Um balenário milenar reconstruído em Lisboa

É a primeira vez que se faz uma coisa assim e já há arqueólogos e investigadores da Galiza e das Astúrias a organizarem excursões a Lisboa. Para verem como se reconstituiu no Museu Nacional de Arque- ologia (MNA), com 200 toneladas de granito e usando técnicas da Idade do Ferro, o balneário do castro do Alto das Eiras (V.N.Famalicão).

"Pedra Formosa: Arqueologia Experimental", inaugurada ontem, é, como o título indica, uma tentativa de dar forma a um monumento datável entre mil anos antes e mil anos depois de Cristo, na fase proto-urbana da cultura castreja que dominou o Noroeste da Península Ibérica (conhecem-se 28 banhos, 16 dos quais no Norte de Portugal).

O estudo arqueológico dessa ruína - identificada em 1880 por Francisco Martins Sarmento e escavada, em 1990, pela autarquia (sob direcção de Francisco Queiroga e António Pereira Dinis) -, os textos do geógrafo e historiador grego Estrabão e a etnografia (com o saber dos canteiros e carpinteiros), tornaram possível o projecto. Iniciado há cerca de um ano, com comissariado científico do arqueólogo Armando Ferreira da Silva.

Cravado numa colina, os balneário do Alto das Eiras tinha um átrio aberto com tanque (para banhos de água fria no final) e uma antecâmara onde se deixava a roupa e untava o corpo com óleos. Para aceder à câmara de sudação (uma espécie de sauna), era preciso rastejar pelo buraco de meio metro de altura aberto na Pedra Formosa (parede decorada). A fornalha ficava por detrás do edifício.

"Em tempos pensou-se que se tratava de fornos crematórios, porque esses povos cremavam os mortos e não há muita arte na cultura castreja. Mas a tese foi perdendo forma com esta escavação", explica ao DN Luís Raposo, director do MNA. E, ao contrário dos fins higiénicos e de convívio social que posteriormente romanos e árabes deram aos banhos, "estes seriam locais de purificação e de bravura", talvez só acessíveis a guerreiros.

Numa sala adjacente exibem-se ainda peças em cerâmica, braceletes de ouro ou utensílios para fazer pão de bolota, achados arqueológicos deste e de outros castros do concelho. Organizada em parceria com a câmara de Famalicão, a exposição não só amplia a discussão científica e se reveste de carácter didáctico, como dá continuidade à política de convocar património local para aquele museu nacional. Patente no Mosteiro dos Jerónimos até Dezembro, este "monumento" da arqueologia experimental será depois instalado na área de acolhimento do Alto das Eiras.

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