Os 'primeiros' trinta anos de vida dos UHF

UHF e Xutos são sobreviventes do 'rock português'

Trinta anos de carreira, trinta anos a ver nascer e crescer um panorama que quase não tinha bandas de rock'n'roll. Os UHF comemoram o seu trigésimo aniversário com um concerto especial na Aula Magna, que é, igualmente, o ponto de partida para nova digressão pelo País.

No princípio, "tudo era uma novidade", assume o líder de sempre António Manuel Ribeiro. "Havia uma grande vontade de fazer música nossa e diferente e um grande inconformismo pelo que era o panorama musical de então, nos finais de 70", lembra. A música era "a hipótese de manter a aventura nas vidas certinhas", explica também.

De um panorama que era então feito de "grupos de baile, pequenas orquestras ligeiras e uns betinhos que tinham dinheiro para comprar aparelhagem e lá gravavam um disquito com os amigos", nasceu então um novo circuito, o do rock. Tal como outras bandas da época como Aqui D'El Rock, Faíscas e Xutos & Pontapés (estes os únicos resistentes), também os UHF contribuíram para o crescimento de um meio que era musicalmente incompleto. "Mudou tudo, estúdios, produtores, técnicos, empresas de som (fundámos a primeira), carregadores, palcos, promoção, fotografia", recorda. António Manuel Ribeiro não tem quaisquer problemas em defender que "a indústria discográfica e musical chegou então a Portugal".

Embora a paternidade do rock português seja atribuída a Rui Veloso, graças ao eterno Chico Fininho, a grande rivalidade da época passava--se entre Táxi e UHF. António Manuel Ribeiro lembra que o "duelo" era "bom para a indústria porque fazia vender discos". E vai mais longe ao referir que "muitas vezes os álbuns saíam com poucos meses de diferença, o que originava uma competição muito grande". Mas como o tempo cura todas as feridas, hoje António Manuel Ribeiro e os ex-músicos dos Táxi "são grandes amigos".

Agora são os UHF. No próximo, os Xutos & Pontapés também serão trintões. As duas bandas comemoram 30 primaveras e ambos desenharam um percurso semelhante, embora com diferenças substanciais. "Nós emprestámos o PA (aparelhagem) e instrumentos para os Xutos gravarem o primeiro álbum. Sempre gostámos de ajudar bandas." Todavia, António Manuel Ribeiro recusa comparações "até porque o sucesso dos Xutos & Pontapés surge bastante mais tarde, em 1987". Por outro lado, os UHF "deixaram de falar para um público mais jovem", o que foi uma "opção assumida".

Um dos grandes erros durante o seu percurso "foi a saída da Valentim de Carvalho (VC)" logo após o êxito dos singlesCavalos de Corrida e Rua do Carmo, ambos incluídos no álbum À Flor da Pele. " Foi uma questão de egos, entre nós e os chefes da VC: eu e eles tínhamos a mesma idade." Sem pruridos, "foi o maior erro da vida dos UHF". A vida continuou e os UHF mudaram muito. "Tornámo- -nos músicos a sério, até então era apenas um sonho que estávamos a viver." O álcool e as drogas passaram a fazer parte do quotidiano da banda e o cara do grupo não tem pejo em esclarecer que "a meio dos anos 80 havia músicos e técnicos a enriquecerem dealers".

Muitas formações mais tarde, pai e filho encontraram-se. António Corte-Real entrou para os UHF, mas o seu criador prefere dizer que "é o guitarrista" e relata ainda pontuais "situações de choque".

Tudo isto e muito mais para revisitar hoje na Aula Magna.

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