Massacre de islamitas na Mesquita Vermelha

O assalto das tropas especiais à Mesquita Vermelha de Islamabad (Lal Masjid) fez ontem pelo menos 50 mortos entre os islamitas e 8 entre os militares. O número soma-se ao de 24 vítimas dos dias anteriores, mas será provisório, pois estariam centenas de pessoas no local. Pelo menos 25 soldados ficaram feridos. Ao longo do dia, ouviram-se tiros e explosões, com colunas de fumo a erguerem-se na zona onde decorria a luta.

Ao todo, foram libertadas 60 mulheres e crianças, algumas delas feridas, mas continuava a ser pouco claro se isso resultara da fuga de uma situação de cativeiro. Uma testemunha dizia que o local estava "repleto de cadáveres" e, ao início da noite, em Islamabad, os chefes militares reconheciam que havia resistência em 20% dos edifícios.

O ataque foi lançado de manhã, pouco depois de ter fracassado a mediação de um grupo de religiosos. Tudo começou com uma barragem de explosões (granadas atordoantes) e nutrido tiroteio. A limpeza prosseguiu com precaução: havia atiradores no minarete e muitas das salas estavam armadilhadas. Os soldados queriam limitar o número de baixas e procuraram controlar as caves. No interior, os rebeldes recusavam render-se. Acusados de usarem os civis como "escudos humanos", estes militantes teriam ligações a grupos radicais próximos da Al-Qaeda.

A situação que se vivia no interior da mesquita foi sempre incerta. As autoridades disseram desde o início que os civis eram reféns e temiam que os islamitas efectuassem um massacre, intenção negada pelos militantes. Nas ruas próximas, os familiares dos estudantes retidos esperavam ansiosamente por informações.

O líder rebelde, Abdul Rashid Ghazi, morreu no combate. Segundo um relato, Ghazi comandou um grupo que saiu, aos tiros, da zona subterrânea onde resistiam os últimos islamitas. Segundo outro relato, o líder da mesquita tentou render-se e acabou por ser abatido, não sendo claro se foi morto pelos seus companheiros ou pelos soldados. Rashid era irmão do anterior líder, Abdul Aziz, preso quando tentava fugir vestido com burqa. De manhã, numa pausa dos combates, Rashid teve tempo para, em dramática entrevista, dizer que o seu martírio era certo e que a própria mãe estava entre os mortos.

Com ingredientes para se transformar num poderoso mito, o cerco à Mesquita Vermelha abalou a sociedade paquistanesa. Lal Masjid era o centro de um movimento que exigia a instauração da lei corânica (sharia) e simpatizava com os talibãs.

O conflito coloca interrogações sobre o futuro do presidente Pervez Musharraf, que ordenou o assalto. O general começou por ser neutro face aos islamitas, mas é agora firme aliado dos EUA. Musharraf está no poder há oito anos e quer novo mandato presidencial, mantendo o controlo da tropa. A ambição surge apesar da contestação islamita, da rebelião larvar nas zonas tribais e dos protestos da classe média, descontente com a ausência de democracia. O presidente pode ser forçado a negociar com os partidos democráticos.|

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