Uma pequena luz na noite

Pirilampo. O Parque Biológico de Gaia, que anunciou recentemente a descoberta de uma nova espécie, criou um observatório, apoiado numa rede nacional de informadores, para apurar onde e que pirilampos cintilam em Portugal. Portadores de luz, é na luz artificial que encontram uma das suas maiores ameaças

Quando se enamoram, iluminam a noite com uma das luzes mais frescas da terra. Há quem lhe chame mágico, mas é um insecto ameaçado e pouco interesse tem merecido dos nossos entomólogos. Recentemente, os responsáveis do Parque Biológico de Gaia anunciaram a descoberta de uma nova espécie, e prosseguem a campanha de defesa e divulgação dos indefesos pirilampos.

A identificação da nova espécie, Lamprohiza mulsanti kieserwetter, até agora apenas conhecida em Espanha e França, foi feita a partir de exemplares colhidos por um grupo de entomólogos em Gaia e noutras localidades do Norte do País. Do ponto de vista científico, segundo director do Parque Biológico de Gaia, Nuno Oliveira, a descoberta não é muito importante, "indica que o trabalho de campo é escasso".

Em Portugal, a estudar os pirilampos, refere, "há um investigador, José Manuel Grosso-Silva, que faz trabalhos nessa área, e pouco mais". Também conhecidos como vaga-lume ou luze-cu, os luminosos insectos emergiram da escuridão, nos últimos anos, graças a uma iniciativa da Parque Biológico de Gaia, que nas noites de Junho abre as portas a quem quiser observar os enamorados insectos.

Numa dessas visitas nocturnas ao parque participou um entomólogo, o belga Raphael Cock. Ficou agradado com a iniciativa e passou a palavra a outros especialistas. No ano passado, o Parque Biológico organizava o primeiro seminário internacional sobre pirilampos, com a presença de cinco dezenas de investigadores de diversos países.

O pirilampo, um dos poucos animais que produzem luz, não é relevante apenas por essa raridade. Tem importância acrescida por se tratar de um bioindicador: a sua presença é garantia de qualidade ambiental. Muito sensíveis à poluição, destruição da vegetação ou alteração do clima, são os primeiros seres vivos a desaparecerem.

Com maior incidência no Norte e Centro, ainda possível observar o insecto portador de luz em quase todo o território português, onde estão referenciadas, já com recente descoberta, nove espécies.

Animais nocturnos, vivem nos prados, sebes, margens de rios e ribeiros, nas bordas de campos agrícolas e jardins. Na época de acasalamento, que coincide com as noites quentes de Verão, é a melhor altura para os observar: os machos voam pela noite à procura das fêmeas que os seduzem com a luz que emitem. Um amor luminoso, dir-se-ia, mas a sofrer inesperados impedimentos.

Uma das ameaças do pirilampo encontra-se, precisamente, na luz. Ou melhor: no excesso de luz artificial, que prejudica este tímido animal bioluminescente de utilizar os seus apaixonados sinais. Não é, contudo, apenas a tépida luz inventada pelos homens que o atira para o rol dos animais em risco de extinção. O uso de herbicidas e pesticidas, a alteração do clima, a invasão da vegetação autóctone por plantas infestantes também têm um papel decisivo na súbita redução e desaparecimento da espécie.

Os machos, em média, medem 1 a 1,5 centímetros de comprimento; as fêmeas, que raramente voam, podem atingir os 2 centímetros. Tantos os pirilampos adultos com as larvas possuem dois pontos luminosos sob as faces ventral e dorsal do último segmento do corpo.

É carnívoro o pequeno luze-cu. Alimenta-se de caracóis e outros vermes: morde a presa e injecta-lhe uma substância anestesiante e enzimas digestivas. Por este processo, a presa transforma-se em líquido que será sorvido pelo paciente predador. Chegadas noites frias do Inverno, as larvas do nosso vaga-lume procuram refúgio no solo . E só emergem, meses depois, com o no fogo fértil da Primavera seguinte. |

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