Tradição taurina reúne pai e filho na arena

Um gato preto, um chapéu em cima da cama e usar a cor amarela causam arrepios a dois homens que têm como profissão enfrentar touros, normalmente, com mais de 500 quilos. Parece piada, mas não é. João Moura, pai, 49 anos, e João Moura Filho, 18 anos, fazem parte de uma dinastia de cavaleiros tauromáquicos, cujo nome faz encher praças dentro e fora do País.

E é no Alentejo profundo, em Monforte, que passam, pelo menos nove horas por dia a treinar para "atingir a perfeição" na arte que tomaram como opção de vida ainda crianças. "Comecei a tourear aos sete anos, mas aprendi a montar a cavalo aos quatro", conta João Moura (pai), e com orgulho refere que o filho lhe seguiu as mesmas pisadas.

Os sustos começaram logo cedo. "Pouco tempo depois de ter aprendido a andar a cavalo, sofri uma queda que me deixou em coma durante dois dias", mas o percalço não afastou este veterano das arenas de seguir o seu sonho, também ele muito motivado pelo pai João Augusto Romão de Moura. "O meu pai era criador de cavalos, um excelente equitador e um grande aficcionado das touradas", justifica o toureiro com mais de 30 anos de carreira.

O passo formal tomou-o em 1978, aos 18 anos, em Santarém, quando recebeu das mãos do mestre David Ribeiro Telles o primeiro ferro como toureiro profissional. "Foi a minha passagem de praticante a profissional e era uma meta muito desejada", recorda.

Seguiram-se anos de glória como figura máxima nos cartéis em Portugal e no estrangeiro. "Nos meus tempos áureos, fazia entre 70 a 80 corridas por ano" e passadas três décadas o número não baixou muito. "Agora faço 50 a 60."

A diminuição de apresentações está também relacionada com o maior apoio que quer dar ao filho, a quem deu a alternativa no Campo Pequeno no dia 3 de Maio. Este passo de João Moura Filho enche o pai de honra, porque foi sempre o que sonhou para ele, admite. "Este é um negócio de família" que já tem continuidade assegurada.

"Desde muito cedo que percebi que queria ser uma figura máxima do toureio a cavalo", diz o João Moura mais jovem, cujos triunfos do pai o fizeram acreditar que para si também era possível "viver desta vida". "Não é fácil, exige muitos sacrifícios", mas não a trocavam "por nada", confessam quase em coro.

"O facto de ser filho de quem sou traz-me muito mais responsabilidade, porque levar o nome Moura não é fácil. Mas ao mesmo tempo é um grande orgulho para mim", e enche o peito para dizer cada uma destas palavras, reconhecido também pelo apoio que o pai lhe proporcionou para que o "triunfo" já faça parte da sua carreira.

Desde que aos sete anos participou na sua primeira garraiada em Monforte, nunca mais pensou em fazer outra coisa na vida e o percurso dos dois foi-se alinhando e colocando-se em paralelo. Treinam juntos e esse trabalho reflecte-se na arena. "A base da escola é a mesma", diz o João Moura sénior, mas a frase é rematada pelo júnior: "O meu pai é que me ensinou tudo, por isso é normal que o meu toureio se assemelhe ao dele, apesar de haver algumas coisas que nos distinguem". "Ele não pode é copiar-me, tem que colocar uma marca própria", remata o patriarca.

O mais importante é agradar ao público, o grande juiz de todos os toureiros por ser implacável. E tendo sempre essa meta como referência, fazem, separadamente, a mesma confissão surpreendente: não têm medo da morte, apesar de terem consciência de que têm uma profissão muito arriscada, "nem se pensa nisso...", têm é "medo do fracasso."

"Ser só mais um, entre os muitos toureiros que existem, é fácil, agora ser um fora de série e manter esse nível durante muitos anos é muito difícil" diz João Moura (pai) do alto da sua experiência, mas no olhar tem a esperança de que o filho o consiga. |

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