Um discurso histórico?

O discurso pronunciado pelo Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, a 10 de Fevereiro de 2007 em Munique, foi indiscutivelmente importante. Mas será histórico, ou seja, entrará ele para a História?

Em primeiro lugar, a conferência exposta no âmbito das reuniões sobre Política de Segurança, realizadas em Munique no mês de Fevereiro, é um texto que contrasta com as orações habituais do género. É um texto reflectido e de alta qualidade política. As questões são apresentadas de forma desassombrada, clara e quase hierarquizada.

Putin não foi a Munique, centro anual do pensamento estratégico ocidental, para perder tempo, ou fazer perder tempo. Usou a linguagem política e dispensou a diplomática, sem deixar de ser cuidadoso.

Em segundo lugar, o discurso anuncia o retomar de uma política externa independente por parte de Moscovo. Como disse o próprio Putin, "a Rússia é um país cuja história se estende por mais de mil anos e teve quase sempre o privilégio de possuir uma política externa independente". De facto, poucos Estados têm uma política externa independente.

Essa política externa independente é tanto mais necessária para Putin quanto ele considera negativo, e irrealista, um mundo unipolar, com "um só dono e uma só soberania". Ora os EUA, que se aproximam daquela concepção, estão a hiperusar a força militar unilateralmente, a extravasar em vários campos as suas fronteiras nacionais e a impor às outras nações os seus pontos de vista nos domínios "económico, político, cultural e educacional", segundo o antigo oficial da KGB. E pergunta: "Quem gosta disto? Quem se sente feliz assim?"

A resposta é dada pela asserção seguinte segundo a qual, desta forma, "ninguém se sente seguro". Por conseguinte, esse estado de coisas desencadeia uma nova corrida armamentista e, o que mais é, essa política de força encoraja, "inevitavelmente", um certo número de países a adquirirem armas de destruição maciça.

Embora com nuances, entroncam aqui as novas ameaças de terrorismo global.

O Presidente da Rússia propõe que se volte a dar o papel principal na resolução dos conflitos internacionais à diplomacia multilateral, remetendo o uso da força para casos excepcionais, como excepcional é a aplicação da pena de morte no funcionamento dos sistemas judiciais dos países que a admitem...

Em terceiro lugar, Putin tenta relançar as políticas de desarmamento nas prioridades da agenda internacional, recuperando os compromissos tomados nos anos 90, no domínio das armas nucleares e até das armas internacionais. Caso os EUA se dispuserem a retomar esses pontos, a Rússia estará mais disponível para continuar a lutar contra a proliferação de armas nucleares e a combater a actual tendência de vários países para se dotarem de mísseis de curto e longo alcance. E cita as duas Coreias, a Índia, o Paquistão, o Irão e Israel. Caso essa tendência não seja travada, a Rússia tomará as suas próprias disposições, avisa.

Em quarto lugar, Putin chama a atenção para a necessidade de se prevenir o mundo contra a militarização do espaço, uma ameaça que considera real e capaz de inaugurar uma nova era nuclear.

Ora, se nos lembrarmos, digo eu, de que a China está a desenvolver sistemas de artilharia anti-satélites e que já é capaz de atingir os meteorológicos que ela própria lançou, compreende-se melhor como "a guerra das es- trelas deixou de ser uma fantasia".

Em quinto lugar, o discurso de Putin tanto coloca os pontos nos iis nas questões em que discorda do comportamento dos EUA, e também da NATO e da UE, como constantemente se apresenta dialogante. Começa por citar Franklin Roosevelt, o Presidente do tempo da grande aliança entre os EUA e a Rússia, oferece os seus bons ofícios para neutralizar os perigos da utilização pacífica da energia nuclear, recorda o seu empenhamento contra a proliferação das armas atómicas e promete transparência no fornecimento de gás e petróleo ao preço do mercado mundial.

Putin veio assim apresentar o menu da Rússia nas relações internacionais depois do efeito de hibernação do seu poder nos últimos 15 anos. Joseph Nye dirá que a política russa sofre o efeito de pêndulo. É certo, mas até o dirá o movimento contrário.

Tudo aponta para importância futura do discurso do Presidente da Rússia em Munique. Dir-se-á mais tarde "o discurso de Munique" de Putin, como ainda hoje se fala, por exemplo, no "discurso de Zurique" de Churchill?

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