FOI UM JESUÍTA BEIRÃO QUE TRADUZIU CONFÚCIO

Entre as línguas que fala Adolfo Nicolás está o japonês. O espanhol, de 71 anos, eleito sábado superior-geral dos jesuítas, passou quase toda a vida no Oriente, entre Tóquio e Manila, e chegou a supervisionar a congregação em Timor. A sua biografia encaixa assim na perfeição na história da Companhia de Jesus, fundada em 1540 por outro espanhol, Inácio de Loyola, e que levou o catolicismo ao mundo, da América do Sul (recordam-se de A Missão, com Robert de Niro?) até África, mas com especial impacto na Ásia, sobretudo China e Japão. Nesses países, os jesuítas foram aliados da expansão portuguesa, mesmo quando eram espanhóis, como Francisco Xavier, ou italianos, caso de Matteo Ricci. Foram também promotores da ciência (Ricci trabalhou como matemático na corte de Pequim) e pioneiros no diálogo entre civilizações, traduzindo os clássicos orientais ou elaborando dicionários das línguas asiáticas.

Agentes por excelência da geopolítica papal, os jesuítas ganharam um estatuto de elite entre os sacerdotes católicos e de fazedores de elites entre os leigos. São reputadas as escolas e universidades que gerem. E o seu amor ao conhecimento, e a identificação com os pobres, levou-os mesmo a entrarem em choque com João Paulo II. O papa oriundo da Polónia comunista nunca aceitou que entre os jesuítas houvesse quem sentisse atracção pelo marxismo, sobretudo pela Teologia da Libertação latino-americana.

Dos 19 mil jesuítas que hoje existem, calcula-se que 170 vivam em Portugal. Muitos são professores, alguns cientistas, todos em regra homens de cultura tanto como de fé. E a ligação ao Extremo Oriente mantém-se viva, sobretudo através de Macau. Não é preciso recuar cinco séculos para descobrir um jesuíta como Joaquim Guerra, já falecido, que de uma aldeia da Beira Baixa chamada Lavacolhos partiu em 1933 para a China, onde foi depois perseguido pelos comunistas. Mesmo assim teve fôlego para traduzir os Analecto, de Confúcio, e criar um sistema de romanização do chinês para o português. Este último nunca se impôs, e só por isso ainda hesitamos entre seguir os britânicos Wade e Gilles escrevendo Mao Tsé-Tung ou o sistema Pinyin da República Popular da China e grafar Mao Zedong quando falamos do homem que liderou a Revolução Comunista (e perseguiu Joaquim Guerra, S. J.).

Fala-se de crise na Companhia de Jesus e o seu número de membros está em quebra. A própria resignação do holandês Hans-Peter Kolvenbach, ao chegar aos 80 anos, foi inédita. Mas mais do que da relação de Adolfo Nicolás com Bento XVI, o futuro da congregação depende da qualidade intelectual dos homens que ao nome acrescentam o S. J. de "Societas Jesu". E de certeza que entre eles há herdeiros de Ricci ou Guerra.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG