Sucesso à base da guerra aos poderosos

Pinto da Costa tinha feito três anos há apenas um dia quando, a 29 de Dezembro de 1940, o FC Porto perdeu no Lumiar com o Sporting por 5-1, assinalando com um mau resultado o primeiro passo na frustrada tentativa de conquista daquele que, até muito recentemente, foi o grande sonho do clube: o tricampeonato nacional de futebol. Os tempos eram difíceis para o emblema azul e branco, porque a recuperação da colectividade, feita por um homem que bem podia ser considerado ao mesmo tempo antecessor e inspirador da acção do actual presidente, assentava na guerra sem quartel aos poderes de Lisboa, corporizados por Benfica, Sporting e Belenenses. E Ângelo César, na altura líder do FC Porto, foi mesmo irradiado antes de ver a equipa azul e branca perder para os leões aquele que seria o seu terceiro campeonato consecutivo.

O tricampeonato que o FC Porto vai conquistar esta época, com ou sem efeitos do Apito Dourado, é o segundo na história do clube, depois daquele ganho entre 1994 e 1997 - que se prolongaria até se transformar em "penta" em 1999. Mas em outras tantas ocasiões os "dragões" estiveram à beira de o garantir (entre 1938 e 1941 e entre 1977 e 1980), sempre com um duro antagonismo com a capital a servir-lhes de estratégia e com alianças mais ou menos evidentes entre os clubes de Lisboa para os contrariar. O auge desta política de confronto foi mesmo a final da Taça de Portugal de 1980, quando depois de perder aquele que também seria o seu terceiro título nacional consecutivo para o Sporting, o FC Porto viu os adeptos leoninos unirem-se aos benfiquistas para o apoio à equipa de Mário Wilson no jogo do Jamor, ganho pelo Benfica por 1-0. Na altura, Pedroto e Pinto da Costa não resistiram à erosão e foram forçados a sair.

A história do primeiro quase-tri do FC Porto começa em Setembro de 1938, numa grave crise financeira. Para acabar com ela chega à presidência Ângelo César, que começa por tomar medidas de austeridade - revê salários em baixa, perde jogadores, acaba com os prémios no regional, limita os do Nacional às vitórias e passa a promover o regresso da equipa ao Norte logo após os jogos em Lisboa, dessa forma evitando ter de pagar mais uma noite de hotel. Mas o FC Porto foi na mesma campeão regional e, em Janeiro de 1939, ganhou na primeira jornada do Nacional, ao Sporting, campeão de Lisboa. E chegou ao último dia com dois pontos de avanço sobre os dois rivais de Lisboa. O calendário ditava para esse 23 de Abril um FC Porto-Benfica na Constituição, com os portistas a precisarem de empatar e o Benfica a ter de ganhar. Empataram, mas os jornais de Lisboa acusaram o árbitro de anular um golo legal aos encarnados no último minuto.

Estava incendiado o rastilho que levaria a um ano de guerras. Logo após o jogo, o Benfica cortou relações com o FC Porto. E em Junho, depois de ganhar por 6-1 aos encarnados na primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal, o FC Porto cedeu em Lisboa, onde dos 60' aos 75' deixou que o resultado se ampliasse de 2-0 para uns catastróficos 6-0. Nessa altura, incitados pelo presidente, os jogadores abandonaram o campo. O ambiente era de grande efervescência e, no campeonato regional que se seguiu às férias, isso viu-se. Cinco jogadores portistas foram expulsos e um lesionou-se num jogo com o Académico, levando o árbitro a dar a partida por terminada aos 43 minutos e a punir os azuis e brancos com uma derrota. O FC Porto protestou, a associação ordenou a repetição da partida, na qual os campeões ganharam por 1-0, assegurando a revalidação do título. Só que a Federação Portuguesa de Futebol anulou a decisão e voltou a tirar os pontos ao FC Porto, que assim caía para a terceira posição e não se qualificava sequer para disputar o Nacional. Foi preciso alargar a prova para doze equipas para que os campeões pudessem iniciar um campeonato de amplo domínio: ganharam 17 dos 18 jogos, perdendo apenas com o Sporting, a asseguraram o título com dois pontos de avanço sobre os leões, ganhando na última jornada ao Benfica.

O pior estava, contudo, para vir: na sequência das suas acções no abandono de campo na Taça de Portugal, das suas palavras acerca do jogo com o Académico no regional e das acusações à FPF de favorecer os clubes de Lisboa, o presidente Ângelo César foi irradiado. Sucedeu-lhe Augusto Pires de Lima, figura-grada do regime. E, embora tenha recuperado o título regional, o FC Porto viu a perseguição ao tri nacional esbarrar em derrotas com o Sporting e o Benfica. Os leões ganharam o campeonato e o FC Porto entrou numa travessia do deserto - dois títulos nacionais entre 1941 e 1977 - de que só Pinto da Costa e Pedroto o haveriam de resgatar.

Foi quando o então director do departamento de futebol e o treinador se decidiram a acabar com o trauma que levava a equipa a perder assim que passava a ponte sobre o Douro e abriram guerra aos poderes de Lisboa, focalizando atenções no inimigo exterior e na contestação às arbitragens - inventando expressões como o "roubo de igreja". "O critério de nomeação dos árbitros, se não é uma palhaçada, é o quê?", disparava Pinto da Costa no Verão de 1977, antes de um campeonato disputadíssimo, ganho ao Benfica de Mortimore - que não perdeu um único jogo - graças a uma melhor diferença de golos. E como 1978/79 voltou a premiar o FC Porto, desta vez campeão com um ponto de avanço sobre o Benfica, o clube voltou a tentar o tri-campeonato em 1979/80.

Os portistas andaram muito tempo na frente e, a quatro jornadas do fim, empataram a uma bola em casa com o Sporting (graças a um penalti muito discutido pelos leões, a 15 minutos do fim), mantendo um ponto de avanço sobre os leões. Nessa altura, convencidos de que o título não fugiria, mandaram fazer relógios e T-Shirts a celebrar o tri-campeonato. Saíram-lhe furadas as contas. Na antepenúltima jornada, a equipa de Pedroto não foi além de um empate na Póvoa de Varzim, cedendo a liderança devido à vitória do Sporting sobre o Beira Mar. E na semana seguinte, a deslocação dos leões a Guimarães, na qual Pedroto depositava tanta esperança, acabou com vitória lisboeta por 1-0, graças ao já famoso autogolo de Manaca. Ganhando à U. Leiria na última jornada, o Sporting voltou a frustrar a conquista do tri que o FC Porto só haveria de obter em 1997, depois da saída de Pinto da Costa e do seu regresso, como presidente. Mas sempre com a mesma estratégia.|

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