O passo lento da extinção

Alerta. O arquipélago da Madeira é uma das regiões do mundo com maior diversidade de moluscos terrestres. Mas, de acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), 67 espécies de caracóis, muitas das quais endémicas, estão em vias de extinção

A maior ameaça é a intervenção do Homem

Para a bióloga Cristina Abreu, investigadora do Centro de Estudos da Macaronésia (que engloba as regiões autónomas da Madeira, Açores, Canárias, mas também Cabo Verde), não foi surpresa que 67 espécies de caracóis das ilhas fossem consideradas em vias de extinção na edição de 2008 da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Algumas já integravam a lista vermelha há muito tempo.

"Do ponto de vista geral o arquipélago da Madeira é das regiões do mundo com mais diversidade de moluscos terrestres por unidade de área. Porto Santo é a ilha que encerra a maior diversidade", explicou ao DN a bióloga madeirense, que, no âmbito do seu doutoramento, estuda os caracóis da ilha do Porto Santo e dos ilhéus que a circunda, realizando, assim, o seu mapeamento e identificação.

O alerta da UICN foi mais um alerta importante que veio pôr a nu todos os problemas na sobrevivência de uma espécie cujo interesse científico aumenta, sobretudo na farmacologia e cosmética. A presença e intervenção do Homem, com a rápida perda de habitats, é mais trágica para as espécies de caracóis do que as alterações climáticas ou as causas naturais.

"Não podemos viver sem caracóis. A vida está organizada em ecossistemas, os ecossistemas para funcionarem têm de estar em equilíbrio. Os caracóis fazem parte das cadeias elementares, o seu desaparecimento vai alterar esse equilíbrio", diz.

Nas ilhas esta espécie não entra nos hábitos gastronómicos, portanto, não tem papel económico. O levantamento cartográfico, o seu mapeamento, quer em termos de quantidade e distribuição tem ainda o objectivo de chamar a atenção das autarquias e do governo. Mas não será tarefa fácil.

"Recorde-se, por exemplo, que a área do Porto Santo é inferior a 45 km2. É óbvio que a presença humana exerce uma pressão sobre estas comunidades", reiterou. Nesta ilha, protegem-se do calor e luz excessivos, "que lhes provoca uma grande desidratação", razão por que se resguardam por debaixo das pedras, nas fendas da rocha ou raízes das plantas onde é possível, também, encontrar várias espécies de aranhas que se alimentam deste molusco. Os caracóis têm um período de resistência grande, são capazes de estivar "quando as condições não são as mais favoráveis, segregam um película e fixam-se num suporte".

Para a bióloga Cristina Abreu, são os países estrangeiros que demonstram maior interesse na investigação, sobretudo a Inglaterra (Museu de História Natural, Museu de Gales, entre outros), França (Museu de História Natural de Paris), Alemanha e nos Estados Unidos (Museu de História Natural de Filadélfia).

Em Portugal não há muita pessoas e instituições a fazê-lo, excepção para as universidades de Coimbra e de Lisboa. Contudo, há um grupo muito grande coleccionadores que envolve já a questão económica e monetária, as trocas, as compras e as vendas.

É, aliás, no Museu de História Natural de Londres que se encontra depositada a grande colecção de referência dos moluscos terrestres da Madeira. No passado, naturalistas e todos quantos se interessavam por estas áreas da ciência, eram ingleses que se deslocavam às ilhas, transportando para o país de origem as espécies recolhidas de tal forma que algumas chegaram aos EUA (Museu de História Natural de Filadélfia).

"Provavelmente Londres não é o sítio ideal mas a colecção está muito bem conservada. Hoje é mais difícil levar colecções da ilha, embora o controlo ainda não esteja automizado como deveria estar", disse ao DN Cristina Abreu.

Na Madeira, em termos de acervo, o que existe é um pequeno depósito de moluscos no Museu Municipal do Funchal.

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