Portas e Guedes: como o poder separou dois amigos íntimos

Cisão. Ex-vice de Portas em ruptura com o líder

As pessoas aborrecem-se umas com as outras, implicam, têm amuos, olhares diferentes sobre a mesma coisa, zangam-se, reconciliam-se, zangam-se outra vez, têm susceptibilidades. Como a política é feita por pessoas, estas cenas são recorrentes na política: a recente ruptura entre Luís Nobre Guedes e Paulo Portas tem um pouco disto tudo, agravado por estarem em causa dois homens que foram amigos muito próximos até há pouco tempo.

Mas a ruptura Nobre Guedes- Paulo Portas não é de ontem. Quando regressou à liderança do CDS, depois da derrota de Ribeiro e Castro, Paulo Portas convidou Nobre Guedes para a vice-presidência do partido, um cargo em que Nobre Guedes praticamente não chegou a ocupar. [A demissão do seu ex-vice-presidente, que foi mantida por Portas clandestina durante quase um ano, foi uma das curiosidades políticas dos últimos tempos].

Mas se Paulo Portas convida Nobre Guedes e Nobre Guedes ainda aceita integrar a direcção saída do congresso da Primavera de 2007, a verdade é que a relação entre os dois já não é a mesma desde 2005, quando Nobre Guedes rejeita continuar ao lado do portismo - que se juntou em torno da candidatura de Telmo Correia - e declara o seu apoio à via renovadora de Ribeiro e Castro que, contra todas as previsões dos observadores políticos, sai vencedora do Congresso. Ao apoiar Ribeiro e Castro, Luís Nobre Guedes "trai" a religião portista e tenta um caminho autónomo. Depois disso, nada será como dantes. O anúncio de uma moção que defendia uma ruptura estratégica com o que defende Paulo Portas seria a "machadada final" - que Nobre Guedes não assume, aliás, afirmando querer "ajudar Portas" - e põe o portismo a tocar a reunir. Nobre Guedes (que não tem aparelho) não consegue ser eleito delegado.

É o fim simbólico de uma amizade antiquíssima, sedimentada na construção de O Independente, o jornal que Paulo Portas dirigia e Luís Nobre Guedes administrava.

Em 1988, quando o jornal é criado, Portas é o artífice jornalístico e Guedes o artífice empresarial. É Nobre Guedes que monta a estrutura financeira, contacta potenciais accionistas e é no primeiro número o presidente do Conselho de Administra- ção, antes de Paes do Amaral assumir em 1994. Mas mantém-se como advogado do jornal.

Em todas as lutas internas de O Independente estão sempre do mesmo lado. Quando o jornal catapulta Manuel Monteiro para a liderança do CDS, é por decisão comum. Uma amizade muito estreita convive com a total sintonia política. Em 1995, Portas decide abandonar o jornalismo e candidata-se a deputado por Aveiro. Nobre Guedes é cabeça-de-lista por Lisboa. A seguir, estão juntos no derrube de Manuel Monteiro e na ascensão de Portas a líder. Depois da "logística" de O Independente, é Nobre Guedes que trata da "logística" do Congresso de Braga. Agora, acabou.|

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