Com sete peças de madeira ele inventa um mundo novo

MARCOS CRUZ

Augusto Baptista. Escritor e jornalista, acaba de editar dois livros dedicados ao tangram, uma paixão que cultiva desde que era miúdo. Num deles expõe 2050 figuras originais. No outro usa as regras do jogo para fazer 'design'. Mas deixa escapar um lamento: "Há uma onda de desinteresse por estas coisas"

Certo dia, a filha de Augusto Baptista surpreendeu-o com a pergunta: "Papá, o que é pensar?" Ele não se lembra já do que lhe respondeu, mas tinha um trunfo na manga. Afinal, muitos anos antes a pergunta fora sua - e a resposta surgira por via do tangram. Pensar era então resolver um problema.

Hoje, não consta que tenha deixado de ser. Os problemas é que se tornaram outros, no tangram e fora dele. Augusto Baptista continua, porém, a socorrer-se do tangram para solucionar problemas da vida. Sete peças de madeira - triângulos de diferentes dimensões, um quadrado e um paralelogramo - são as suas ferramentas.

A ideia é, com elas, compor tantas figuras quanto possível. Ora, como o limite do tangram é, segundo este homem dos (literalmente) sete instrumentos, o ilimite da imaginação, dá para ver nele uma metáfora da vida. Sete dias, por exemplo, tem a semana. Cabe-nos conjugá-los de forma a mudar o papel de cada um deles na construção de semanas diferentes. Só que, enquanto na vida há sete pecados mortais a evitar, aqui há sete bocados imortais a aproveitar.

"Desenvolve o raciocínio, contribui para a sanidade e estimula a indagação", sustenta Baptista, 62 anos, 54 de praticante. "Não sei quem me deu a primeira caixa, mas recordo-me de ter sido aos oito anos, estava eu doente. Espreitei aquilo, tentei resolver um dos problemas e não consegui. Mais tarde voltei lá e, com esforço, tive êxito. Aí veio a satisfação, mas logo a dúvida: 'E outras? Serei capaz?' Até hoje", resume.

Depois do liceu, entrou na Faculdade de Medicina do Porto, de onde saiu, sem concluir a licenciatura, para a tropa. Fez o curso de comandante de companhia na Guiné e exerceu em Angola. Se lhe perguntarem "Onde é que estavas no 25 de Abril?", responde "lá". E se de lá voltou então, lá regressaria, "por bastantes anos", em 1976, para desenvolver actividades ligadas ao Ministério do Trabalho e fazer jornalismo, área que assumiu a título profissional (Sábado e Notícias Magazine) mal foi de vez para o Porto. Hoje, desempregado, dedica-se à "paixão de menino" que o seguiu por toda esta história: o tangram.

"Ultimamente, e em consequência das tensões profissionais, comecei a tomar nota dos vários problemas que ia enunciando. Não se tratava já de resolver os dos outros, mas de criar eu próprio os meus", esclarece. Com uma especificidade: "A exploração de uma vertente estética do tangram."

Em muitos dos livros que consultou, Baptista esbarrou na ideia feita de que "o tangram permite compor 1500 figuras", bem como na desencorajadora tese de que, embora podendo criar figuras novas, "dificilmente a pessoa conseguirá fazer melhor girafa ou figura humana do que as que já existem". A este problema respondeu com dois livros: o primeiro, Tangram Art, saído há dois meses, em que apresenta 2050 figuras da sua lavra; o segundo, Tangram Design, publicado há duas semanas, no qual propõe matrizes também originais e infinitamente multiplicáveis.

Atendendo a que são registos de valor inestimável e que, como se infere da recensão da sumidade americana na matéria, Jerry Slocum, vão directos para a história do tangram, espanta que tenham vindo à estampa em edição de autor. "Há uma onda de desinteresse por estas coisas", explica Baptista, não sem ressalvar o apoio da Fundação Eng.º António de Almeida.

Se Tangram Art, com secções organizadas por temas, abrange o figurativo e o abstracto, predispondo-se às mais diversas interpretações (em que contam tanto as peças como as ausências que a sua conjugação cria), Tangram Design fixa-se nesta última dimensão e extrai dela padrões passíveis de inspirar indústrias de azulejos, papel de parede ou de embrulho, só para citar algumas. Duvidam? Vejam- -no.|