"As pessoas que não apreciam a cozinha são mal-humoradas"

DALILA RODRIGUES, HISTORIADORA DE ARTE

"As pessoas que não apreciam a cozinha são mal-humoradas"

As palavras têm pressa em sair da boca de Dalila Rodrigues, a futura directora do Museu Paula Rego (Cascais), que detesta ser qualificada como "ex-directora do Museu Nacional de Arte Antiga". A sua saída de cena das Janelas Verdes foi tudo menos discreta, mas ela ficou bem na fotografia. Teve direito a vigília de apoio e a palavras simpáticas de Sócrates e Cavaco.

Dalila não gosta de falar deste passado, nem da sua passagem de cometa (seis meses) pelo Porto, como directora de marketing da Casa da Música, que vai deixar em Setembro para dar à luz uma outra casa, a das Histórias e dos Desenhos, de Paula Rego, que tem um pai (Souto Moura) e duas mães (ela e a artista).

Escolheu almoçar no Casa d'Oro (a sucursal portuense do lisboeta Casanova de Santa Apolónia), que tomou conta da casa em cima do rio Douro que Edgar Cardoso mandou fazer para instalar o seu estado-maior durante a construção da ponte da Arrábida.

Na hora de pedir não hesitou um segundo: Focaccia de azeite e alecrim ("adora ervas!") e a salada de rúcula com parmesão - sem o queijo, mas com azeite, vinagre balsâmico e manjericão. Sugeriu-me a Pizza Calabria. Acabamos a partilhar tudo - meio litro de branco da casa incluído, que só dois dias depois reparei que se esqueceram de adicionar à conta.

A alteração que fez à salada é um traço de carácter. Dalila é uma mulher muito afirmativa e "speedada", habituada a escolher o seu percurso, nada condescendente - não se ensaia em pedir o livro de reclamações - e que gosta de cozinhar. "Gosto de cozinha com memória, de identificar os aromas e os sabores. Cozinhar é o meu hobby. As pessoas que não apreciam a cozinha são mal-humoradas", declara.

Ela é bem-humorada. A prova dos nove da paixão pela vida é a maneira entusiasmada como lembra o dia em que foi ao Louvre ("o museu dos museus") e apresentou a "Virgem dos Rochedos", de Leonardo, à filha Rita (que acabou Arquitectura) ou descreve um "vinho tinto cantante" que acaba de descobrir.

Dalila é de uma aldeia beirã (Granja de Penedono), onde a família numerosa - são oito irmãos! - mantém a casa do avô, brasileiro de torna viagem. Estudou em Viseu e Coimbra - e deu nas vistas a dirigir a requalificação do Museu Grão Vasco, onde trabalhou com Souto Moura, que vai reencontrar no Museu de Paula Rego, depois de ter fracassado um projecto comum de ligar o Museu de Arte Antiga à marginal, através de uma passagem aérea por cima da 24 de Julho e do comboio.

Dalila não queria acreditar quando num sábado de manhã atendeu o telemóvel e a voz do outro lado se identificou como sendo Paula Rego. Manifestou-lhe a "profunda admiração" pelo "realismo satírico" da sua obra (ambas adoram Goya), antes de receber o convite para dirigir o museu em Cascais. "Fiquei cheia de orgulho."

Ao orgulho acrescentou o entusiasmo. Arrebatadoramente explica que o museu abre em 2009, não terá escadas, vai receber o arquivo pessoal da pintora, será um centro de investigação e, além de uma área de exposição (com cerca de 750 m2), terá um auditório, biblioteca, cafetaria, loja e jardins com árvores centenárias.

"Vai ser aquilo que a Paula Rego quiser. Um local vivido com um serviço educativo eficaz, não apenas virado para as crianças."

Pura fruição, entretenimento, liberdade e prazer foram as palavras que lhe vieram à cabeça quando lhe pedimos para descrever o projecto que lhe devolveu a energia de começar a trabalhar à hora em que chegam as mulheres da limpeza.

Dalila está ansiosa por voltar à sua casa na Lapa e deixar para trás o apartamento alugado, no Mercado da Foz (Porto), onde aproveitou a ausência de televisão para ler Sandor Marai ("As velas ardem até ao fim" e "Mulher Certa"). Anda como um sino com a perspectiva de gerir um projecto sem espartilhos jurídico-administrativos. Tão entusiasmada que até vai interromper por uma semana as férias de Agosto, em Castro Marim (que aproveitará para acabar de ler "Possessão", uma densa história de amor escrita por A. S. Byatt), para passar uma semana em Lisboa, com Paula Rego, a limar as últimas arestas do museu.|

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