ROMAGEM DE CAVACO À AFRICA DELE

Férias antes da visita de Estado que começa a 24

Absolutamente filho da sua geração, o estudante Aníbal António Cavaco Silva recebeu, em 1962, "um soco no estômago" que o deixou "sem respiração". Tinha pedido o adiamento da tropa para acabar o curso, mas a Guerra Colonial, que rebentara no ano anterior, acabara com os adiamentos - principalmente quando se tratava daqueles estudantes que não tinham "alguém importante" a pedir favores. Quando, em 1963, chegou a nota da mobilização para África, decide casar. Tinha 23 anos.

Hoje, Cavaco Silva e a mulher regressam à "África deles", e levam os filhos para lhes mostrar como foi. Uma viagem pessoal que precede a visita de Estado a convite de Armando Guebuza, que começa a 24 de Março.

Em Lisboa, a 20 de Outubro de 1963, na Igreja de São Vicente de Fora, o padre Sebastião, de Boliqueime, dá a bênção a Aníbal e Maria Alves da Silva. A 31, os dois embarcam no navio Infante D. Henrique. Chegam a 16 de Novembro a Lourenço Marques.

É já numa casa emprestada na cidade que Cavaco Silva ouve na rádio a notícia do assassínio de John Kennedy, em Dallas. "Foi para nós, como para tantos outros jovens, um grande choque. Kennedy era para mim a imagem do político moderno, por quem tinha especial admiração", escreveu na Autobiografia Política. Muda-se depois para uma casa cedida pelo Exército no Alto do Maé.

A guerra correu bem. "Na parte militar tive a sorte de trabalhar sempre em Lourenço Marques, no que se chamava, com uma certa ironia amarga, "a guerra dos papéis". Primeiro, é colocado no quartel-general, na Ponta Vermelha, e depois numa repartição de contabilidade, na então Avenida Massano de Amorim que passou depois a Mao Tsé-Tung.

Ao alferes Aníbal "os conflitos armados que já ocorriam no Norte do território passavam quase despercebidos, a não ser por uma ou outra notícia que chegava só aos quartéis". Em Lourenço Marques cruza-se com Francisco da Costa Gomes e outros oficiais que, com o 25 de Abril de 1974, para sua "surpresa", "emergiram como destacados revolucionários". Não dá pormenores.

O "exótico" que regista do quotidiano em Lourenço Marques era, essencialmente, "o facto de respirar os quentes odores africanos e encontrar macacos junto à praia da Costa do Sol, a escassos quinze minutos do centro da cidade".

Mas fascina-se com a cidade traçada a régua e esquadro e é numa das ruas que se inspira para chamar Patrícia à filha que nascerá já na "metrópole", um nome achado nos passeios pela Rua Princesa Patrícia, "rua cheia de jacarandás que descia em direcção ao mar, numa explosão floral que nos deixava extasiados". A rua chama-se hoje Salvador Allende.

Maria Cavaco Silva dá aulas, primeiro no Liceu D. Ana Portugal e depois no Liceu Salazar (que se juntaram no Liceu Josina Machel, que lá está). Começa por ensinar Português e Francês. Aníbal e Maria todos os dias marcam o ponto no Café Djambu, na baixa da cidade, para a bica da praxe. Têm uma tertúlia onde entram Manuel Frasquilho, economista, e Levy Vermelho, advogado - amigos feitos a bordo do navio Infante D. Henrique, quando estavam os quatro em trânsito para o destino comum.

"Apaixonados pelo cinema", tornaram-se sócios de um cineclube e foi em Lourenço Marques que nesses anos viram filmes como O Couraçado Potemkine e Ivan, o Terrível, censurados em Lisboa.

Os passeios nos arredores são a Matola (para "comer pernas de caranguejo com um tamanho inacreditável"), a Marracuene ("para subir o rio Incomáti e ver os hipopótamos") e a Namaacha ("para matar saudades de Sintra"). "Várias vezes fomos até ao Xai-Xai e ao Bilene, praias desertas com uma beleza de cortar a respiração. No Xai-Xai, a minha mulher recordou-me que fora por ali que se passara a triste história do naufrágio do Sepúlveda, cantada por Camões nos Lusíadas: era realmente um areal para dois amantes morrerem abraçados."

Vai à África do Sul, que "tirando o Krueger Park, era muito civilizada para nos entusiasmar". "E tinha um óbice tremendo, o apartheid."

Cavaco descreve assim o seu embate com o racismo do regime de Pretória, que só terminaria nos anos 90, já com ele primeiro-ministro de Portugal: "Alma de português não conseguia viver pacificamente com aquilo e uma vez tive mesmo problemas com as autoridades (brancas, claro) porque estava a filmar os letreiros da segregação racial nos caminhos-de-ferro de Joanesburgo".

Com a "compreensão" dos superiores militares e a ajuda dos colegas do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras que lhe enviam de Lisboa os apontamentos das aulas, estuda para acabar a licenciatura. Em Outubro de 1964, aproveitando a época especial para militares, vem a Lisboa para fazer os exames do 5.º ano do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras. Tem a mais alta classificação do curso, o que lhe dá direito a oito prémios que "monetariamente foram muito úteis".

Em 5 de Novembro de 1965, o casal já tinha encaixotado os haveres, os corais e conchas do Índico e as estatuetas macondes e macuas acumuladas em dois anos, para serem despachados de barco. Apanham o avião e dizem adeus a Moçambique. Trazem, escreve Cavaco, "uma paixão por aquelas terras e aquelas gentes que ainda hoje perdura".

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