Jornal espanhol cita polícias de ficção como sendo verdadeiros

"Não podemos nunca perder a nossa intuição de polícias, caraças! Temos de continuar a ser manhosos... não somos noruegueses nem finlandeses, caraças! Somos portugas, e o bófia português desenrasca-se, improvisa, acredita na intuição (...) A malta fuma, gosta de comer e de beber uns copos. E depois?" A citação é de um texto publicado na edição de domingo do diário espanhol El Mundo, na secção "Crónica", e é atribuída ao "chefe João Tavares", identificado como um dos membros do "team Maddie"da divisão de Portimão da Polícia Judiciária, falando com "o inspector Francisco Meireles". "Quando esta conversa ocorre", lê-se, "já fazem cinco meses que Madeleine McCann desapareceu". É a noite de 2 de Outubro, o dia em que Gonçalo Amaral foi afastado da investigação. "Foi afastado", prossegue o texto, "por culpa desses ingleses que comem alface e que tentam proteger os McCann: Porque Amaral, Tavares, Meireles e todo o grupo da Polícia Judiciária de Portimão estão convencidos de que o casal é culpado".

"Amaral, Tavares, Meireles": os três nomes de polícias que o jornalista Aníbal Malvar, 43 anos, no El Mundo há 13, cita no texto de duas páginas como fazendo parte do "grupo da Polícia Judiciária de Portimão" confundem quem seguiu o caso: é que, se toda a gente sabe quem é Gonçalo Amaral, ninguém ouviu falar de João Tavares e de Francisco Meireles. Editores pedem aos jornalistas no terreno que tentem identificar estes dois agentes, com aparentemente tanto para dizer sobre o caso que sábado faz um ano. O mistério depressa se desfaz: Tavares e Meireles só existem como personagens do livro A Estrela de Maddie, que o ex-inspector da Polícia Judiciária Paulo Pereira Cristóvão publicou em Março. Malvar, por acaso, até menciona o livro e o seu autor, descrevendo a "teoria" que lhe subjaz - e que coincide com a que, frisa, é defendida pelo "grupo" de Gonçalo Amaral: a criança morreu e o seu corpo foi feito desaparecer pelos pais, eventualmente com ajuda dos amigos. Mas o jornalista espanhol esquece-se de referir o pequeno pormenor de estar a citar falas retiradas de um livro, falas de personagens de ficcão.

Um "erro" que acaba por admitir ao DN: "Julgava tê-los identificado como personagens do livro". Mas, garante, "estes homens existem, não são personagens literárias apesar de evidentemente não existirem com este nome". Malvar baseia esta certeza no facto de "o livro ter sido escrito por um ex-inspector da Judiciária, com fontes directas na investigação. Claro que o Paulo Cristóvão não está a fazer um livro de ficção".

O autor da obra, que afirma nunca ter falado com o jornalista espanhol até ontem, quando este lhe ligou "perguntando se o que estava no livro é tudo factual ou se é um livro de ficção", diz ter ficado "completamente espantado ao ver, num artigo de um jornal credível, apresentados como polícias reais, como se de pessoas reais se tratasse", personagens que criou, "e ler citadas frases delas, como se o jornalista as tivesse ouvido ou alguém lhas tivesse contado." Achou "vergonhoso" (ver entrevista ao lado), mas, assume, "a dado momento do diálogo com o jornalista passei do espanto à pena. Porque fiquei com a ideia de que não havia maldade, só vontade de fazer um brilharete." Além disso, Cristóvão acha que Aníbal Malvar "quis defender a polícia portuguesa" e até "diz bem de Gonçalo Amaral".

De facto, na sua prosa Malvar inclui a descrição de um encontro com Amaral, o inspector afastado (que agora pediu a reforma e anuncia um livro), e do qual reproduz declarações, incluindo uma descrição de Kate McCann como "uma actriz, fria, esperta". Encontro e declarações em relação aos quais Amaral tinha pedido reserva ao jornalista, solicitando--lhe que atribuísse a entrevista a "fontes" - está dito no texto - mas que este entendeu agora revelar. Porque, explica, o polícia já pediu a reforma. Malvar, que diz subscrever "a tese de Amaral" no que respeita ao caso, não vê na exposição do ex-inspector qualquer falta deontológica, apesar de não a ter discutido com ele. Quanto a Tavares e Meireles, penitencia-se: "Quis defender a polícia portuguesa e usar uma referência literária, à qual dou toda a credibilidade. Foi um erro de redacção. Peço desculpa por ter escrito mal o artigo."|

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