"Acrescente lá a essa lista o nome de Gago Coutinho"

Aviador. Em 1965, Maurice Bellonte, uma lenda da História da Aeronáutica, chegava a Lisboa para evocar o seu voo pioneiro entre Paris e Nova Iorque, três anos depois de Lindbergh ter efectuado o percurso inverso

Pioneiro da aviação lembrava boa recepção nos Açores em 1929

"Numa primeira tentativa da travessia [aérea] França-Estados Unidos desci nos Açores, em S. Miguel [em 1929]. O acolhimento dessa boa gente da ilha é ainda hoje uma recordação bem viva na minha memória. De tal forma que, não faz muito tempo, lá fui de novo, quase peregrino, recordar passos ali vividos."

Maurice Bellonte (1896-1984), "herói legendário da aviação mundial", falava ao DN, como se pode ler na edição de 2 de Fevereiro de 1965, "acerca da façanha que o imortalizou", na companhia de Dieudonné Costes: a primeira travessia aérea em que se fez a ligação desde a França até aos EUA, a 1 e 2 de Setembro de 1930 - o primeiro voo entre Nova Iorque e Paris já tinha levado a glória a Charles Lindbergh, em 1927.

"Este pioneiro do ar é o último sobrevivente de uma plêiade de homens que souberam viver a vida com intensidade invulgar, enchendo-a de aventuras e incidentes, mas que, por isso mesmo, se tornaram auxiliares imprescindíveis do progresso das ligações aéreas entre os povos, ligando, indissoluvelmente, os seus nomes a esse progresso: [Jean] Mermoz, [Paul] Codos, [Dieudonné] Costes, Saint-Exupéry e tantos, tantos outros." Mas Maurice Bellonte logo retorquia: "Acrescente lá a essa lista, com toda a justiça, os nomes grandes de Gago Coutinho e [Sacadura] Cabral. Conheci Gago Coutinho. Conheci-o bem. Admirava-o profundamente. Muitas vezes falámos. É que Lisboa foi sempre terra das minhas peregrinações."

E o autor do livro Le Premier Paris-New York, só editado em 1976, recordava os tempos em que voava no Point d'Interrogation, avião que se tornara tão celebre como o Spirit of Saint-Louis, de Lindbergh, ou o Lusitânia, de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. "Lisboa e os Açores eram etapas obrigatórias nas ligações transatlânticas em todas as tentativas que se faziam nesses recuados tempos", lembrava Bellonte, que vinha a Lisboa falar no Liceu Charles Lepierre e na Sociedade de Geografia.

"Quando saí de Paris, a caminho da América, comecei estudando o comportamento do aparelho [um Breguet XIX]. O anormal consumo de combustível e outras irregularidades obrigaram-me a ficar nos Açores", relatava o vulto que era um "orgulho da aviação francesa" e, décadas passadas, continuava encantado com "a paisagem de sonho dessa ilha que um verde exuberante perenemente abraça". Num tempo que já era o dos "modernos Boeing", o pioneiro contava que, naquele tempo, "um avião polaco levantava voo de S. Miguel, à minha vista, para a tentativa da travessia do Atlântico. Mas o fim dessa aventura foi trágico."

"Este homem, que em [Setembro de] 1929 bateu o recorde de distância na companhia do não menos famoso Costes, cobrindo a distância que vai de Paris a Tsitsikar, na Manchúria [7905 quilómetros], onde estiveram perdidos e onde viveram aventuras sem par, e que no regresso a Paris, partindo de Hanói, fizeram 12 110 quilómetros em quatro dias, façanha inesquecível, veio a Portugal falar acerca da proeza que lhe valeu celebridade mundial": o primeiro voo entre Paris e Nova Iorque.

Bellonte "falou ontem, demoradamente, no Liceu Charles Lepierre, do seu pioneirismo. E a sua palavra, escutada atentamente, foi uma homenagem ao pioneirismo de um povo que desbravou os caminhos do mar e que continuou essa epopeia com os nomes gloriosos de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Depois, foi um dialogar com o passado aventuroso, o recontar dos incidentes, da ausência de meteorologia e da persistência dos homens. E, no fim, quentes aplausos agradeceram a esse homem a alegria que a todos tinha dado por terem ouvido da sua boca pedaços da história da aviação que ele ajudou a construir." Frases com asas.

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