Deputado queria usar título de 'dom'

D. Duarte Pio de Bragança estranha a polémica gerada com a publicação do livro O Usurpador - o poder sem pudor, da autoria de Nuno da Câmara Pereira", já que a tese defendida não fará sentido para o herdeiro presuntivo do trono português: "Tanto o actual duque de Loulé, como o senhor seu pai, pediram-me para usar os títulos e, se o fizeram, é porque me reconhecem toda a legitimidade, porque a questão nem se põe", diz D. Duarte Pio ao DN.

O duque de Bragança e Chefe da Casa Real Portuguesa diz não perceber "porque surge agora esta questão" e até adianta que conhece há muito tempo o autor, com chegou a ter uma boa relação. "Sempre me dei muito bem com o senhor e com a família, mas a dada altura parece que ficou revoltado com qualquer coisa", diz D. Duarte Pio. Fontes monárquicas conhecedoras do processo enquadram estas palavras do duque de Bragança: "O que se passa é que o autor desse livro pediu autorização ao D. Duarte para usar o título de 'dom' e ele remeteu o assunto para o Conselho da Nobreza, entretanto extinto, e que indeferiu o pedido. A partir daí, tornou-se seu inimigo".

O Chefe da Casa Real Portuguesa é também pouco entusiasta da actuação do PPM nos últimos tempos, preferindo sempre referir, como fez em declarações ao DN, que "politicamente, os monárquicos estão divididos por opções muito variadas, uns estão no Partido da Terra, outros no CDS, no PSD e no PS, onde até há alguns que são deputados. Outros são simpatizantes do PCP e colaboram com as câmaras comunistas, a estes chama-se 'reais camaradas'..." Sobre o PPM, nem uma palavra.

Câmara Pereira confirma ter mantido uma relação de amizade de longos anos com D. Duarte. E diz-se até responsável por parte da popularidade de que goza o pretendente ao trono. "Trabalhámos em conjunto pela causa monárquica. Fui eu quem o revelou ao País em concertos que fiz na Aula Magna, em 1981 e 1982. Eu tinha na altura ganho o primeiro disco de platina da música portuguesa e antes de mim só a esquerda actuava na Aula Magna", recorda ao DN o líder do PPM, que também é fadista.

Câmara Pereira rejeita as alegações de D. Duarte embora confirmando ter endereçado uma carta ao Conselho de Nobreza -entretanto extinto - para que lhe fosse reconhecido "o direito inalienável" ao título de "Dom". Essa carta nunca obteve resposta, alega. "De qualquer modo, o título de 'Dom' foi outorgado à minha família por D. Vasco da Gama", acrescenta o deputado, que diz ter rompido com D. Duarte pelas "constantes críticas" feitas pelo duque de Bragança ao PPM, partido que lidera há três anos. "Ele dizia mal do PPM o tempo todo, o que eu não admiti." Da amizade à ruptura foi um curto passo - agora culminado no livro O Usurpador, de Câmara Pereira. O líder do PPM alega que o verdadeiro herdeiro da coroa portuguesa é D. Pedro de Mendoça, actual duque de Loulé, descendente da infanta D. Ana de Jesus Maria, a filha mais nova de D. João VI. Na sua óptica, D. Duarte não tem direito ao trono por descender de D. Miguel, o rei banido (ver texto em baixo).

Duarte Pio de Bragança é o 24.º Duque de Bragança e o herdeiro presuntivo do trono português. Foi (de 1945 a 1976) tratado por "Sua Alteza, o Príncipe da Beira" (Príncipe Real) e, desde a morte de seu pai (D. Duarte Nuno), por "Sua Alteza Real, o Duque de Bragança" e "Chefe da Casa Real Portuguesa". A sua legitimidade ao trono, sendo do ramo miguelista dos Braganças, ramifica no célebre (e também polémico) Pacto de Dover, assinado a 30 de Janeiro de 1912, entre D. Manuel II (último Rei de Portugal) e o seu primo D. Miguel II de Bragança. O pacto passava para o ramo "miguelista" o direito ao trono no caso de D. Manuel II não deixar descendência, o que veio a suceder. Câmara Pereira nega a validade deste pacto.|

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