De abolicionista criticado a herói em dois séculos

Abraham Lincoln. 16.º presidente dos EUA inspirou Barack Obama

Dois séculos depois do seu nascimento, se Abraham Lincoln estivesse vivo não poderia estar mais orgulhoso do seu país: em Novembro do ano passado os Estados Unidos elegeram o seu primeiro presidente negro, Barack Obama, e o Partido Republicano tem pela primeira vez um afro-americano como líder, Michael Steele. Factos apenas possíveis graças ao legado do homem que conseguiu manter a América unida ao vencer a Guerra Civil e aboliu a escravatura.

A referência

"Não há muito a dizer de mim", costumava afirmar Lincoln. Mas a verdade é que o 16.º presidente dos EUA continua a surgir, 200 anos depois do seu nascimento, no topo das listas do melhor presidente americano de sempre. Uma popularidade que leva ambos os partidos americanos a afirmarem-se seus herdeiros. O Presidente Barack Obama não hesitou em lançar a sua corrida à presidência frente ao capitólio estadual em Springfield, no Ilinóis, no mesmo local onde Lincoln o fizera há quase 150 anos. E foi com o tema "O Renascer da Liberdade", uma frase directamente copiada do famoso discurso de Gettysburg de Lincoln, que Obama tomou posse, a 20 de janeiro. O primeiro presidente negro dos EUA, que simbolicamente prestou juramento sobre a mesma Bíblia do também advogado do Ilinóis, é esperado hoje em Sprinfield para uma homenagem cujos bilhetes há muito esgotaram.

A iconografia

Além das notas de cinco dólares, o rosto macilento de Lincoln, com a barba que se tornou sua imagem de marca enquanto presidente, surge em moedas e selos americanos. O homem nascido numa cabana de madeira numa plantação do Kentucky serviu ainda de inspiração a um museu que agora abriu em Gettysburg, a cidadezinha da Pensilvânia onde decorreu a célebre batalha da Guerra Civil e onde Lincoln proferiu o seu mais famoso discurso, em 1863. Um pouco por todos os Estados Unidos multiplicam-se as cidades e vilas chamadas Lincoln em homenagem ao primeiro presidente republicano do país. Foi ainda este homem excepcionalmente alto - tinha 1,93 metros - quem deu nome à marca de automóveis Lincoln. De facto, o seu fundador, Henry Leland, decidiu, em 1917, dar o nome do seu herói a estes automóveis. Comprada pela Ford depois da sua criação, a Lincoln tem uma já longa tradição de fornecer as limusinas usadas pelos inquilinos da Casa Branca; desde Franklin Roosevelt a Barack Obama.

O ídolo

Esculpido numa montanha do Dacota do Sul, o rosto de Lincoln é um dos quatro que podem ser vistos no Monte Rushmore. O presidente que os analistas não hesitam em dar como exemplo de honestidade e em apontar como o pioneiro da defesa da liberdade e igualdade de direitos - longe da imagem de político controverso, criticado pelos seus contemporâneos devido às suas posições abolicionistas - partilha a montanha com figuras como George Washington, Thomas Jefferson e Theodore Roosevelt. O fascínio que ainda hoje exerce explica os mais de 16 mil livros que inspirou, "mais do que todos os outros presidentes somados", explicou à AFP o senador Dick Durbin. Para este membro da comissão do Bicentenário, criada para assinalar o nascimento de Lincoln, só "Jesus" inspirou mais obras. Além do Monte Rushmore, o Memorial a Lincoln, em Washington, é outro dos pontos onde americanos e turistas prestam homenagem ao homem que pôs fim à escravatura. Todos os anos são milhões os que desfilam frente à estátua de mármore do presidente. E para os 200 anos do seu nascimento, além de mais de 50 exposições, o teatro Ford, onde foi assassinado em 1865, vai reabrir hoje após uma longa remodelação, com uma peça sobre a sua vida.

A vida

Filho de agricultores pobres, Lincoln quase não andou à escola e foi sozinho que aprendeu a ler e escrever, tornando-se num devorador de cultura. Este autodidacta, que perdeu a mãe aos nove anos, era tão hábil a discursar como a cortar lenha com um machado. Casado com Mary Todd, a filha de um rico dono de escravos, perdeu três dos quatro filhos ainda crianças. Marcado pela tragédia, cedo se interessou pela política, tendo sido eleito para o Congresso do Ilinóis. Advogado em Springfield, falhou por duas vezes a eleição para o Senado. A sua oposição à escravatura fez dele uma figura conhecida e também controversa. Os historiadores ainda hoje tentam lançar alguma luz sobre a vida deste homem. E não faltam livros a insinuar uma eventual homossexualidade ou uma depressão crónica. Quanto à sua saúde, "Lincoln tinha tantas doenças que mal dá para acreditar que estava vivo quando foi morto", explica Marc Miccozzi, ex-director do Museu Nacional da Medicina. A sua altura, excepcional para a época, leva alguns cientistas a desconfiar que podia sofrer da doença genética de Marfan.

O Presidente

Primeiro presidente republicano (partido criado em 1854 por opositores à escravatura) dos EUA, Lincoln deparou-se, mal chegou à Casa Branca, com a separação de 11 estados do Sul, esclavagistas. A Guerra Civil era inevitável. Reeleito em 1864, Lincoln prosseguiu o conflito até à vitória, no ano seguinte. Derrotados os confederados e libertados os escravos, concentrou-se na reconstrução do país. Foi num momento de descontracção, depois de anos de conflito que o assassino o apanhou.

A morte

John Wilkes Booth era um conhecido actor, defensor acérrimo da escravatura. No dia 15 de Abril de 1865, entrou no teatro Ford, em Washington e aproveitou um momento humorístico da peça para disparar contra Lincoln, atingindo-o na cabeça. Apesar de uma perna partida, a saltar para o palco antes de fugir, Booth andou a monte durante 12 dias, até ser encontrado e morto pela polícia. Na sua conspiração para matar o presidente, o actor terá tido um cúmplice português, o madeirense João Celestino. Primeiro presidente dos EUA assassinado, esta morte dramática veio juntar à reputação de Lincoln, visto como um mártir da política americana.|

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG