A Filha Rebelde.Autora: Margarida Fonseca Santos.Encenação: Helena Pimenta.Intérpretes: Ana Brandão, Eurico Lopes, Lídia Franco, Manuel Coelho, Vítor Norte e Joana Brandão, entre outros.Local: Teatro Nacional D. Maria II .A história da filha do director da polícia política que, de esposa burguesinha dum diplomata suíço, passa a revolucionária - encandeada pela aura heróica de Che Guevara, na Cuba dos anos 60 - foi primeiro contada no Expresso, por José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz (em 2003, a editora Temas e Debates publicou-a: A Filha Rebelde / Da Cuba do Che ao Portugal de Abril, a vida fantástica de Annie Silva Pais, filha do último director da PIDE)..Da versão agora em cena, es- perar-se-ia mais que flashes das reviravoltas pessoais e políticas de Annie. Desperdiçando os conflitos potenciados pela narrativa jornalística, Margarida Fonseca Santos monta uma sequência anódina de episódios avulsos, onde personagens mal esboçadas - irreconhecíveis, portanto, para o público de hoje -, resvalam em meras caricaturas. A constante intermitência de tempos e espaços debilita, também, a evolução da protagonista, cujo delírio radical - face à Lisboa salazarista ou à Havana de Fidel -, terminará na desilusão silenciosa provocada por um Portugal democraticamente ocidentali- zado e pela alienação da utopia cubana (Annie só morreria em 1990)..A recuperação realista deste episódio lateral da nossa memória recente só se justificaria numa trama clara e inventiva. A sua ausência torna-se notória na indiferenciação do espaço cénico e da circulação dos actores. José Manuel Castanheira veste o palco com uma caixa neutra, onde caberia qualquer outro espectáculo, e, neste oco dramatúrgico, a encenadora espanhola Helena Pimenta limita-se a mover personagens semelhantes a títeres, em cenas funcionalmente irrelevantes, apenas isoladas pelo desenho de luz de José Carlos Nascimento..O pastiche de ritmos latino-americanos ou de ícones musicais da revolução de Abril, que contrastam com a mudez do Portugal salazarista, não chegam para construir um "musical" que colmatasse a ligeireza do texto. E a cor local das coreografias de Núria Castejón só celebram superficialmente a liberdade de Cuba. Os desempenhos não podem, pois, ultrapassar a mediania do entretenimento telenovelesco. .A encenadora aponta, aliás, para um grau zero psicológico das personagens. E se Ana Brandão (Annie) e Lídia Franco (mãe) cumprem como podem, as interpretações de Eurico Lopes (marido), Vítor Norte (Silva Pais) e Manuel Coelho (Rosa Casaco) afundam-se neste ponto morto teatral que é A Filha Rebelde..De terça a sábado, 21.30; domingo, 16.00 (marcações: 21 3250835)