, não sei se vou ser capaz.» Tentei várias abordagens, pedi aos jornalistas para não o contactarem directamente, reduzi as abordagens possíveis. O João sempre falou comigo com uma delicadeza e com uma ternura ímpares. Mas o que João quer mesmo é esquecer. Não o filho, claro, nem a consequência do 11/09 na História, mas expurgar o horror desse dia dos seus próprios dias. Sendo pai, percebi-o desde o primeiro momento em que falámos. Chorámos juntos uma só vez, a primeira de todas. Eu estava fragilizado por anos de exposição a fotos, imagens, histórias, e ninguém com quem falar do assunto. Eu tinha uma dor contida, ele tinha uma dor infinita. O João só continuou a atender o telefone porque também me percebeu. Não tem medida a dor de perder um filho, e perdê-lo assim, publicamente, como a Taciana Aguiar, sua irmã, se referirá linhas abaixo, é ver-nos retiradas todas as armas para enfrentar o luto na intimidade. Para mim só fazia sentido que o livro saísse depois de um contacto estreito com familiares das vítimas, a quem, afinal, este livro realmente se dirige. Se há homenageados aqui, são eles. Mas a abordagem teria sempre de ser diferente da convencional, até porque eu não sou jornalista e sinto, sempre senti, uma grande responsabilidade por trazer a ficção para dentro dos factos do 11 de Setembro, entrando neles com o pudor devido e sem o indevido. Até porque se confirma que ainda é cedo para os americanos. Não se pergunta o que se sente: intui-se. Mesmo na imprensa, há silêncios que explicam tudo. A presença do pai João Aguiar nestas linhas é agora incoerente: ele não quer aparecer, ele não quer que lhe recordem aquele dia. Mas eu não podia deixar de o trazer para lhe agradecer ter-me explicado tudo com as suas pausas. Nunca precisei que o João aparecesse para o entender completamente. Obrigado, João.