A terrorista salva por Sarkozy

Perfil: Marina Petrella

França. Ex-membro das Brigadas Vermelhas, Marina Petrella, de 54 anos, foi agraciada por Nicolas Sarkozy e já não vai ser extraditada para Itália. A decisão do Presidente francês, aplaudida pelas irmãs Bruni, está a ser alvo de fortes críticas

A protecção dada pelos franceses a fugitivos italianos foi motivo de tensão ao longo de quase duas décadas, pois, de acordo com a doutrina Mitterrand, os membros das Brigadas Vermelhas que prometessem abandonar a violência poderiam viver tranquilamente em França. Essa legislação foi abandonada, em 2002, pelo Governo de direita da UMP, o que levaria à detenção, cinco anos mais tarde, da antiga terrorista italiana Marina Petrella. Nesse sentido, o que todos esperavam era a sua extradição, pois havia sido condenada, em Itália, a uma pena de prisão perpétua por crimes cometidos nos anos 70 e 80. Após ter subscrito a decisão judicial de a enviar de regresso, o chefe do Estado francês, Nicolas Sarkozy, voltou agora atrás e autorizou-a a permanecer em França. Na origem da mudança, dizem os media franceses, estarão as irmãs Carla e Valeria Bruni, embora o comunicado oficial do Eliseu refira razões estritamente humanitárias.

Carla Bruni-Sarkozy foi quem comunicou a Petrella que ela já não iria ser extraditada para o seu país de origem para cumprir pena perpétua. "Foi a minha mulher que lá foi, por uma razão simples, porque fui eu que lhe pedi para ir", declarou Sarkozy, citado pela AFP, antecipando-se a quaisquer críticas internas e externas. Valeria Bruni-Tedeschi, que já interpretou uma terrorista das Brigadas Vermelhas presa, no filme La Seconda Volta, em 1995, visitou a italiana várias vezes na prisão de Fresnes, para onde foi levada depois de ter sido detida numa operação Stop em Argenteuil. Fê-lo para poder dar um testemunho directo e pessoal, confessou à rádio Europe 1, transmitir o seu ponto de vista à irmã, para que esta pudesse, por sua vez, falar com o marido. "Eu penso que a morte dela seria uma coisa horrível", afirmou a actriz, referindo-se ao frágil estado de saúde de Petrella que, com 54 anos, pesa agora apenas 32 quilos. Carla e Valeria são filhas do compositor italiano Alberto Bruni-Tedeschi, o qual fugiu para França com a família, em 1973, precisamente para fugir às ameaças das Brigadas Vermelhas.

Este grupo armado de extrema-esquerda, que Petrella integrava, com o nome de código Virgínia, foi um dos principais responsáveis pelos anos de chumbo que ensanguentaram a Itália, principalmente pelo rapto e assassínio, em 1978, do líder democrata-cristão Aldo Moro. Petrella foi condenada, em Março de 1992, a pena de prisão perpétua, pelo homicídio de um inspector de polícia em Roma e pelo sequestro de um magistrado. A italiana conseguiu, no entanto, escapar de Itália, tendo-se refugiado em França, ao abrigo da doutrina instituída, em 1985, pelo presidente François Mitterrand. Aí criou as suas duas filhas, trabalhou como assistente social, sempre sem qualquer tipo de problema. Até ao dia em que foi apanhada numa operação de trânsito da polícia francesa. "[A revogação da extradição] foi um grande alívio porque as condições eram de tal ordem que esta era a única solução que permitiria à minha mãe recuperar", disse Elisa Novelli, filha mais velha de Petrella, com o ex-membro das Brigadas Vermelhas Luigi Novelli. "Agradeço às autoridades por terem compreendido a situação da minha mulher", afirmou, por sua vez, Hamed Merakchi, seu actual marido e pai da sua filha de 11 anos.

Mensagens de agradecimento que contrastam com as condenações dos familiares e das associações de vítimas do terrorismo e da actividade mafiosa em Itália.

Bruno Berardi, presidente da associação e filho de uma das muitas vítimas das Brigadas Vermelhas, decidiu entrar em greve de fome e convocar uma manifestação, em Paris, para dia 24. Sabina Rossa, filha do sindicalista Guido Rossa, assassinado em Janeiro de 1979, disse na rádio italiana que as razões humanitárias são inaceitáveis como justificação. Lembrando que o chefe do Estado italiano também tem poderes para perdoar condenados, Sabina denunciou a existência de diferentes visões sobre o terrorismo na UE, tecendo duras críticas à visão romântica que os franceses têm sobre os italianos.

"Tenho a sensação de que esta motivação [humanitária] não é sincera", afirmou o ministro italiano da Defesa, Ignazio La Russa, em entrevista ao La Stampa. Apesar de todas estas reacções, Sarkozy afirma que "não há incompreensão" em Itália, no que respeita à sua decisão de revogar a ordem de extradição de Petrella.

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