Mineiros da Urgeiriça continuam a morrer

Ontem foi o funeral de antigo mineiro de 60 anos

Os antigos mineiros da Urgeiriça, a mina de Canas de Senhorim em Nelas que até 2001 explorou urânio, não escondem a revolta pelo "desprezo" a que foram votados pelo Estado. Desde que as minas encerraram, em 2001, já morreu mais de uma centena de mineiros. Ontem foi sepultado um homem de 60 anos que, depois de afastado da mina, lá regressou para preparar a venda de 127 toneladas de urânio à Alemanha. Ficou doente em 2006, com cancro do pulmão, morreu na terça-feira. A revolta dos mineiros perante mais uma morte já garantiu as energias para mais um protesto, na próxima segunda-feira, quando forem inauguradas as obras de requalificação ambiental.

Alexandrino Henrique residia em Fundões, no concelho de Mangualde. "Cedo fez o que todos queríamos. Uma vida melhor e naquela altura eram as entranhas da terra que nos punham a comida na boca. E ele e muitos de nós lá fomos para o urânio", conta Carlos Gomes antigo trabalhador da extinta Empresa Nacional de Urânio (ENU), que explorava as minas da Urgeiriça e colega do último mineiro a morrer.

Aos 60 anos Alexandrino "já sabia que estava doente. Foi em 2006 que lhe diagnosticaram cancro no pulmão e andava em tratamentos", revela Norberto Albuquerque presidente da freguesia de Santiago de Cassurrães, Mangualde, "terra que deu muitos trabalhadores à ENU". Alexandrino sentiu-se mal "na terça-feira. Chamou a mulher que não se estava a sentir bem. Começou a deitar sangue pela boca e quando chegou a ambulância já estava morto", conta o autarca. Na pequena aldeia de Fundões, onde todos o conheciam, ficam a viúva e os nove filhos.

O funeral realizou-se ontem e os mineiros não calam a revolta. "O Estado não quer saber de nós. Parece que temos peçonha e ignora-nos. Para uns, reformas de milhões, outros, que deram duro e ficaram doentes nem tostões", disse Manuel Santos, outro trabalhador do fundo da mina.

É nos funerais e nos plenários que os antigos mineiros agora se encontram. "Muitos estão doentes, outros não podem sequer olhar para a mina e só nos encontramos em alturas destas", adianta Gomes.

Carlos Minhoto, porta-voz e rosto visível da luta silenciosa dos 400 mineiros que ainda restam afirma que "desde que a mina encerrou já morreu mais de uma centena de mineiros". Foi o caso de Alexandrino que "aposentou-se em 2001 mas em 2004 foi chamado para transferir de uns bidões o urânio que Portugal vendeu à Alemanha. Urânio pronto a utilizar e de alta radioactividade. Dois anos depois disso ficou doente e o Estado que recebeu muitos milhões deste minério não quer saber de nós", adianta o porta-voz.

A luta dos mineiros prende-se com a equiparação de todos a trabalhadores de fundo de mina, porque muitos não tinham vínculo à ENU, e ao pagamento de indemnizações aos familiares dos que morreram de doenças provocadas pela radioactividade, facto já provado pelo Instituto Ricardo Jorge.

Os mineiros são hoje homens carcomidos pela idade, pela silicose [ doença pulmonar causada pela inalação de partículas, vapores ou gases nocivos no ambiente de trabalho]. Gastos e sem energias só se reúnem nos plenários e nos funerais dos colegas.

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