O britânico que admirava Mussolini e o amigo Hitler

A História é sempre escrita pelos vencedores e, actualmente, é difícil entender como alguém pode ter sido fascista na década de 30. Afinal, como se poderia defender ideias que terão entusiasmado o filósofo Martin Heidegger, o poeta Ezra Pound e o compositor Carl Orff ? Esse "espírito do tempo" terá influenciado também sir Oswald Mosley (1896-1980), o pai de Max Mosley, que se tornou agora famoso pelas piores razões - o presidente da Federação Internacional Automóvel (FIA) esteve envolvido numa orgia sado-masoquista num ambiente nazi.

O 6.º barão de Ancot; o mais jovem deputado da Câmara dos Comuns, quando foi eleito pelo Partido Conservador em 1918; o ex-ministro do governo trabalhista de Ramsay MacDonald; o dissidente do Partido Trabalhista ao ver o seu Memorando Mosley (preconizava medidas proteccionistas para enfrentar o problema dos 2,5 milhões de desempregados) não ser aprovado no congresso de 1930; o criador do New Party, no ano seguinte, seria recebido em Roma, em Janeiro de 1932, por Benito Mussolini.

A Europa dos anos 30 estava longe de elogiar a democracia - do Portugal de Salazar à Roménia de Goga, da Espanha de Franco à Hungria de Horthy, da Grécia de Metaxas à Polónia de Pilsudski, da Turquia de Ataturk à Áustria de Dollfuss. E é neste contexto que, a 1 de Outubro de 1932, Oswald Mosley fundou o British Union of Fascists (BUF), moldado no figurino mussoliniano.

Nacionalista, anticomunista e anti-sionista - convém lembrar que o holocausto nazi, com a brutalidade da execução em massa dos judeus, permitiu lavar a consciência do anti-semitismo anterior, que lavrava da Rússia à França -, o BUF adoptou as camisas negras como uniforme e defendeu a substituição da democracia parlamentar pelo sistema corporativo, chegando a ter entre 40 a 50 mil militantes.

O culto da força, com demonstração prática nas manifestações de rua e nos confrontos violentos com comunistas (o principal terá ocorrido em Londres, a 9 de Setembro de 1934) e com judeus (ficou célebre a marcha que terminou na batalha de Cable Street, a 12 de Outubro de 1936), terá sido fatal para a difusão das suas ideias num país com uma democracia de séculos e uma tradição de tolerância. E o cada vez maior alinhamento com o Partido Nazi alemão também começou a incomodar os aderentes da classe média, acabando por se reflectir no decréscimo de militantes e simpatizantes.

O segundo casamento do barão Mosley, com Diana Mitford (a mãe do presidente da FIA), em 1936, teve como cenário a casa de Josef Goebbels em Berlim - e, entre os convidados, estava o seu amigo Adolf Hitler. De resto, Oswald também era amigo de Eduardo VIII, o rei que abdicou a 10 de Dezembro de 1936 para se casar com a americana Wallis Simpson - outro casal sobre o qual recaía a suspeita de terem simpatias nazis.

Mesmo assim, e além dos inúmeros comícios que promovia, ao ponto de Mosley chegar a falar em público 200 vezes num ano, o BUF ainda obteve uma boa votação, nas eleições municipais de 1937, na zona leste de Londres.

Entretanto, os fascistas ingleses começaram a fazer grandes campanhas pacifistas, ao ponto do BUF lançar a brochura The British Peace: How To Get It, com uma tiragem de 100 mil exemplares, em Janeiro de 1940 - quatro meses depois da invasão da Polónia! -, de Churchill ser recebido em Manchester, nesse mês, aos gritos "viva Mosley!", "viva a paz!" e do partido organizar, em Abril, cem comícios contra a guerra.

Ao contrário do que sucedeu, por exemplo, em França, onde o partido fascista foi ilegalizado em 1936, o BUF só seria proibido em Maio de 1940, depois de Mosley, a mulher e outros 800 fascistas serem presos. Em Novembro de 1943, os pais do presidente da FIA (que nunca seriam julgados) ficavam em prisão domiciliária.

Os Mosley mudaram-se para França nos anos 50. Oswald ainda esteve ligado à criação do Movimento Social Europeu (Malmoe, 1951) e, em 1962, fundou o Partido Nacional Europeu, em Veneza. Actualmente, além do grupo chamado os Amigos de Oswald Mosley, aquela figura permanece quase só como fonte de inspiração de escritores - foi assim que P. G. Wodehouse criou o "ditador amador" Roderick Spode. Felizmente, a História é escrita pelos vencedores. |

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