OUTROS TEMPOS COM OUTROS AEROPORTOS

Os meus pais são do tempo em que ainda havia dois aeroportos em Lisboa: o da Portela, terrestre, e o de Cabo Ruivo, marítimo (actual Doca dos Olivais, está lá hoje instalado o Oceanário), para receber os hidroaviões que viajavam da América e para lá.

Os aeroportos foram inaugurados no princípio dos anos 40, e para os ligar com rapidez construiu- -se a então baptizada Avenida Entre-Aeroportos, hoje Avenida de Berlim. Quem vinha do continente americano de hidroavião num voo transatlântico, amarava em Cabo Ruivo. Se seguisse para um destino na Europa, era levado de carro para a Portela pela Avenida Entre-Aeroportos, e lá apanhava o respectivo avião. As pessoas que rumassem à América, faziam o percurso contrário. Lisboa ainda recebeu várias estrelas de cinema e artistas vindas das américas naqueles hidroaviões que hoje só se vêem nos filmes e nas actualidades desse tempo. E tinham um glamour enorme.

Em 1945, caiu um nevão enorme em Lisboa e arredores, tão intenso que as fontes e bicas da cidade gelaram e houve quem conseguisse fazer ski em certas zonas. Os aeroportos de Cabo Ruivo e da Portela ficaram praticamente paralisados. Há fotos desse tempo que mostram os hidroaviões estacionados no Tejo, cobertos de branco, sob um céu de chumbo, e a pista da Portela completamente nevada, com muitos aviões parados e uma cortina de nevoeiro que não deixa ver nada a alguns metros de distância. (Se fosse hoje, de certeza que punham a culpa no aquecimento global.)

Quando eu nasci, estava o Aeroporto de Cabo Ruivo a ser fechado , e por isso nunca o cheguei a ver, com grande pena minha. Ah, aqueles hidroaviões que os aviões a jacto e as carreiras intercontinentais mandaram para o museu! Mas ainda sou do tempo em que não se ia ao Aeroporto da Portela só para viajar, mas também para passear.

Ir "até ao aeroporto" era, na minha infância do início dos anos 60, uma das alternativas ao chamado "passeio dos tristes" lisboeta. A Portela fazia as vezes de café, passeio público e observatório informal de aviões. Era "fino" vê-los partir e chegar de sítios que pouca gente podia visitar nessa altura.

Recordo-me de estar num carro com os meus avós e os meus pais, atravessar uma Lisboa ainda com pouco trânsito, estacionar na Portela, subir ao terraço onde havia uma esplanada e estar lá com a família, a beber Sumol e a olhar para os aviões que descolavam e aterravam. Havia gente que ficava tempos infinitos a conversar e beber bicas e águas, e a pasmar para o movimento aéreo. E como os preços da esplanada não eram brincadeira, as pessoas sentiam-se num lugar exclusivo.

Mais tarde, tive um colega de escola cujo pai desenhava muito bem, e era louco por aviões. Nos dias bonitos dos fins-de-semana, o senhor costumava apanhar um táxi, rumar à Portela e passar horas perdidas no terraço, a esboçar e desenhar aparelhos num grande bloco de folhas brancas. Um antecessor artístico dos planespotters.

Um aeroporto novo em folha e todo modernaço em Alcochete terá sem dúvida muitas vantagens, mas já não dá para ir para lá flanar, tomar café e águas, mirar os aviões e desenhá-los nas calmas. |

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